Os bastidores do roubo que deixou um prejuízo milionário ao Banco Itaú em Blumenau têm como pano de fundo a promoção de um dos suspeitos de participação no crime e a ação rápida de um turista dedo-duro. As informações são da Polícia Civil. Os detalhes do caso, que veio a público nesta quinta-feira (8) após a conclusão do inquérito, são dignos de filme e pode ter revelado uma modalidade de crime até então desconhecida em Santa Catarina.

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Para o delegado Rodrigo Raitez, o planejamento do roubo a duas funcionárias de uma agência no Centro de Blumenau começou cerca de três meses antes do crime ocorrido em setembro. Um trio monitorava as gerentes, sabia os horários de chegada e saída na empresa delas e também sobre a troca de veículos que faziam na loja da Havan de Indaial sempre na ida e volta do serviço.

Imagens de câmeras de segurança mostram os dois homens e um adolescente na Avenida Beira-Rio, esperando as mulheres deixarem o trabalho. Quando elas embarcam no carro, eles atravessam a rua e entram em um carro que estava bem perto do das mulheres. Elas são seguidas até o estacionamento da loja às margens da BR-470 e os ladrões chegam logo na sequência.

Eles não contavam, porém, que um turista olhava de longe.

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Quando as gerentes são rendidas pelos criminosos e os bandidos arrancam o carro com as duas dentro, o turista age rápido e passa as informações para a polícia. Ele relata detalhes do veículo da vítima e também do que está em apoio aos ladrões. Começava ali uma perseguição pela BR-470 que só teve fim em Blumenau, quando o pneu do Jeep Renagade estourou a PM conseguiu fazer a abordagem.

Um dos bandidos morreu em confronto com a polícia e outro conseguiu escapar. Ele é considerado foragido. O que estava no carro de apoio, um adolescente, acabou apreendido durante a investigação e está no Casep. As mulheres foram resgatadas com vida, sem ferimentos, mas bastante assustadas. Uma delas estava grávida de quatro meses na época e tinha acabado de saber que seria a mãe de um menino.

Apesar dos momentos de horror, ficou tudo bem com o bebê.

Até ali era crime “comum”

Para a Polícia Civil, tudo indicava que fosse para um roubo “comum”, onde os criminosos poderiam apenas ter interesse no carro e nos computadores das gerentes para revender. Foi quando o Banco Itaú trouxe o chamado “fato novo” à história: cerca de R$ 2,6 milhões foram tirados das contas de mais de 20 clientes por pessoas usando as senhas das gerentes alvos do roubo. A investigação mudou de rumo e a polícia descobriu que o colega de trabalho das duas estava por trás do crime.

De acordo com Raitez, as mulheres vítimas do assalto eram a gerente-geral e a gerente de contas da agência. A gerente-geral inclusive tinha sido a responsável por promover o gerente que ajudou no crime.

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A polícia sustenta que esse funcionário foi contatado por um criminoso do Rio Grande do Sul, cabeça da ação e responsável por todo o planejamento do roubo, e concordou em passar as senhas da chefe e da colega de trabalho para que os bandidos conseguissem acessar as contas dos clientes com os notebooks que pegaram delas durante o roubo. O gaúcho é integrante de uma facção criminosa e já cumpriu mais de 20 anos de prisão. Ele voltou à cadeia nesta quinta-feira (8).

As investigações apontam que os computadores roubados das gerentes foram enviados ao Rio de Janeiro, onde foram hackeados para as transações financeiras serem feitas. O gerente foi preso em Porto Belo e teria admitido o repasse de informações ao grupo. Em troca, receberia meio milhão de reais, o que segundo ele não aconteceu.

A Polícia Civil diz que nunca ter ouvido falar desse tipo de crime em Santa Catarina, mas que tem ocorrido no estado fluminense.

E qual foi o papel do ex-jogador

O empresário e ex-jogador de futebol preso em Blumenau também nesta quinta-feira seria o elo entre o criminoso gaúcho e o gerente do Itaú. Ele é cliente do banco e teria repassado o contato do gerente para o homem no Rio Grande do Sul. Em depoimento à polícia, segundo Raitez, o atleta admitiu ter servido de ponte, mas alegou não ter conhecido sobre o planejamento do crime. O nome do homem não foi confirmado pela polícia, que relatou apenas que ele seria “ex-jogador do Paulista de Jundiaí-SP”.

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Mas onde está o dinheiro?

O inquérito sobre o roubo das gerentes foi concluído e enviado ao Fórum de Blumenau, mas a Polícia Civil abriu nova investigação com o objetivo de saber para onde foi o dinheiro retirado das contas dos clientes. Houve pedido de quebra de sigilo bancário de algumas pessoas para tentar rastrear os valores.

— Vamos tentar identificar os reais beneficiários dessas transações e com isso todo o esquema criminosos e os outros integrantes dessa organização criminosa — conclui Raitez.

O gerente e o criminosos gaúcho presos nesta quinta-feira (8), bem como o outro foragido, vão responder pelos crimes de roubo, furto, organização criminosa e corrupção de menor.

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