nsc
    nsc

    Opinião

    A “tempestade perfeita” que colocou Blumenau nas manchetes do mundo

    Compartilhe

    Pedro
    Por Pedro Machado
    01/05/2020 - 12h44 - Atualizada em: 03/05/2020 - 10h08
    Rua XV de Novembro em Blumenau
    Foto: Patrick Rodrigues, BD

    Uma ação de marketing malsucedida de um shopping, potencializada pelo flagrante em vídeo de um comportamento no mínimo inadequado de algumas poucas pessoas, seguida pela disparada de casos confirmados da doença que aflige o planeta. Eis a “tempestade perfeita”, expressão muito usada na economia para ilustrar o desencadeamento de fatos negativos em série, responsável por colocar Blumenau nas manchetes nacionais e internacionais nos últimos dias. Depois de figurar na lista de assuntos mais comentados do Twitter, o nome da cidade foi parar até mesmo em reportagens de alguns dos principais jornais do mundo, como o americano The New York Times e o britânico Daily Mail.

    > Coronavírus em Blumenau: 'vida normal' e testagem dobram número de casos, dizem médicos

    > Em site especial, saiba tudo sobre o novo coronavírus

    O que está se vendo agora na cidade é reflexo de dois fatores que precisam ser analisados separadamente, cada qual com suas implicações no avanço da Covid-19: o afrouxamento do isolamento social, cujo ápice foi a retomada do comércio a partir do dia 13 de abril, e a aplicação de um número maior de testes em pacientes com sintomas e profissionais da rede de saúde.

    A reabertura das lojas e a liberação geral de serviços levam mais gente às ruas e, mesmo com o protocolo de higiene estabelecido, a disseminação do vírus, como todos sabemos e as próprias autoridades de saúde admitem, é inevitável, seja em Blumenau ou em qualquer lugar do mundo — o que se busca com as medidas restritivas é diminuir a velocidade dessa propagação, para não sobrecarregar a rede de atendimento da saúde. Por outro lado, a ampliação da testagem aplicada por aqui reduz a subnotificação, acrescentando às estatísticas oficiais casos que poderiam ser ignorados.

    > O vírus está nas roupas, nos sapatos, no cabelo ou no jornal?

    Desde o início da crise a prefeitura de Blumenau vem adquirindo testes em laboratórios particulares, em contrapartida à demora do Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina (Lacen), vinculado ao governo, em validar os dados locais. Era preciso, justificam as autoridades locais, mais agilidade no levantamento de informações para nortear o planejamento de enfrentamento à pandemia. O município já comprou 3 mil testes e recentemente lançou pregão para a compra de outros 15 mil, podendo chegar a 50 mil. Ou seja, é certo que, com mais gente sendo testada, os casos continuem a subir consideravelmente.

    > Painel do Coronavírus: veja em mapas e gráficos a evolução dos casos em Santa Catarina

    > Quem são os mortos por Covid-19 em Santa Catarina

    Blumenau foi lançada às vitrines da mídia por causa das imagens de gente aglomerada na abertura de um shopping no dia 22 de abril. Mas bem antes disso já se viam pessoas à toa nas ruas ignorando o isolamento social e desafiando a pandemia. No dia 13 do mês passado, quando o comércio reabriu as portas, o prefeito Mario Hildebrandt chegou a dizer que "dá vontade de chorar" ao ver, por exemplo, idosos fora de casa sem necessidade. As cenas do shopping apenas sintetizaram um comportamento pregresso.

    Virais de internet também pautam a imprensa. É por isso que Blumenau está sendo tratada como referência na relação entre o arrefecimento do distanciamento e o crescimento de casos do novo coronavírus, embora nem sempre a partir de um olhar contextualizado. Para uma cidade que tanto se vangloria da qualidade de vida e da resiliência de seu povo, a repercussão negativa fere o orgulho. Por outro lado, a exposição também pode ser uma oportunidade única de aplicarmos na prática, agora no que diz respeito ao combate ao coronavírus, o discurso tão repetido de que somos diferentes.

    Deixe seu comentário:

    Últimas do colunista

    Loading...

    Mais colunistas

      Mais colunistas