O empresário Valmir Zanetti construiu carreira na área financeira, mas encontrou nova vocação no ramo cervejeiro. Um dos fundadores da Cerveja Blumenau e ex-presidente do Blumenau e Vale Europeu Convention & Visitors Burean, defende ampla mobilização e integração entre empresários, instituições e poder público para promoção do turismo da região. No campo político, avalia que o governo precisa resgatar a credibilidade para que o mercado volte a investir. Ele é o terceiro nome ouvido pelo blog na série de entrevistas que marca o lançamento do novo santa.com.br.

Continua depois da publicidade

Curta Pedro Machado no Facebook​​​​​​​

Leia mais notícias de Pedro Machado​​​​​​

Leia também: “O próximo governador precisa ser um maestro e orquestrar a redução do tamanho do Estado”, avalia Ulrich Kuhn

Leia também: “A gente precisa pensar em um projeto de país, e não um projeto da esquerda ou da direita”, diz João Luiz Kornely

Continua depois da publicidade

Havia uma expectativa de retomada da economia do Brasil no início do ano que não está acontecendo no ritmo que se esperava. Por quê?

O governo fez um discurso contundente, mas não entregou o que prometeu. Em algum momento se viu enrolado em muitas discussões e problemas e se esquivando de processos, e isso gerou uma desconfiança ainda maior no mercado. E quem dita a regra é o mercado, não o que o político quer. Eu sempre digo que o preço, por exemplo, da cerveja não é aquele que eu quero vender, é aquele que o mercado aceita pagar pelo que eu estou entregando. E o governo está colhendo isso.

Caminhamos mais uma vez para uma eleição polarizada entre extremos. Isso representa risco para a recuperação da economia?

Altíssimo risco, na minha opinião. E o pior não é discutir quem é melhor, se a esquerda ou a direita, mas identificar que nenhum deles, nem mesmo o centro, tem proposta. Não se escuta proposta que soe decente para você se estimular a investir. Somente banqueiro está feliz com isso, porque ele enxerga a possibilidade de a inflação voltar, a possibilidade de ampliarem crédito. E não se resolve simplesmente ampliando crédito. Para isso, você teria que ter condições de ter juros decentes e prazos maiores. Mas não se está discutindo isso, apenas dar crédito. Dar crédito é endividar, e endividar é dar juros para banqueiro, que vai ser o único que vai ser beneficiado. Dos governos que passaram nos últimos 30 anos, e eu vivi mais de 30 anos no mercado financeiro, todos disseram a mesma coisa, que tinha que reduzir as taxas, mas não se conseguiu. A Selic até baixou, mas na ponta não aconteceu. O governo não conseguiu passar credibilidade.

Continua depois da publicidade

Como esse cenário atrapalha no planejamento do empresário e investidor?

Obrigatoriamente, quem é empresário, empreendedor e investidor olha sempre projetos de médio e longo prazos. Ele estipula uma rentabilidade mínima para esse projeto que no mínimo justifique o risco que ele está correndo, mais o processo inflacionário. Se você não enxergar oportunidade e seriedade no que se está vislumbrando, não vale a pena correr o risco. Além disso, temos coisas bem pontuais, como as questões trabalhistas e o nosso Judiciário. Há um grupo de juízes que dá uma sentença, de repente um outro juiz se sobrepõe e dá outra. Como o investidor vai acreditar nesse país desse jeito? É por isso que tem essa loucura toda de especulação no dólar ou na Bolsa.

Qual deve ser a grande prioridade do próximo presidente?

Eu, se tivesse essa condição, transformaria o governo e seus executivos em gestões técnicas. Nós temos uma salada de mais de 30 partidos. É impossível agradar a todos. Infelizmente o Congresso não vai deixar o governo trabalhar em nenhuma das situações que hoje estamos vislumbrando. Ninguém vai ter maioria e aí nenhum presidente vai ter condições de fazer qualquer coisa, teríamos uma dificuldade muito grande. Se não acontecer um realinhamento político, não vamos resgatar credibilidade para retomar investimentos e o nosso processo vai continuar se arrastando por mais três, quatro, cinco anos.

