Michel Rolland, um dos enólogos mais influentes da história moderna, faleceu no dia 20 de março de 2026, aos 78 anos, em Bordeaux, França. Nasceu em Bordeaux, França, no Chateau Le Bon Pasteur em Pomerol e revolucionou o mundo do vinho, com seus brancos e tintos de estilo concentrado, textura sedosa, taninos macios e teor alcoólico elevado.

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Sua trajetória redefiniu estilos, mercados e a própria forma de produzir vinho nas últimas décadas, se tornando um dos enólogos mais influentes, mas também mais controversos da história moderna do vinho.

Origem em Bordeaux e formação de Michel Rolland

Michel teve como berço Bordeaux; região de alguns dos ícones do mundo, nascido em uma família tradicional de produtores de vinho, sendo sua primeira escola. Seus pais possuíam um pequeno laboratório de análises enológicas, onde ele começou a ter contato direto com a ciência do vinho, ainda muito jovem.

Estudou enologia na Universidade de Bordeaux, uma das instituições mais prestigiadas do mundo na formação de enólogos, onde conheceu sua esposa Dany Rolland, também enóloga.

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Estilo e influência no mercado

Rolland e sua equipe assumem um papel muito ativo nas operações de vinhedos e na seleção das uvas, garantindo qualidade em todos os aspectos do processo de produção. Ser assessorado por Michel Rolland sempre significou muito no mundo do vinho.

Seus vinhos sempre foram reconhecidos internacionalmente e possuem um estilo bem característico. São vinhos maduros, ricos em frutas maduras e bem estruturados, taninos presentes e redondos e carvalho proeminente, muito bem recebidos pelos consumidores deste estilo mais estruturado e por alguns dos mais renomados críticos, como Robert Parker, cujo sistema de pontuação teve enorme impacto no mercado de vinhos.

Isso levou muitos produtores a procurarem Rolland para ajustar seus vinhos ao gosto internacional da maioria do mercado à época. Este estilo dominou o mundo dos vinhos por algumas décadas, criando o estilo Michel Rolland.

O “enólogo voador” e atuação global

Sendo um dos pioneiros na categoria “flying winemaker” (enólogo voador), termo que em 1990 começou a ser usado ao enólogo que viaja o mundo inteiro prestando consultorias para um grande número de vinícolas, sendo com certeza o mais renomado ‘’enólogo voador”.

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Porém, nos anos 1970 Rolland assumiu o laboratório da família ao lado do irmão, Philippe Rolland; a partir daí começou a trabalhar como consultor enológico, ajudando produtores a melhorar a qualidade, estrutura e consistência de seus vinhos.

Este modelo de enólogo consultor internacional era novo nessa época, e Rolland foi um dos pioneiros, viajando pelo mundo e assessorando mais de 100 regiões vinícolas, em países como Argentina, Chile, Estados Unidos, Itália, Espanha, África do Sul e Brasil.

Em Mendoza, Argentina, teve papel importante na valorização da Malbec. No Vale do Uco criou grandes vinhos, como Clos de Los Siete, Mariflor e Val de Flores, ajudando a projetar os vinhos argentinos no cenário internacional.

No Brasil, foi consultor na Vinícola Miolo de 2003 a 2013. Além da consultoria, Michel Rolland também era coproprietário de diversas empresas e projetos, entre eles: Clos de los Siete (na Argentina), Château Fontenil (Fronsac, Bordeaux, França) e Château Le Bon Pasteur (Pomerol, Bordeaux, França).

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Técnicas que mudaram a produção

Outra importante revolução trazida e implementada no mundo dos vinhos foi a maturação extrema. Até os anos 1970 e início dos anos 1980, muitos produtores de Bordeaux colhiam as uvas mais cedo, priorizando a acidez e frescor, o resultado eram vinhos mais duros, vegetais e tânicos, especialmente em safras difíceis.

Rolland começou a defender algo que à época era quase uma heresia: esperar mais tempo para colher. Ou seja, permitir a maturação fenólica completa, quando taninos, sementes e cascas atingem a maturidade real, e não apenas açúcar.

Como consequência, traz taninos muito sedosos, fruta mais madura, textura mais aveludada, menos notas verdes. Esta visão transformou profundamente o estilo de muitos vinhos, não só em Bordeaux, mas também em regiões como Mendoza, Napa Valley e Toscana.

Outras mudanças que viraram assinatura Michel Rolland foram as técnicas de micro oxigenação, ou seja, usar o oxigênio controlado para amaciar os taninos. A seleção rigorosa das uvas, o que permitiu fermentações mais controladas, e o uso estratégico de barricas novas.

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Todas estas práticas produziam vinhos mais redondos, intensos e sedutores, mesmo ainda jovens.

Legado e controvérsias

Enfim, para alguns, Michel Rolland é um gênio que elevou a qualidade média do vinho mundial. Para outros, ele representa o risco de uniformizar estilos, diminuindo as diferenças entre terroirs.

Porém ele mesmo citou esta frase que se tornou célebre: ‘’O vinho não deve ser feito para impressionar especialistas. Ele deve ser feito para dar prazer”.

A trajetória de Michel Rolland revela uma das tensões mais fascinantes do mundo contemporâneo: tradição versus desejo. Entre o rigor do terroir e a sedução do mercado global, ele se tornou uma figura que transcendeu a técnica e produziu um estilo.

Seus vinhos chegam envolventes, quase provocadores, e isso sempre provoca paixão e crítica. Afinal, no vinho como na vida, aquilo que seduz profundamente quase sempre divide opiniões.

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