nsc
dc

Transporte público

Falta de ônibus atrapalha volta à rotina de aulas, trabalho e lazer em Florianópolis e região

Sob críticas de usuários, autoridades dizem acompanhar demanda e empresas citam dificuldades

11/05/2022 - 14h13 - Atualizada em: 12/05/2022 - 06h04

Compartilhe

Paulo
Por Paulo Batistella
Passageiros reclamam de maior espera e ônibus mais cheios
Passageiros reclamam de maior espera e ônibus mais cheios
(Foto: )

A volta ao novo normal na Grande Florianópolis, já sem máscaras e com a rotina de estudos e trabalho mais uma vez no modelo presencial, ainda não inclui a retomada integral do transporte público. Moradores da região metropolitana fazem críticas à operação de ônibus reduzida, com menos opções e conduções lotadas.

> Receba notícias via Telegram

Em paralelo, as autoridades afirmam que regulam o serviço em acordo com a demanda de passageiros. O cenário complexo também inclui empresas que alegam dificuldades financeiras, ainda impactadas pela pandemia, e com concessões temporárias. Há ainda funcionários que reivindicam direitos trabalhistas, com recorrentes paralisações que têm afetado ainda mais o serviço já comprometido.

Em Florianópolis, há hoje 166 linhas de ônibus municipais. Antes da pandemia, eram 198, segundo afirmou a prefeitura, que é também responsável por definir quais linhas devem funcionar, ao Diário Catarinense. Todas elas são operadas pelo Consórcio Fênix, que reúne as empresas Canasvieiras, Emflotur, Estrela-Insular e Transol em concessão cedida pelo município — as três primeiras passam hoje por recuperação judicial.

À reportagem, a prefeitura não detalhou quais são as 32 linhas a menos desde então, mas ponderou que diversas delas foram alteradas para atender novos deslocamentos. Em todo caso, mesmo as que foram retomadas também oferecem problemas, já que mantêm a oferta de horários reduzida.

Antes da Covid-19, a cidade tinha 8.990 horários em operação, e agora são 7.059, redução de 21,5%. A gestão Topázio Neto (Republicanos) atribui isso a um volume ainda menor de usuários diários. No período pré-pandemia, eram 250 mil passageiros por dia útil, número que agora está em 200 mil.

"A Prefeitura acompanha o retorno das atividades presenciais e o aumento da demanda de passageiros por meio das câmeras dos ônibus e terminais, do acompanhamento da fiscalização, das ouvidorias e dos dados da bilhetagem eletrônica", escreveu a Secretaria Municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano (SMPU), em nota.

Moradores da região metropolitana têm tido a rotina comprometida, reorganizando horários, se deslocando a pé por maiores distâncias para pegar algum ônibus e esperando por mais tempo até o horário de partida. Há ainda quem esteja até abdicando de parte dos compromissos.

Ao menos o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) já registra casos de estudantes que deixam as aulas mais cedo para poderem pegar ônibus de volta para casa. O problema é mais grave nos campus de São José e Palhoça. Este último tem dificuldades já antigas, com alunos sob risco ao precisarem fazer baldeações ao longo da BR-101.

Em nota, o IFSC afirmou que a liberação tem sido feita sem prejuízo de frequência ou conteúdo, e desde que haja pedido e justificativa ao setor de assistência estudantil.

No campus Florianópolis, apesar de o problema ocorrer em menor proporção, o aposentado Afonso Wippel diz testemunhar a saída precoce de vários estudantes todos os dias, já que ele precisou passar a buscar o filho, aluno no instituto. O estudante costumava usar um ônibus articulado, de maior capacidade, da linha 221 para ir do campus, na Avenida Mauro Ramos, na Região Central, ao Norte da Ilha, onde mora.

Agora, contudo, o último ônibus da linha a partir do Terminal de Integração do Centro (Ticen) sai às 21h30min, enquanto a aula dele só acaba uma hora depois. Há como alternativa para o trecho uma única opção, às 23h, da linha 233, que utiliza um ônibus comum, com menor capacidade que o articulado e cada vez mais cheio.

— Agora eu preciso ir lá buscar, porque senão ele chega em casa às 2h da madrugada. Ele e mais um monte de gente. Vira e mexe, a gente dá carona, porque dá até pena do pessoal — diz Afonso, lembrando que nem todos podem optar por veículos próprios ou fazer uso de transportes por aplicativo.

