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The New York Times

Admirar o caminho pode fazer maravilhas para o bem-estar

Estudo indica que as caminhadas de admiração podem ser uma maneira simples de combater a tristeza e as preocupações

15/10/2020 - 13h02 - Atualizada em: 20/10/2020 - 14h48

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Por The New York Times
Caminhada ao ar livre
A prática de caminhar já é suficiente para melhorar nosso humor
(Foto: )

Observar conscientemente as pequenas maravilhas do mundo ao nosso redor, enquanto fazemos uma caminhada comum, pode aumentar os benefícios que esse tipo de exercício traz à saúde mental, de acordo com um novo e interessante estudo psicológico daquilo que os autores chamam de "caminhadas de admiração".

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No estudo, as pessoas que lançavam um olhar renovado para os objetos, os momentos e as paisagens que as cercavam durante caminhadas semanais se sentiam, no geral, mais felizes e esperançosas que outras pessoas que não faziam o mesmo ao caminhar. As descobertas são subjetivas, mas indicam que as caminhadas de admiração podem ser uma maneira simples de combater a tristeza e as preocupações. Também destacam que aquilo que sentimos e pensamos durante o exercício pode alterar a maneira como essa prática nos afeta.

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Naturalmente, já existem provas suficientes de que o exercício, incluindo a caminhada, pode melhorar nosso humor. Estudos anteriores ligaram a prática de mais atividades físicas à felicidade e a uma redução no risco de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental.

Sentir-se maravilhado também parece aumentar a alegria e melhorar a saúde. Embora seja uma emoção nebulosa, a admiração geralmente é definida como a sensação de estar diante de algo maior e mais importante que você, algo misterioso e inefável. Em estudos anteriores, as pessoas que afirmaram se sentir admiradas também costumavam sentir menos estresse emocional e apresentavam níveis mais baixos de substâncias relacionadas à inflamação em todo o corpo.

Mas nenhum estudo havia analisado se a mistura de admiração e atividade física poderia aumentar os benefícios de ambas – ou, por outro lado, reduzi-los. Por isso, para o novo estudo, publicado em setembro na revista científica "Emotion", cientistas ligados ao Centro de Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia, em San Francisco, e a outras instituições decidiram ensinar os praticantes idosos de caminhada a cultivar esse sentimento.

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Eles se concentraram em pessoas na casa dos 60, 70 e 80 anos, quando algumas pessoas enfrentam riscos mais elevados de deterioração da saúde mental. Os pesquisadores também contavam com uma rede de voluntários formada por homens e mulheres que já participavam de um estudo em andamento na Universidade da Califórnia sobre como envelhecer com saúde.

Os cientistas perguntaram a 52 voluntários do estudo se gostariam de acrescentar uma caminhada de 15 minutos a sua rotina semanal. Todos os selecionados para o estudo apresentavam boas condições de saúde física e cognitiva. Novos estudos de linha de base da saúde mental desses voluntários mostraram que eles também estavam psicologicamente bem ajustados e apresentavam pouca ansiedade ou depressão.

Os pesquisadores dividiram aletoriamente os voluntários em dois grupos. O grupo de controle foi instruído a caminhar ao menos uma vez por semana, durante 15 minutos, de preferência fora de casa, mas recebeu poucas instruções adicionais.

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Da mesma maneira, os integrantes do outro grupo foram convidados a fazer uma caminhada semanal, mas também foram instruídos a cultivar a admiração durante o percurso.

"Basicamente, dissemos a eles que tentassem caminhar em um local novo, sempre que possível, já que a novidade ajuda a cultivar o senso de admiração", contou Virgina Sturm, professora associada de Neurologia na Universidade da Califórnia, em San Francisco, que liderou o novo estudo. Os pesquisadores também sugeriram que os caminhantes prestassem atenção aos detalhes ao longo do trajeto, disse Sturm, "olhando para tudo com o olhar fresco de uma criança".

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Segundo Sturm, os pesquisadores enfatizaram que coisas admiráveis podem estar em qualquer lugar e em toda parte, desde uma paisagem de penhascos em frente ao mar até a luz do sol sobre uma folha tremulante. "A admiração depende de dar atenção ao mundo que existe fora de nossa cabeça e da redescoberta de que ele está repleto de coisas incríveis que não fazem parte de nós", explicou.

Os praticantes das caminhadas de admiração e o grupo de controle foram orientados a caminhar ao ar livre. Nenhum dos grupos foi instruído a caminhar exclusivamente em parques nem a evitar ambientes urbanos, de acordo com Sturm. Os pesquisadores pediram aos dois grupos que tirassem algumas selfies durante as caminhadas para documentar os espaços, mas que evitassem usar o celular enquanto caminhavam.

Os voluntários de ambos os grupos enviaram as fotos ao site do laboratório e responderam diariamente a um questionário on-line sobre seu humor e, se tivessem caminhado naquele dia, sobre como se sentiram durante a caminhada.

Depois de oito semanas, os cientistas compararam as respostas e as fotografias dos grupos.

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Os pesquisadores revelaram, sem grande surpresa, que os praticantes da caminhada de admiração se tornaram hábeis em descobrir e ampliar esse sentimento. Um voluntário relatou se concentrar agora "nas belas cores do outono e na ausência dessas cores na floresta sempre verde". Uma caminhante do grupo de controle, por outro lado, disse que passou boa parte do tempo em sua caminhada mais recente preocupada com as próximas férias e com "tudo que preciso fazer antes de partirmos".

Os pesquisadores também encontraram diferenças pequenas, mas significativas, na sensação de bem-estar dos dois grupos. De forma geral, os praticantes da caminhada de admiração se sentiam mais felizes, menos chateados e mais conectados socialmente que os homens e mulheres do grupo de controle. Os voluntários do grupo de controle relataram alguma melhora no humor, mas seus ganhos foram mais modestos.

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O mais impressionante foi que os pesquisadores notaram uma diferença nas selfies de cada grupo. Ao longo das oito semanas da pesquisa, o rosto dos praticantes das caminhadas de admiração diminuiu em relação ao cenário ao seu redor. Ele se encolhia, enquanto o mundo aumentava. Nada parecido aconteceu nas fotos do grupo de controle. "Não esperávamos isso", comentou Sturm.

Contudo, as descobertas são subjetivas, já que, assim como outras emoções, é difícil quantificar a admiração. Além disso, ainda não existem pesquisas científicas apontando que não ocupar muito espaço nas selfies indique algo a respeito do fotógrafo. Os participantes do estudo também eram todos idosos, com boas condições de saúde e habituados a caminhar. Não se sabe se pessoas jovens ou com problemas de saúde se beneficiariam da mesma maneira, nem se deveriam tentar praticar corridas, nado, trilhas ou passeios de admiração.

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Sturm acredita, porém, que a possibilidade é animadora, especialmente agora que a pandemia e outras preocupações se tornaram um grande problema. "É tão simples olhar ao redor em busca de coisas admiráveis enquanto nos exercitamos. Não há contraindicação", concluiu.

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