nsc
    nsc

    Entrevista

    "Poderemos ter uns 10 mil empregos a menos no setor têxtil", projeta presidente do Sintex

    Compartilhe

    Pedro
    Por Pedro Machado
    10/04/2020 - 08h03 - Atualizada em: 10/04/2020 - 08h04
    José Altino Comper
    José Altino Comper, presidente do Sintex (Foto: Lucas Correia, BD)

    O novo coronavírus está provocando profundos impactos na economia global, e no setor têxtil, um dos pilares da indústria do Vale do Itajaí, não é diferente. Com o fechamento do comércio, várias fábricas da região deram férias coletivas aos funcionários em março. A maioria voltou ao batente no início de abril, mas não do mesmo tamanho.

    ​​Em site especial, saiba tudo sobre o novo coronavírus

    Empresas como Haco e Brandili, entre outras, já demitiram colaboradores em função do desaquecimento do mercado. Enquanto a economia estiver ociosa, os cortes devem continuar acontecendo, avalia José Altino Comper, presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau (Sintex).

    Nesta entrevista à coluna, concedida por telefone na quarta-feira (8) à noite, o dirigente avalia os impactos da pandemia nos negócios.

    Qual o cenário de momento para a segmento têxtil da região?

    As empresas grandes estão quase todas paradas. Tem a restrição dos 50% (da quantidade de funcionários, estabelecida por decreto) de quem tem condição de trabalhar e uma boa parte está terminando férias agora. Produzir, mesmo, poucas vão neste momento. Parece que em Santa Catarina o comércio abre, fora os shoppings, na segunda-feira (13). Essa é a informação que está sendo avaliada. Mas Santa Catarina, para o setor têxtil, não representa nem 5% do faturamento. Se o Brasil inteiro não abrir mais, não há por que produzir. A indústria têxtil sofre porque é uma grande fornecedora de grandes redes, que estão nos shoppings. O inverno já foi. Agora era o momento de repor alguma coisa de inverno que as empresas estão produzindo, mas a maioria vai ficar com isso encalhado.

    Se o Brasil inteiro não abrir mais, não há por que produzir.

    Algumas empresas já desligaram parte dos funcionários. São casos pontuais ou que indicam novas demissões pela frente?

    Isso será geral. Ninguém vai ficar com o mercado do tamanho que tinha planejado no final do ano passado ou no início deste ano. Quem fizer 70% (do resultado) do ano passado se sairá bem em 2020. Dentro desses 70%, há um número grande de colaboradores, infelizmente, para cortar. (O segmento) vai se segurar um pouco, dar férias, mas não se imagina que o setor têxtil se aproxime do número do ano passado. Ninguém fala em 90%. Acima de 80% eu não ouvi ninguém falar. A revisão do plano operacional é de 60%, 70%.

    Ninguém vai ficar com o mercado do tamanho que tinha planejado no final do ano passado ou no início deste ano.

    O Sintex tem alguma estimativa de quantas demissões podem acontecer?

    Essa é uma conta que a gente tem feito pelas informações que chegam, mas não há muita coisa oficial. Algumas empresas deram férias, e aí tem essas opções de banco de horas. Mas eu acho que de 10% a 20% (do quadro de funcionários), de uma maneira geral, as empresas vão ter que desligar. Nós temos na nossa região em torno de 60 mil empregos. Entre pequenos e grandes, além das micro, poderemos ter aí (na região) uns 10 mil empregos a menos no setor têxtil.

    Muita gente questiona por que as empresas, principalmente as grandes, tomam esse tipo de decisão em um momento onde as pessoas mais precisam de estabilidade no emprego. Não há outra opção?

    Não existe outra opção. Você vai produzir o que e para quem? O Brasil não é um exportador de confeccionados. E também o mundo não está importando de lugar nenhum, porque a crise é geral. O que você vai fazer? Pode-se produzir para estoque. E o estoque tem que desovar. Mas se desovar menos do que antes, vai se demitir lá na frente. Isso é matemático. Se esse ano vou produzir de 20% a 30% a menos, eu vou precisar de 20% a 30% menos gente. Quem tem mais caixa pode segurar para fazer isso depois. Mas infelizmente o Brasil não tem condições de achar um mercado para colocar (essa produção). O Brasil é um grande produtor têxtil e a nossa região, principalmente, em termos per capita, é muito dependente do setor. E o têxtil não será, na retomada, o primeiro objeto de consumo das pessoas. Alguma coisa até sim, mas as pessoas vão comprar menos roupa. Elas não vão sair comprando. Vão segurar porque tinham uma poupança que já foi gasta, porque terão de ser mais cuidadosas, porque podem perder o emprego, seja do setor A ou B. O consumo vai cair, e no setor têxtil, principalmente, a gente não vê nenhuma oportunidade de reverter. Queria estar errado, mas não vejo isso.

