Inquieto convicto, o arquiteto catarinense Jeferson Branco se deu uma missão: mostrar, por meio da arquitetura, uma Santa Catarina que tem riquezas diversas – e que vai muito além da reprodução de culturas europeias. Foi com esse conceito que ele projetou o pavilhão catarinense na Bienal de Arquitetura Brasileira, que acontece até o fim de abril no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
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A exposição reúne pavilhões semelhantes de outros estados. Cada um deles simula uma casa contemporânea que se propõe a fazer uma imersão no bioma, na identidade e na cultura dos territórios – um show de cores e elementos que retratam a diversidade de um país continental.
No espaço de Santa Catarina na Bienal, Branco explorou obras de criadores locais com a ideia de revelar a diversidade de influências culturais que formam o território catarinense, passando pela relação com a Mata Atlântica e destacando o dinamismo industrial. O objetivo é fazer um contraponto da perspectiva que vincula o Estado à ascendência europeia – uma visão propagada para o restante do Brasil que ele considera “reducionista”.
Em 2023, Branco apareceu na Forbes Under 30, lista da tradicional revista com jovens de menos de 30 anos que se destacam em suas áreas de atuação. Nesta breve entrevista concedida à coluna, o arquiteto, que tem escritório em Itajaí, fala sobre essa indignação e alfineta a arquitetura “em prol da especulação imobiliária”, em alusão à forte verticalização no Litoral Norte.
— A competição é por quem faz o maior e não por quem faz o melhor — avalia.
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Você diz que fica indignado com a visão que muitas vezes a arquitetura catarinense tem em outras regiões do Brasil. Por quê?
Hoje a gente está inserido em rodas de conversa de design e arte, um meio muito aculturado da qualidade arquitetônica. E nessa troca com essa galera, mais no eixo Rio-São Paulo, onde isso já é consolidado, é vista com maus olhos (a arquitetura catarinense) porque a gente tenta replicar modelos europeus. Acho que o maior ponto é tentar copiar algo. Sempre é um modelo neoclássico que vinha da Europa, agora uma tentativa de ser uma Dubai brasileira, importando dos Emirados Árabes. Existe muita verdade aqui no Brasil. A gente tem muita potência criativa, muita possibilidade de materiais, indústria e tudo mais. Santa Catarina é um estado riquíssimo, que está sendo consolidado de uma forma muito reducionista, por uma cultura simplesmente de cópias europeias ou dos Emirados Árabes. Então isso me deixa muito incomodado, porque eu sei da riqueza do Estado. Nosso trabalho é muito pautado na produção local, na produção de cultura, de entender comportamento humano. Enxergar essa riqueza toda sendo apagada me deixa muito indignado.
Veja fotos do Pavilhão de Santa Catarina na Bienal
Que riqueza é essa que você acha que deve ser valorizada?
Aqui no projeto da Bienal a gente apresenta 75 designers e artistas catarinenses, ou imigrantes que fazem Santa Catarina. A gente tem uma riqueza de materiais absurdos. Temos artistas que trabalham com porcelana, com madeira amazônica, com resina, com tapeçaria, com mármore, aço inox, a gente tem peças minimalistas, a gente tem peças maximalistas, tem peças de design art, a gente tem utilitários do dia a dia. É uma diversidade e um mix muito grandes, que às vezes as pessoas não conseguem nem imaginar isso tudo junto. Ter juntado tudo isso e mostrado harmonia entre essa produção, por mais diversa que ela seja, eu acho que é muito legal.
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A corrida pela verticalização na construção civil, principalmente na região de onde você vem, contribui para essa visão reducionista que outros mercados têm de Santa Catarina?
Com certeza. Até porque esses grandes arranha-céus não são qualificados. A gente está vendo quantificação disso. A competição é por quem faz o maior e não por quem faz o melhor. Muitas vezes, esses espaços estão sendo boicotados pela altura. Para conseguir um índice maior, para conseguir construir mais, o espaço criado para a vivência diária da família acaba sendo cada vez mais confinado. Não é uma arquitetura que apresenta uma qualidade de vida efetivamente. É uma arquitetura em prol da especulação imobiliária. A gente traz aqui (na Bienal), por exemplo, a FHaus, que é uma nova construtora em Balneário Camboriú, que tem um gabarito máximo de 16 pavimentos. Dezesseis pavimentos é um gabarito máximo, comprovado cientificamente pela arquitetura e pelo urbanismo, que as pessoas conseguem ter relação com a rua. A pessoa que está lá em cima no 16º pavimento ainda consegue enxergar a fisionomia das pessoas que estão passando na rua. Depois disso, ela perde essa relação. Então esses arranha-céus, essa tentativa de novo de copiar modelos de estrangeiros, isso só prejudica a imagem do Estado, com toda certeza.
Você vê espaço para propor uma arquitetura mais disruptiva nesse mercado, que é um pouco mais conservador?
Vejo com muito bons olhos, até pelo nosso escritório, que é super jovem ainda, tem cinco anos de praça. Temos ganhado muito destaque, fomos selecionados pela Forbes Under 30 como uma grande promessa da arquitetura do país. Alguns outros veículos de arquitetura também, superimportantes, deram essa validação. É algo diferente, eu não digo nem que certo ou melhor, mas algo de diferente a gente está fazendo no mercado. Então existe esse espaço, sim. Eu digo para o pessoal do meu próprio escritório, hoje temos oito funcionários, que a minha maior função é mostrar para eles que existe a possibilidade de uma arquitetura de qualidade. Porque eu acredito muito que as pessoas são produto do meio em que elas vivem. Se a gente vive ao redor de uma arquitetura medíocre, e medíocre no sentido de mediana mesmo, não de pejorativo, a gente só vai produzir uma arquitetura medíocre, porque é aquilo que a gente conhece que está ao nosso redor.
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