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Indiciamento do prefeito

Chabu será adversário eleitoral de Gean Loureiro em 2020, mas precisa provar que não é chabu

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Por Upiara Boschi
09/12/2019 - 09h42 - Atualizada em: 09/12/2019 - 09h44
Operação Chabu será um adversário a mais para Gean Loureiro (DEM) na disputa pela reeleição. Foto: Tiago Ghizoni
Operação Chabu será um adversário a mais para Gean Loureiro (DEM) na disputa pela reeleição. Foto: Tiago Ghizoni

Por mais otimistas que se apresentem o prefeito Gean Loureiro (DEM) e aqueles que o cercam, é inescapável que a Operação Chabu será um dos temas da campanha eleitoral em Florianópolis - mesmo que o desfecho do caso, como avalia e torce o neodemista, seja o arquivamento no início de 2020, antes do começo oficial da disputa. Esse seria o cenário menos desfavorável. O pior, obviamente, é concorrer à reeleição na condição de réu, caso haja denúncia do Ministério Público Federal e ela seja aceita pela Justiça.

No sábado, o prefeito manteve a estratégia que obteve razoável sucesso em junho, quando a deflagração da Operação Chabu fez com que permanecesse um dia preso na Polícia Federal - uma brevíssima prisão preventiva que foi uma espécie de coercitiva disfarçada. Na época, o prefeito chamou a imprensa tão logo foi solto e garantiu o controle da narrativa em uma operação sob sigilo. Conforme os indícios que motivaram a investigação vazavam, apenas se encaixavam no relato feito pelo prefeito - mais ou menos explicados, dependendo do ponto.

Mais uma vez, Gean convocou a imprensa no sábado para antecipar que tinha sido mesmo indiciado pela Polícia Federal - grande suspense e expectativa das últimas semanas. Apresentou-se como vítima de injustiça e manteve o tom otimista de quem acredita - ou precisa acreditar - que a saída do caso das mãos da PF levará naturalmente a um célere arquivamento por falta de provas no Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4), onde tem foro pela condição de prefeito. Mais uma vez, as peças da investigação começaram a surgir após a defesa prévia.

Gean tem razão quando diz que o inquérito não tem fatos novos. Com mais ou menos detalhes, está descrito na peça de 580 páginas aquilo que já havia sido levantado à época da prisão. Mas a falta de novidade não resolve o caso. Está lá reafirmada a narrativa da PF que o prefeito precisará dia a dia combater.

Essa narrativa diz que ele integrava o núcleo político de uma organização criminosa com tentáculos em órgãos como o Gaeco e a própria PF, criada para vazar informações sobre investigações policiais em andamento e proteger o grupo. No epicentro, José Augusto Alves, o curioso personagem que se movia com tanta habilidade nas rodas do poder. A moeda de troca para as informações e esquemas de blindagem seria o acesso a favores da máquina pública - seja em cargos comissionados ou prospecção de negócios nebulosos. O prefeito nega qualquer irregularidade e diz que nada que tenha feito caracteriza os crimes que lhe foram imputados no relatório da PF. Agora é hora de narrativa contra narrativa.

O prefeito precisa, no entanto, explicar a intimidade e o tom das conversas com João Augusto e seus supostos trambiques. Na janela de conversa de ambos no Whatsapp, o prefeito de Florianópolis coloca-se a disposição do suposto araponga para ajudar a manter a mulher de um amigo em cargo comissionado no governo do Estado, intermedeia acesso do grupo à Secretaria de Segurança para favorecer pleito empresarial, ajuda a influenciar transferência de delegado aliado do suposto grupo para uma função mais importante para o time, entre outras conversas não negadas.

Gean diz que intermediou os pedidos porque José Augusto tinha antigas relações com o MDB, seu ex-partido, e o apoiou em campanhas. É pouco e precisa ser melhor explicado. Haverá tempo para isso. A tempo da Justiça, com a possibilidade de denúncia do MPF e análise do desembargador Leandro Paulsen, do TRF-4. E, também, o tempo da política, com a oposição na Câmara de Vereadores tentando manter o tema vivo até a campanha eleitoral.

Ao pé da letra, o chabu acontece quando um fogo de artifício falha, é disparado e não detona, não acende, frustra a expectativa de quem queria luz e barulho na festa. A operação da PF vai no sentido oposto la palavra literal. Reagindo às evidências de que suas principais investigações no Estado eram alvo de sabotagem, a instituição reagiu com alarde - faz barulho, jogou luz.

Na seara política, Gean Loureiro é o troféu da Chabu. É a força, mas também a fragilidade da operação. Terá que ficar muito claro que o prefeito da Capital não é mero fogo de artifício de uma investigação que sem ele se resumiria a meia-dúzia de trambiqueiros que descobriram as vulnerabilidades do trabalho de investigação da PF em Santa Catarina. Isso, sim, seria um chabu.

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Faz a leitura e a análise do contexto do cenário político de Santa Catarina, com informações de bastidores. Explica motivações e consequências das principais decisões tomadas nos poderes do Estado.

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