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Enxurrada

Radar de Lontras desligado e dificuldades na comunicação impediram alerta a Presidente Getúlio

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Por Evandro de Assis
18/12/2020 - 11h50 - Atualizada em: 18/12/2020 - 15h21
Quando Presidente Getúlio recebeu alerta vermelho, cidade já estava sob lama e água
Quando Presidente Getúlio recebeu alerta vermelho, cidade já estava sob lama e água (Foto: Patrick Rodrigues)

“Entre a tarde e noite há chance de temporais isolados em áreas da região Oeste ao Litoral, devido à atuação de áreas de instabilidades. [...] Portanto, há um risco potencial moderado para desastres”.

Essa era a previsão do tempo para Santa Catarina divulgada pela Defesa Civil do Estado às 4h54min de quarta-feira (16). Ao longo daquele dia, posts no Facebook, nos Stories do Instagram e em grupos de Whatsapp dos líderes regionais de Defesa Civil informaram sobre a possibilidade de transtornos com a chuva em quase todas as regiões catarinenses. Eram comunicados abrangentes no espaço e no tempo. E parecidos com o que a população ouve com frequência na previsão do tempo. “Chance de temporais, granizo e vendavais isolados”.

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Presidente Getúlio, o município mais atingido pelo desastre, seria mencionado nos avisos públicos às 23h56min, em uma postagem que recomendava “Atenção” para deslizamentos. E só ganhou o status vermelho, de “Alerta”, à 0h50min, quando a cidade já estava sob água e lama.

A natureza do fenômeno, difícil de se prever com antecedência, a falta do radar meteorológico de Lontras, desligado desde agosto, e empecilhos para fazer chegar as mensagens da Defesa Civil a quem precisava ser alertado ajudam a explicar o tamanho da tragédia. Ninguém no bairro Revólver, o mais devastado, esperava o que aconteceu.

O único aviso distribuído ao Conselho Municipal de Defesa Civil de Presidente Getúlio veio às 10h18min de quarta. Nele, quase todo o Estado aparecia em amarelo, com exceção do Norte. Nessas áreas, poderiam ocorrer “queda de granizo e rajadas de vento. Não se descartam alagamentos, enxurradas e deslizamentos pontuais”.

Defesa Civil e meteorologistas explicam que chuvas intensas e localizadas são difíceis de se prever com horas de antecedência. É por isso que a área do aviso era tão abrangente.

Radar de Lontras

A falta do radar de Lontras, desativado desde agosto para manutenção, agravou o problema. Segundo a Defesa Civil do Estado, há a necessidade de substituição de peças, que só são fabricadas por encomenda pelo fornecedor, nos Estados Unidos. O radar já havia apresentado defeitos em janeiro e junho deste ano.

> Mulher perde nove familiares na enxurrada em Presidente Getúlio.

Quando foi adquirido e instalado, ao custo de R$ 10 milhões, em 2014, o radar fora apresentado pelo governo estadual como ferramenta para tornar mais preciso o monitoramento de chuvas intensas, como as que atingiram o Vale do Itajaí em 2008 e 2011. Segundo o doutor em Meteorologia Dirceu Severo, que atua no Centro de Operações da Bacia Hidrográfica do Itajaí-Açu (Ceops/Furb), em Blumenau, o radar consegue identificar os locais onde estão se formando nuvens carregadas.

— O radar é exatamente para esse tipo de situação. Ele consegue te dizer com 15 minutos, talvez até meia hora de antecedência, a região onde há a formação dessas nuvens. Um meteorologista tem que ficar olhando para a imagem de radar e passar os avisos para os municípios — pontua Severo.

— O radar meteorológico é um refinamento da previsão. No dia do evento, com a nuvem formada, o radar dá qualidade para precisar a região e a intensidade do evento. É uma previsão de curtíssimo prazo — explica o meteorologista Leandro Puchalski.

Conforme a Defesa Civil, a inatividade do radar de Lontras vem sendo suprida pelo radar existente no Morro da Igreja, em Urubici, por uma parceria com o Estado do Paraná para fornecimento de informações, pelas imagens de satélite e por uma ferramenta de captação de descargas elétricas. O órgão garante que emitiu os alertas necessários para o Alto Vale do Itajaí.

> Criança está entre as 11 vítimas identificadas na tragédia do Alto Vale.

Comunicação

Há ainda questões de comunicação a serem aprimoradas. A Defesa Civil dispara avisos meteorológicos por SMS. Mas é preciso cadastrar o telefone celular para receber as mensagens. Fora os cadastrados, só quem segue o órgão nas redes sociais tem acesso aos alertas de curto prazo. Isso ainda depende dos algoritmos do Facebook e do Instagram. O Twitter da Defesa Civil ( 247 mil seguidores), canal usado para disseminação de mensagens com agilidade, está sem atualização desde 6 de outubro.

Durante a chuvarada, Presidente Getúlio ficou sem energia elétrica e sinal de celular. Poucos receberam as mensagens durante a noite e só perceberam a intensidade do fenômeno pelo barulho da tempestade.

Em resumo, na melhor das hipóteses, as vítimas da enxurrada no bairro Revólver sabiam da possibilidade de chuva forte tanto quanto os moradores de Imbituba (207 km dali) ou Calmon (250 km), municípios que também receberam avisos de temporal isolado na quarta-feira.

Num estado em que raras são as semanas sem a previsão de fenômenos climáticos potencialmente desastrosos, detectar e comunicar riscos com ênfase e precisão são questões de vida ou morte.

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