    Não existe outra opção (sobre demissões). Você vai produzir o que e para quem? O Brasil não é um exportador de confeccionados. E também o mundo não está importando de lugar nenhum, porque a crise é geral.

    O governo federal editou uma medida provisória (MP 936) que permite redução de salário e da jornada ou até mesmo a suspensão do contrato de trabalho. A indústria têxtil a considera suficiente?

    Suspender você pode suspender de todos. E ainda tem os grupos de risco que não há outra opção que não seja suspender, porque você não sabe quando eles podem voltar ao ambiente de trabalho. Redução de jornada para esses não adianta porque eles já não podem vir. Mas são só 60 dias. Não sei se o governo pensa em estender lá na frente. Entendemos que o governo também tem as suas limitações. As empresas estão ajustando o quadro um pouco para baixo e realmente vão usar (essas alternativas). Esperamos que elas consigam produzir alguma coisa. Em um primeiro momento, quem trabalhou gerou para estoque porque tinha matéria-prima. Em fevereiro, quando isso (o novo coronavírus) apareceu na China, e a gente é muito abastecido com matérias-primas de lá, as empresas temeram que faltaria produto para abastecer as fábricas. Então quem tinha estoque para 60 dias levou para 90, 120 dias porque imaginou que a China estaria fechada. As empresas acabaram se endividando e agora uma boa parte dessa matéria-prima, como materiais, corantes e produtos químicos, está parada. Elas (as empresas) aproveitaram a mão de obra para transformar o que foi possível e jogar um pouco disso para estoque. Mas isso já está chegando no final. Se o mercado não abrir a nível Brasil, não adianta. Em São Paulo, que é o grande consumidor, o (João) Dória (governador do Estado) quer levar isso (a quarentena) bem mais para frente.

    Mesmo que o comércio seja retomado, o que está acontecendo a conta-gotas, os prejuízos são inevitáveis. Quanto tempo até recuperá-los?

    Muitas vezes dizem que o empresário é ganancioso e que só está mandando gente embora. Não, o empresário está preocupado em pagar as contas. Ninguém está pensando em ter lucro neste ano. Se conseguir pagar as contas, manter um bom nível de emprego, pagar impostos, não ficar devendo e voltar à sua situação de capital de giro, pode-se dizer que (a empresa) ganhou o ano. Imaginar que o empresário só está pensando em seu lucro é bobagem nesse momento. Isso não faz nenhum sentido. Não vi ninguém preocupado com isso. Estamos preocupados em manter empregos. Só não dá de manter aquele que você não vai precisar. O colaborador vai para a empresa para trabalhar, não para ficar encostado.

    Muitas vezes dizem que o empresário é ganancioso e que só está mandando gente embora. Não, o empresário está preocupado em pagar as contas. Ninguém está pensando em ter lucro neste ano.

    Como o senhor imagina o setor depois dessa crise? Vai sair muito diferente?

    A nossa vida toda vai ser diferente, mas a gente ainda não sabe o nível. Há uma preocupação de as lojas abrirem, mas quem está dentro delas é o lojista, os filhos, a família e seus colaboradores. A primeira proteção é do lojista. Ele vai ter que criar um protocolo de cuidados porque senão leva a doença para casa. A quantidade de empresas vendendo pela internet vai aumentar. Essa é uma forma que muita gente encontrou para se safar. Os lojistas vão ter que cadastrar seus clientes para poder atender em uma emergência. Vai mudar toda a nossa forma de viver. Mas o setor têxtil aqui da nossa região vai ser menor por uns dois anos, sem dúvida.

    O segmento é o que mais emprega na região...

    Sim. O Brasil emprega quase um milhão de pessoas (no setor). O empresário está demitindo, mas espera que possa convidar o funcionário para voltar amanhã. É complicado, é muito doído. Por mais que o sindicato (dos trabalhadores) às vezes faça barulho, o que mais dói é na gente que está no dia a dia, convivendo com o colaborador, dando bom dia, um obrigado, e depois chamá-lo no departamento pessoal e avisar que vai demiti-lo porque não vai ter dinheiro para pagar.

    Deixe seu comentário:

    Últimas do colunista

    Loading...

    Mais colunistas

      Mais colunistas