A dificuldade de conciliar a rotina com algum itinerário disponível se estende também aos moradores dos municípios vizinhos a Florianópolis, que utilizam os ônibus intermunicipais. Esses têm linhas determinadas pelo governo do Estado, sob gestão Carlos Moisés (Republicanos), e também estão com oferta reduzida.

A Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade (SIE) diz ter hoje as mesmas 182 linhas anteriores à pandemia, mas em menor número de horários devido à redução da frota. Há dois anos, eram 403 ônibus, e agora são 332.

Todos eles são operados por cinco empresas — Biguaçu, Estrela, Imperatriz, Jotur e Santa Terezinha —, que têm uma concessão temporária de três anos viabilizada por um acordo do Estado com o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) de outubro do ano passado. Passado esse período, que servirá para coleta de dados do setor, o governo estadual deverá abrir processo licitatório para contrato definitivo.

A reportagem também questionou o Estado se considera a oferta atual condizente com a demanda, mas não obteve retorno sobre isso.

Ainda nas cidades vizinhas a Florianópolis, há outros casos de redução dos serviços municipais. Em São José, sob gestão Orvino Coelho (PSD), houve redução de 13 para seis linhas, agora com cerca de 3 mil horários, e não mais 7 mil disponíveis. Essa oferta era para atender a volta às aulas, e o município já reconhece o aumento da demanda.

— Devemos retornar para 6 mil e queremos chegar a 11 linhas — disse o secretário Vânio Luiz Dalmarco, que chefia a pasta de Segurança, Defesa Social e Trânsito. 

Ele negocia isso com as empresas Biguaçu, Estrela, Jotur e Santa Terezinha, que operam hoje na cidade também em função de um acordo provisório mediado pelo MPSC.

Palhoça, sob gestão Eduardo Freccia (PSD), passou de 120 para 105 ônibus na frota municipal, operada pela Jotur. A prefeitura pondera, no entanto, que passou de 52 mil para 35 mil passageiros diários.

O município diz ter hoje 995 horários em 54 linhas, mas não informa quantas eram antes da pandemia. Também não respondeu se considera a oferta suficiente.

De volta a Florianópolis, o Consórcio Fênix afirma entender que as linhas e horários atuais são condizentes com a demanda. Acrescentou aceitar o que a prefeitura define.

"As operações transcorrem normalmente, com acompanhamento diário da operação, gerando ajustes necessários, devido à demanda, tempos de viagem, obras e interrupções, novamente afirmando que o Consórcio Fênix está ao lado SMPU neste processo, acatando as decisões do poder público", escreveu, em nota.

O grupo também respondeu sobre os protestos de ex-funcionários, que afirmam não terem recebido valores rescisórios por demissões ao longo da pandemia. O consórcio diz cumprir com acordos firmados junto à Justiça.

A reportagem tentou contato com Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Urbano, Rodoviário, Turismo, Fretamento e Escolar de Passageiros da Região Metropolitana de Florianópolis (Sintraturb), mas não obteve retorno. A entidade está à frente também de manifestações por reajustes de salários, há três anos sem acréscimos.

O Diário Catarinense também buscou posicionamento de todas as outras empresas citadas até aqui por telefone e e-mail, mas recebeu resposta apenas da Jotur.

Em comunicado assinado pelo gestor Ivo Ramos da Cruz, a empresa destaca os impactos econômicos sofridos ao longo da pandemia, com paralisação do serviço e posterior retomada com operação limitada a 40% da ocupação.

"Outro fator interessante que ninguém produz nenhuma matéria é sobre a defasagem das tarifas que estão desde julho de 2019 sem nenhum reajuste. Somos sabedores que a população não pode mais financiar o sistema. Os governos precisam cuidar do transporte como cuidam de saúde e educação. Está na hora do Estado subsidiar o sistema em favor da população carente", escreveu.

Ele cita ainda o encarecimento da operação, com destaque para o aumento do diesel, e diz que, sob esse novo cenário, o serviço não voltará a ser como era antes da Covid-19, exigindo uma solução das diferentes partes interessadas. "O sistema neste modelo faliu."

Leia mais

Doméstica paga a passagem de ônibus do estudante da escola particular em SC

Com automação, economia de combustível no transporte pode ser de 6%

Racismo no transporte já foi presenciado por 72% dos brasileiros, mostra estudo

Colunistas