Após reuniões sobre Plano Diretor, Florianópolis decide apresentar minuta aos moradores

Gestão Topázio só levou diretrizes para audiências, sem especificar qual texto vai propor para mudar plano diretor

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Gestão Topázio ainda vai definir data e formato de evento (Foto: Mauricio Ponce/PMF/Divulgação)

A prefeitura de Florianópolis decidiu acolher um pedido de entidades representativas da capital para que seja apresentada a minuta de sua proposta de revisão do plano diretor em um evento aberto à população. A gestão Topázio Neto (PSD) tem realizado audiências públicas ao longo deste mês para discutir o projeto, mas sem expor qual é de fato o texto que pretende aprovar, exibindo apenas dez diretrizes dele.

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A decisão foi anunciada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) nesta quinta-feira (21), que, junto da Defensoria Pública, levou o pedido das lideranças de moradores para representantes da prefeitura em uma reunião.

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O cumprimento do pedido não se trata, no entanto, de uma determinação judicial. Ainda assim, a disposição da prefeitura em atender o pleito se dá depois de o andamento do plano diretor já ter sido interrompido pela Justiça anteriormente devido também a questionamentos quanto à falta de efetiva participação popular nele.

A própria realização das audiências públicas até aqui ocorre por conta de um acordo mediado pelo MPSC, que segue monitorando o processo de revisão do documento que define instruções e objetivos para o desenvolvimento da cidade.

Os órgãos estaduais propuseram que seja feito um grande evento presencial para exposição da minuta, com transmissão ao vivo pela internet e televisão, e no qual haja possibilidade de participação até por chat e por posterior mensagem escrita.

A prefeitura realizava reuniões já nesta sexta (22) para discutir o modelo e a data do evento. Ela terá cinco dias para confirmar esses detalhes.

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Histórico de judicialização

O Estatuto da Cidade, legislação federal que trata da obrigatoriedade de municípios com mais de 20 mil habitantes a terem um plano diretor, afirma também que é necessário que ele conte com a participação da população e de associações representativas em sua formação e execução.

No início do ano, o MPSC entendeu que a prefeitura descumpria esse requisito e precisou interromper a tramitação do plano diretor até que fosse garantida a realização de audiências públicas pela prefeitura para que a sociedade discutisse a proposta.

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A gestão municipal chegou a tentar realizar 13 audiências distritais, que tratariam de cada uma das regiões de Florianópolis, simultaneamente. O modelo impedia que moradores fossem a mais de um encontro e acabou vetado na Justiça

A partir disso, a prefeitura definiu então um cronograma de audiências em dias alternados, que tem sido cumprido e estava previsto para ser encerrado na próxima segunda (1º). Agora, no entanto, haverá ainda esse novo encontro.

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Como tem sido as audiências

Ao longo das audiências públicas até aqui, foram comuns as críticas de que a prefeitura apresentou apenas diretrizes em termos genéricos, sem detalhar o texto que vai revisar o plano diretor atualmente em vigor, exposto na Lei Complementar nº482/2014.

A gestão municipal afirmava que só produziria a minuta após levar em conta o que seria dito nas audiências e previa apresentar o documento pela primeira vez em 22 de agosto ao Conselho da Cidade, uma órgão consultivo com representantes de diferentes setores da cidade, por onde o projeto passa antes de ir à Câmara dos Vereadores.

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O formato das audiências também tem sido criticado. Na primeira hora delas, o secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano, Michel Mittmann, faz uma exposição em que justifica a revisão plano. Ele também aborda as diretrizes da proposta e trata com maior detalhes da ideia de promover centralidades na cidade.

Após isso, é comum o prefeito Topázio também se manifestar, mas em tempo mais curto, antes de a fala ser aberta para o público presente em um púlpito.

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Moradores têm dois minutos e meio cada para se manifestar. Já líderes de entidades representativas têm cinco minutos e meio. Após isso, o som do microfone é cortado. Na audiência do distrito do Centro, que teve recorde de participação, com 351 pessoas, e seis horas de duração, um sino de ringue de boxe soava a 30 segundos do fim de cada fala para indicar que estava prestes a ser encerrada.

Representantes da prefeitura ficam em uma mesa à frente do público, mas não há interação com perguntas e respostas. O superintendente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), Carlos Alvarenga, que coordena as sessões, costuma dizer que questionamentos podem ser registrados por meio da consulta pública, um outro instrumento de manifestação.

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— O método que foi acertado é passivo, de mão única. Na audiência e na consulta, você só fala e não tem direito a resposta. Não existe o direto ao contraditório — diz Lino Peres, arquiteto e professor aposentado da UFSC, à reportagem. Ele tem se manifestado em diferentes audiências em nome do Fórum da Cidade.

À reportagem, o secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano na capital havia minimizado as críticas ao processo, em entrevista na última terça (19).

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— Esse é o processo adequado e mais coerente de construção. Nós já colocamos, no passado, estratégias iniciais em uma minuta para fazermos a discussão e fomos criticados por isso. Agora que queremos colher mais informações para compor uma minuta, também somos criticados. 

— Então me parece ser crítica de quem só quer barrar o procedimento. Se essas pessoas têm tanto a colaborar, que coloquem suas ideias. Falta colocarem ideias. Senão só fica o não pelo não, só uma discussão sobre um processo que a gente entende que está sendo conduzido de forma adequada, inclusive com o monitoramento do Ministério Público — disse Mittmann.

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Como a legislação prevê que elas deveriam ser

Engenheiro especialista em planejamento urbano e professor da UFSC, Elson Pereira diz que o processo de participação poderia ser ampliado em etapas.

— Uma participação de qualidade deveria ser feita em três turnos: um avaliativo, um propositivo e um terceiro de validação. Este último poderia ser feito por um grupo representativo dos distritos e de setores, desde que isso fosse acordado no início do processo — afirmou.

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Também professora da UFSC, a arquiteta Marina Toneli diz que isso é reforçado pelo Estatuto da Cidade, além de duas resoluções do Conselho das Cidades (ConCidades), as de números 25/2005 e 83/2009.

O regramento estabelece que a participação popular na elaboração de um plano diretor deve se dar durante todo o processo, do diagnóstico dos problemas à sugestão e à validação das soluções.

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— O estatuto destaca a importância e a obrigatoriedade de uma participação significativa, como um exercício pleno de cidadania, e não apenas informativa. O problema hoje é que foi colocado pouco para ser debatido e também pouco tempo para o debate — diz a pesquisadora, que destaca o calendário apertado da prefeitura.

Ela lembra ainda que o problema já é histórico. O plano diretor atualmente em vigor chegou a ser judicializado, já depois de aprovado, também por falta de efetiva participação popular. O caso só foi resolvido em 2017, após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) arquivar contestação do Ministério Público Federal (MPF).

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