A torre aparece primeiro, mesmo a quilômetros de distância. Quem desce a Rua XV de Novembro olha para cima quase por instinto e encontra ali aquela silhueta que, de tanto estar presente nas fotos, nos vídeos e na memória coletiva, virou sinônimo de Blumenau. Porém, a Catedral São Paulo Apóstolo que a cidade conhece bem pelo exterior é uma versão incompleta. Do lado de dentro, sob um teto de 15 metros de altura, existe um conjunto de histórias, objetos e detalhes que passam despercebidos até para quem entra toda semana.
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Uma das primeiras curiosidades começa antes mesmo de entrar na igreja. Logo depois de subir a escadaria, há uma cúpula de vidro colorido, que é o batistério, espaço onde acontecem os batismos. A arquitetura escolheu esse posicionamento justamente porque, na tradição católica, o batismo é o primeiro sacramento, o ato que marca a entrada na igreja. Então, o batistério fica antes da própria igreja. Quem entra na catedral, literalmente, precisa passar por ele.

As fontes de água benta, que ficam à esquerda e direita da porta de entrada, guardam uma surpresa matemática. Quem olha as pias e vê o quão rasa é a superfície, pode achar que leva pouca água para enchê-las, mas cada uma delas comporta 20 litros que a volumetria do mármore disfarça com eficiência.
As 12 cruzes da dedicação cravadas nas paredes foram ungidas com óleo do crisma. Elas são postas no momento em que uma igreja é consagrada e as velas que ficam acima delas só são acesas uma vez por ano, exatamente no dia 25 de janeiro, data de dedicação da catedral.
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Conheça mais sobre os vitrais da catedral
Já dentro do salão principal, o olhar vai direto para a rosácea atrás do altar, uma obra de arte monumental em cantaria com oito metros de diâmetro. A composição circular de vitrais no fundo, que contrasta coloridamente com a parede de tijolos laranjas, tem grande círculo no centro, com vitrais de diferentes cores e divisórias internas de tijolos que o repartem em fatias.

Outros 20 círculos menores adornam a rosácea ao redor. Cada vitral tem o próprio desenho interno, um recorte diferente que capta a luz natural da rua e muda de aparência conforme o sol se move ao longo do dia. De manhã cedo, a sombra projetada no chão tem um formato. À tarde, outro.
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Quem consegue parar um pouco e olhar com atenção aos vitrais se impressiona com a minúcia de detalhes e precisão de cada um. Lorenz Heilmair, artista plástico e vitralista alemão, fez a segunda grande obra de sua vida em 1957 e eram, justamente, os vitrais da Igreja Matriz de Blumenau, hoje conhecida como a Catedral São Paulo Apóstolo.
O padre Marcelo Martendal resume o que a arquitetura já demonstra por conta própria, que “a força da fé contorce até mesmo a pedra”, conforme cita.

Depois, os olhos vagam até os vitrais laterais. São 16 ao todo e contam uma história em sequência. As 14 estações da Via-Sacra começam no fundo e seguem em ordem até o altar, mas há uma 15ª estação com a ressurreição e uma 16ª que representa a vinda do Espírito Santo. Esse último vitral tem uma explicação histórica direta.
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A catedral de Blumenau, projetada pelo arquiteto alemão Gottfried Böhm, foi separada da paróquia de Gaspar, dedicada a São Pedro. Como as duas festas caíam no mesmo dia no calendário, os freis que atendiam as duas comunidades se dividiram. Gaspar ficou com São Pedro e Blumenau celebra o Divino. O último vitral é a marca disso. A festa acontece todo ano em maio.
Veja os detalhes nos vitrais da Via Sacra
Saiba como funciona o presbitério
No presbitério, espaço onde ficam o altar e o ambão (a “mesa da palavra”), também está a cátedra, a cadeira do bispo. Ela dá nome ao lugar: a catedral é a igreja onde está a cátedra. Logo abaixo, no chão de mármore com uma textura que impressiona, há uma cripta com quatro espaços reservados para o sepultamento dos bispos da Diocese de Blumenau.
Um deles já está ocupado por Dom Angélico, primeiro bispo da diocese, que morreu em São Paulo e foi trazido de volta para ser sepultado aqui. Na lápide, além das datas de nascimento e óbito, consta: “Deus é amor”.
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Há outro sepultamento que também aconteceu na igreja, mas este fica ao lado da porta de entrada, um pouco mais escondido. Uma placa indica onde foi sepultado o Padre Jacobs, primeiro padre a chegar no município, que morreu no Rio de Janeiro com as últimas palavras sendo “Blumenau, Blumenau, Blumenau”.
Perto do altar, o sacrário tem quase 70 anos e foi construído em madeira com detalhes de marfim e ouro. Os anjos adoradores esculpidos na porta são o tipo de detalhe que só aparece para quem para diante dele por tempo suficiente.

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Um olhar atento chega até a identificar uma palheta de cores bem clara em toda a estrutura: branco na estrutura geral, dourado nos detalhes minuciosos, vermelho em destaques, laranja nos tijolos atrás do altar e marrom dos genuflexório, nome dos bancos para ajoelhar e rezar.
Também na região do presbitério, o órgão de tubos ocupa a posição de quem observa tudo, no segundo andar. É de origem alemã, de tração pneumática, fabricado em 1927 e em funcionamento desde então. No ano que vem, completa 100 anos.

O padre Marcelo descreve o instrumento como um organismo vivo, já que reage ao frio, ressente o clima, precisa de manutenção constante em madeira e couro. Dos mais de 800 tubos que compõem a estrutura sonora, apenas uma pequena parte fica visível do chão.
A monumental torre, aquela que aparece em toda foto de Blumenau, abriga três sinos: Jesus Cristo, com 510 quilos; Maria, com 350; e São José, com 200. Todos tocam de forma eletrônica há muitos anos. Para chegar até eles, é preciso subir mais de 100 degraus, primeiro em escada caracol, depois em lances que sobem pela parede. Para quem pode ir até lá, claro, a vista compensa.
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Saiba horários e como chegar na catedral
A catedral, no Centro de Blumenau, está aberta a partir das 6h, com missas de segunda a sexta-feira às 12h15min e 19h, sábado às 8h, 16h30min e 19h, e domingo às 7h, 9h, 17h e 19h. Para quem não consegue ir até lá, o site transmite as celebrações ao vivo, com imagens rodando 24 horas por dia no YouTube.
Quem vem pela Rua XV encontra as escadarias como um convite para conhecer um espaço de paz e silêncio, em pleno Centro movimentado, em que até o som dos ponteiros de um relógio chamam a atenção.































































