O tarifaço de 50% para vendas aos Estados Unidos, em vigor desde o dia 06 de agosto, está impactando indústrias catarinenses de forma diferente. Depende da exposição porcentual de vendas ao mercado americano, da situação financeira da empresa, do custo de produção das matérias primas, prazos contratuais e outros fatores. A
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Artefama, indústria de móveis de São Bento do Sul que anunciou o maior número de demissões após o tarifaço (cerca de 300), já enfrentava dificuldades financeiras e está em recuperação extrajudicial desde dezembro de 2023.
Logo após o anúncio da taxação pelo presidente Donald Trump, indústrias e outras empresas exportadoras aos Estados Unidos começaram a enfrentar impactos da medida de forma diferente. O cenário ficou pior logo para empresas de madeiras e móveis por terem produto considerado mais commodity, de fácil acesso para importar de outros países.
Essas empresas têm, também, contratos de exportação mais simples, que podem ser suspensos no curto prazo. Já empresas que vendem produtos com tecnologia, essenciais para linhas de produção, têm contratos com prazo de até cinco anos. Alguns não têm substitutos no mercado mundial. Essas empresas vão demorar mais para sentir a crise do tarifaço e talvez nem sintam.
Então, entre as que enfrentam efeitos imediatos no setor de madeira e móveis estão as que já vinham com dificuldades econômico-financeiras ou estavam destinando grande percentual ao mercado americano. Algumas empresas de madeira informaram que vendem 100% aos EUA.
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Mas um fato novo que chama a atenção nesse setor é a forma como muitas empresas estão conseguindo ser resilientes ao adotarem várias medidas para se manterem no mercado. Quem tem as próprias florestas reduz o custo da matéria-prima. Clientes dos EUA também cedem um pouco, a Federação das Indústrias do Estado (Fiesc) negociou redução das tarifas portuárias para as exportações, programas tributários da União e estados ajudam um pouco e, agora, começou a oferta de crédito bancário mais acessível do BNDES a empresas afetadas.
Essa série de ações está permitindo reduzir em torno de 25% os custos e tornando o produto de SC quase tão competitivo quanto o dos concorrentes asiáticos que têm uma tarifa menor. Assim, mais empresas podem conseguir manter seus mercados nos Estados Unidos, acredita o presidente da Fiesc, Gilberto Seleme, que liderou várias ações com esse objetivo. Com esses e outros apoios e estratégias, pode ser possível resistir por alguns meses ou mais, até que seja negociada a redução da tarifa com os EUA, voltando a normalidade.
Contudo, para empresas que já vinham enfrentando dificuldades econômico-financeiras específicas, como é o caso da Artefama e de algumas outras, a resiliência para enfrentar a injusta alíquota de 50% dos EUA pode ser menor, e, assim, exigir medidas mais drásticas.
Fundada em 1945 por um grupo de quatro sócios, a Artefama já tem trajetória de 80 anos no setor de madeira e móveis. Uma das pioneiras do setor em São Bento do Sul ela fez a primeira exportação aos Estados Unidos em 1967.
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A Artefama conta, atualmente, com amplo parque fabril e também florestas próprias para a matéria-prima principal. Atua nos mercados nacional e internacional. Esta não é a primeira vez que enfrenta crise vinda de fora. Em 1994, quando entrou em vigor o Plano Real, e a nova moeda – o real – passou a ter, artificialmente, valor maior do que o dólar, a empresa teve dificuldades.
Além disso, em nova crise, a Artefama solicitou recuperação judicial em 2009 e, em dezembro de 2023, a companhia, novamente com situação econômico-financeira difícil, solicitou recuperação extrajudicial. Logo que surgiu o tarifaço, a companhia mostrou sentir impacto nas atividades, informaram colaboradores. A decisão de reduzir o quadro de empregados em cerca de 300, segundo fontes da cidade, foi anunciada quarta-feira (17).
A empresa comunicou em nota que está fazendo ajustes para enfrentar o tarifaço e prometeu informar ao presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção e do Mobiliário de São Bento do Sul e Campo Alegre (Siticom), Airton Edson Martins de Anhaia, o número exato de demissões na tarde desta sexta-feira. Agora, com a liberação de linha de crédito do governo federal, ela poderá buscar recursos mais acessíveis para seguir produzindo.
Apesar de sediar o maior polo exportador de móveis de madeira do Brasil, São Bento do Sul conta com setor industrial diversificado e quase todas as empresas necessitam de mais trabalhadores diante do pleno emprego em SC, com taxa de desemprego de 2,2% no segundo semestre. Entre as maiores indústrias de São Bento estão a Tuper (da ArcelorMittal), Oxford Porcelanas, Duddemeyer, Condor, Fiação São Bento e Móveis Rudnick.
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