O Brasil não levou nenhuma estatueta nesta edição do Oscar — nem com as quatro indicações de “O Agente Secreto”, nem com Adolpho Veloso, indicado a melhor fotografia por “Sonhos de Trem”. A frustração é legítima para quem torceu, fez memes, vestiu a camisa e acompanhou a transmissão. Mas seria miopia reduzir a noite a isso.

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A temporada de “O Agente Secreto” deixa um marco para o cinema nacional. O filme de Kleber Mendonça Filho repetiu um feito que o país não alcançava havia mais de duas décadas: receber quatro indicações ao Oscar, incluindo duas inéditas para o país, de Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco. Antes dele, apenas “Cidade de Deus” havia chegado a quatro categorias, em 2004, também sem levar prêmios.

Desde então, o Brasil voltou a passar longos períodos longe do radar da premiação. Bons filmes não faltavam: “Que Horas Ela Volta?” (2016), “Aquarius” (2016), “Bacurau” (2020) e “A Vida Invisível” (2020). Todos tiveram boa recepção da crítica, mas nenhum conseguiu transformar esse prestígio em uma indicação ao Oscar.

Eram frequentes, nessa época, as comparações com o cinema argentino, que já foi indicado oito vezes e levou dois prêmios na categoria de Filme Internacional. Enquanto isso, o cinema brasileiro, até 2024, havia recebido apenas quatro indicações e nenhuma vitória até então. 

O jogo começou a virar no ano passado, quando “Ainda Estou Aqui” teve três indicações e trouxe ao Brasil, pela primeira vez, o Oscar de melhor filme internacional. Êxito que continuou neste ano, com as indicações de “O Agente Secreto” ao Oscar e as vitórias no Globo de Ouro, em Cannes e no Critics Choice Awards.

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Parte desse resultado vem de algo que o cinema brasileiro demorou duas décadas para aprender: fazer campanha.

O Brasil aprendeu a fazer campanha

Fazer campanha ao Oscar nada mais é do que convencer os mais de 10 mil membros que compõem a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a assistirem e votarem a favor de determinado filme. Uma boa campanha começa com a estreia em festivais (como Cannes, no caso de “O Agente Secreto”, e Veneza, no de “Ainda Estou Aqui”), e ganha força, principalmente, com o trabalho das distribuidoras.

Essas empresas, como a Neon, no caso do filme de Kleber Mendonça Filho, e a Sony, no caso do longa de Walter Salles, são responsáveis por bancar e organizar eventos, entrevistas, exibições especiais e “tours” para promover o filme, principalmente nos Estados Unidos. Quem cumpre essa agenda são os atores, diretores e demais membros da equipe.

Wagner Moura, assim como Fernanda Torres, cumpriu a campanha com afinco. Participaram de entrevistas em talk shows, bateram ponto em eventos da temporada e viraram “queridinhos” de artistas famosos — como Elle Fanning, de “Valor Sentimental”, que recentemente elogiou o brasileiro e disse que gostaria de sentar perto dele na cerimônia do Oscar.

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Ao final da temporada passada, a protagonista de “Ainda Estou Aqui” resumiu o empenho dedicado a uma campanha ao Oscar:

— A corrida do Oscar começou em setembro. Imagina como eu estou? Meu cabelo já não aguenta uma escova — disse ela brincando durante uma entrevista, após cinco meses de campanha ao Oscar.

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Reconhecimento internacional traz impactos reais

Também é preciso reconhecer que uma indicação ao Oscar não é só “validação de Hollywood”, como muitos críticos mais puristas em relação ao cinema brasileiro ainda dizem. A visibilidade incentiva a produção dentro do próprio país, atrai investimento e coloca nossos profissionais no radar.

No ano passado, por exemplo, na esteira de “Ainda Estou Aqui”, a Marché du Film, mercado oficial do Festival de Cannes, nomeou o Brasil como País de Honra da edição de 2025, em um evento que ofereceu uma vitrine para a indústria audiovisual brasileira, seus talentos e o potencial de coprodução internacional.

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Além disso, por dois anos seguidos, o Brasil viveu um verdadeiro clima de Copa do Mundo nos dias que antecederam o Oscar. Wagner Moura e Fernanda Torres viraram ícones. Ambos deram origem a fantasias de Carnaval e murais pintados em diferentes cidades.

Desafio agora é manter visibilidade

O desafio agora é transformar o conhecimento sobre campanha em continuidade. Porque, apesar da aclamação recente, o Brasil, com suas seis indicações, ainda está longe dos números da França (41 indicações) e da Itália (33). Na América Latina, estamos nos aproximando do México (nove) e da Argentina (oito).

Com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, esse caminho parece mais claro. Ainda que não tenha, ainda, um título forte que sinalize uma indicação brasileira ao Oscar em 2027.

No discurso de vitória no Globo de Ouro, Kleber Mendonça Filho apontou justamente para esse futuro:

— Eu dedico este filme aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para se estar fazendo cinema. Aqui nos Estados Unidos, no Brasil… jovens cineastas, façam filmes!

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