Depois de 18 anos em cartaz e de reunir mais de 10 milhões de espectadores, o espetáculo Acqua fechou as cortinas pela última vez no Beto Carrero World no dia 5 de abril. O encerramento mexeu com a memória afetiva do público, da mesma forma quando houve o fechamento do zoológico ou a demolição da cobra gigante que “engolia” passageiros durante a viagem de trem pela Ferrovia Dino Magic. E entre muitos levantou uma dúvida sincera: por que o parque está dando fim a atrações tão tradicionais?

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O atual presidente, Alex Murad, responde. Em conversa com a coluna, o herdeiro do fundador João Batista Sérgio Murad – o “caubói” que deu vida ao universo do Beto Carrero – admite o apelo nostálgico envolvido nessas atrações. Mas acredita que, para um empreendimento que já tem 35 anos e que precisa permanecer atrativo, é preciso dar espaço para o novo e abrir caminho para novidades mais populares entre as novas gerações.

— A gente brinca que algumas atrações têm hora de aposentar, de descansar um pouquinho. O importante nessa trajetória é não perder completamente a essência — avalia ele.

Veja fotos da história do Beto Carrero

A reformulação do portfólio tem aberto caminho para novidades de renome internacional. O Beto Carrero iniciou esse movimento há 15 anos, trazendo para dentro do parque uma área temática da franquia Madagascar, desenhada em parceria com os produtores da animação e em parceria com o estúdio DreamWorks.

Outras novidades, com proposta semelhante, foram abertas nos últimos anos – como a Nerf Mania e o TurboDrive, em parceria com a Hot Wheels. Novas atrações já anunciadas, que integram um pacote de R$ 2 bilhões em investimentos, incluem áreas temáticas da Galinha Pintadinha, cuja inauguração está prevista para a próxima temporada, do Bob Esponja, que deve ficar pronta em 2028, e de um terceiro personagem, cujo nome é guardado a sete chaves e que deve ser anunciado ainda em 2026.

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É um processo constante de curadoria, diz Alex, para que o Beto Carrero perceba o que já não cai mais tanto no gosto do público e o que será tendência e continuará fazendo sentido em 10 ou 20 anos – até para justificar os investimentos massivos em novidades. Ele cita como exemplos a Disney e a Universal, que têm atrações que ele considera atemporais, que atravessam gerações.

— Eu tenho 47 anos, mas em qualquer reunião sobre esse tipo de tendência é fácil você ver pessoas com 16, 17, 18, 19 anos na mesma mesa ajudando a gente a ver qual é a nova tendência, o que essa molecada gosta hoje e o que eles vão gostar daqui para frente. Daqui a 20 anos, quando essa geração atual tiver filhos, eles vão querer levá-los a lugares em que eles brincavam, jogavam quando tinham essa idade, trazendo essa nostalgia. Esse é o nosso jogo — explica.

Mudança de percepção

O próprio fechamento do zoológico do parque, em junho de 2024, é um exemplo disso. Para Alex, esse tipo de atração, que por muito tempo foi um dos pilares do Beto Carrero, já representava uma evolução no conceito do bem-estar animal em relação ao circo, quando pouco se questionava a exploração de animais selvagens em apresentações. O debate sobre a proteção animal, no entanto, ganhou mais força nos últimos anos.

— Isso era “ok” em uma época, aceitável e o mundo inteiro fazia. Mas foi mudando, ao ponto de ter um entendimento que já não era mais legal (ter o zoológico). E a gente foi aprendendo com isso. Há dois anos, vimos que esse mesmo movimento tinha que acontecer aqui — lembra.

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Apesar da reformulação ser comum em empreendimentos desta natureza, o herdeiro do Beto Carrero acredita que algumas áreas e atrações “têm alma” e precisam ser preservadas. Ela cita a Cowboyland, que conta um pouco da história do parque e da trajetória do fundador e que recentemente foi revitalizada.

— Tem alguns espaços que a gente preserva porque a gente entende que é uma questão de nostalgia. Às vezes você quer mostrar para o seu filho o que você viveu na idade dele. E às vezes é até um sonho do pai. A gente assiste ao Hot Wheels e vê um monte de marmanjo chorando — diverte-se.

Foco na família toda

As áreas temáticas mais recentes inauguradas pelo parque estimulam a convivência de diferentes gerações, mesclando uma dose de infantilidade com alguma de adrenalina. Elas seguem, segundo Alex, uma lição deixada pelo pai: o Beto Carrero precisa ser o parque da família brasileira.

— Ele brincava que a gente tinha que trazer desde o bebê até o vovô. E quando você limita uma atração a algo muito infantil ou muito radical, você divide a família. O que a gente procura é trazer a família para conseguir vivenciar a mesma diversão — justifica.

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