Há pouca novidade na reação política à homenagem feita pela Acadêmicos de Niterói a Lula (PT) no Carnaval do Rio de Janeiro. De um lado, a militância que apoia o presidente fez a festa diante de sátiras da agremiação a Jair Bolsonaro (PL) e a grupos conservadores. Do outro, a oposição, encabeçada pelo presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), acusa o governo de propaganda eleitoral antecipada financiada com recurso público. Além dos carros alegóricos, a polarização também desfilou na Sapucaí.

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Em uma eleição com aparente pouca margem para surpresas e que novamente tende a ser marcada pelo voto cristalizado – ou seja, em parte já definido antes mesmo da campanha começar –, o episódio não muda absolutamente nada para lulistas e bolsonaristas. Até aí, o enredo é o mesmo para esses. A grande dúvida reside na percepção do eleitor silencioso, aquele que as bolsas de apostas costumam dizer que de fato define a parada.

O eleitor silencioso pode ser de esquerda, de direita ou de centro – ou não se identificar com nada disso. Pode votar em Lula, em qualquer um dos Bolsonaro ou em uma terceira via. Pode sequer ir às urnas. Ele não costuma se manifestar sobre política nas redes sociais e não comparece a protestos, independentemente da cor da bandeira levantada. Pode até ser convicto de ideias, mas também pode estar completamente alheio a esse tipo de discussão e ser mais propenso a mudar de lado conforme o vento.

Em resumo, ele é um grande ponto de interrogação. Considerando a discrição, é quase impossível determinar o tamanho desse grupo – que vai além dos indecisos apontados pelas pesquisas tradicionais. Mas ele existe e está longe de ser ignorado por partidos e pré-candidatos, ainda mais em disputas que se desenham apertadas.

Além de inflar o ânimo das bases, a polarização e o controle da narrativa também servem para tentar capturar, ainda que temporariamente, esse voto mais “flexível”. Lula, vale lembrar, ganhou fôlego popular no episódio da taxação americana aos produtos brasileiros, encampando um discurso de soberania nacional e patriotismo que até então vinha sendo dominado pela direita. O mistério costuma ser a duração desse tipo de percepção, que vale também para a questão de agora: ela ganha corpo ou se dizima com o tempo, indo embora junto com a memória do eleitor?

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No caso do Carnaval, o pragmatismo no mínimo estranha a homenagem bancada com o dinheiro do pagador de impostos a um presidente da República que busca a reeleição. Não pega bem, independentemente do que concluir a justiça eleitoral sob o aspecto legal. Ao se permitir ser retratado na avenida, Lula fez o que o manual da campanha política não recomenda a quem lidera as pesquisas: colocou-se em risco. Sob os refletores, a oposição vestiu o figurino da indignação. Mas nos bastidores tem gente sambando com o desgaste alimentado pelo próprio adversário e mirando quem está fora das bolhas.