SC apresenta uma série de indicadores sociais e econômicos acima da média nacional, mas também tem desafios. Qual deve ser o principal ponto de atenção do próximo governador?

É verdade que estamos adiante em muitos aspectos, mas não deixamos de ter problemas, como os outros estados. Nós precisamos sim que as grandes cidades continuem crescendo, mas não podemos concentrar todo o povo catarinense em Joinville, Blumenau e Florianópolis. Precisamos criar mecanismos para que as pequenas cidades continuem com atrativos para segurar os moradores lá. Também é absurdo que nós não tenhamos mais estradas decentes no Vale Europeu. Você vai a Criciúma e lá tem uma nova rodovia duplicada que liga a BR-101 a Forquilinha onde se encontra um carro a cada meia hora. E aqui nós temos uma BR-470 ou uma ligação a Pomerode e Timbó do jeito que estão. Um terceiro ponto, que preocupa também, é que nós não estejamos daqui a cinco anos tão sensíveis à insegurança como estão hoje os grandes centros como São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

Continua depois da publicidade

Você trabalhou por muitos anos na área financeira e desde que entrou no ramo cervejeiro tem defendido uma aglutinação de forças entre os diversos agentes envolvidos no turismo para fazer que o setor cresça regionalmente. Ao mesmo tempo, diz que ainda não se pensa coletivamente. Como mudar?

Agora em setembro eu estou completando 40 anos da primeira assinatura da minha carteira profissional. Desses 40 anos, 32 foram no mercado financeiro. Tive a oportunidade de trabalhar em várias empresas, mas principalmente de morar em várias cidades. Eu tenho como proposta de vida trabalhar o coletivo. Eu sou da época dos famosos grupos de jovens da Igreja Católica. Participei, por exemplo, do lançamento do Zé Gotinha, e era um trabalho voluntário dos jovens da minha cidade. O associativismo é de fato uma maneira de com menos fazermos mais. Nós, no Vale da Cerveja, ainda temos carência de olharmos que na hora de fazer todos têm que dar uma pequena contribuição, mas também na hora de colher todos devem poder colher também. Não pode ser só para uma cervejaria, um bar ou um hotel. Todos têm direito a participar. Blumenau é uma cidade que tem muito forte essa questão do resgate, da recuperação, mas temos muitos empresários que podem e precisam se doar mais. Essa é uma cobrança que eu tenho feito e vou fazer sempre, por acreditar muito nesse modelo de associativismo. E o Vale da Cerveja só vai decolar, no sentido de empreendimento e de transformador social de uma região, quando mais gente acreditar e pensar da mesma maneira.

Você já disse uma vez que o Vale da Cerveja era a galinha dos ovos de ouro do turismo da região. Como avalia o projeto até agora e qual o próximo passo para ele se consolidar ainda mais?

Cem por cento dos empresários da nossa região deveriam se unir e de alguma forma precisamos no máximo até o final do ano que vem ter a BR-470 duplicada até Rio do Sul. Se não, esquece. Estão nascendo um monte de outros pontos por aí que vão levar embora o nosso turista. Nós temos uma capacidade de gerar atrativos dos mais diferentes modelos, mas a gente não consegue trazer as pessoas para cá. Teremos um final de ano onde o turista que tem dinheiro não vai sair do país porque o dólar está muito instável. Ele não vai comprar pacote para fora, ele vai fazer turismo nacional. Ele vai vir para o Vale Europeu? Ele não consegue chegar aqui. Então, para mim, uma das coisas que mais precisam ser mobilizadas é a BR-470. E depois precisamos, sim, continuar investindo muito forte cada um no seu equipamento. Não só no equipamento em si, mas na profissionalização da sua equipe. Precisamos qualificar o serviço, e muito. É o nosso diferencial. Belezas, equipamentos e oportunidades nós temos. Temos que cuidar do serviço.

Continua depois da publicidade