Em meio às propriedades rurais de Princesa, pequeno município do Extremo-Oeste de Santa Catarina, uma atividade ainda rara na região chama a atenção de quem passa pela comunidade. No local, o casal Mauro Lunkes e Angélica Knob decidiu apostar em um segmento pouco conhecido da produção animal brasileira: a criação de rãs para comércio.
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A decisão representou uma mudança radical de vida. Mauro, técnico em Segurança do Trabalho, e Angélica, formada em Administração, deixaram para trás anos de atuação em indústrias moveleiras e outros empreendimentos para dedicar-se integralmente à ranicultura.
Mas a história começou muito antes.
A ranicultura é a atividade dedicada à criação comercial de rãs para produção de carne e reprodução. Apesar de consolidada em algumas regiões do Brasil, ainda possui poucos empreendimentos em Santa Catarina.
O interesse pela atividade surgiu há cerca de 15 anos, quando Mauro conheceu o potencial econômico da criação de rãs. A possibilidade de transformar uma atividade considerada exótica em uma fonte de renda despertou sua curiosidade e o levou a buscar mais informações.
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Na época, ele chegou a planejar uma visita a um criadouro no Paraná para conhecer de perto o sistema de produção. A viagem, porém, não saiu como esperado. Sem conseguir localizar a propriedade, o projeto acabou sendo adiado.
Mesmo assim, o sonho permaneceu vivo.
– Era algo que sempre ficou guardado. Com o passar dos anos continuamos pesquisando e amadurecendo a ideia até entendermos que aquele era o momento certo para investir – conta Angélica.
Planejamento foi essencial para a criação de rãs em SC
A decisão de entrar na atividade não aconteceu de forma impulsiva. Durante anos, Mauro e Angélica estudaram o mercado, buscaram informações técnicas e avaliaram a viabilidade econômica da produção.
Há cerca de três anos, adquiriram uma propriedade rural já pensando na implantação do ranário. A escolha do local levou em consideração fatores importantes para a atividade, como disponibilidade de água, características do terreno e condições adequadas para o desenvolvimento dos animais.
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O projeto começou efetivamente há aproximadamente um ano e meio, quando foram adquiridos os primeiros animais. Desde então, a rotina passou a ser marcada por aprendizado constante, acompanhamento técnico e dedicação integral ao desenvolvimento da produção.
Como a criação de rãs virou novo projeto de vida do casal
Quando perceberam que o empreendimento exigiria atenção diária, veio uma das decisões mais importantes da trajetória do casal: abandonar as atividades que exerciam até então.
Por muitos anos, Mauro atuou na área de segurança do trabalho, enquanto Angélica construiu carreira ligada à administração e à gestão empresarial. Paralelamente, também empreenderam em outros setores.
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Com a implantação do ranário, porém, ficou evidente que seria necessário estar presente em tempo integral na propriedade.
— Foi uma mudança muito grande na nossa vida. Sair da rotina que já conhecíamos para apostar em uma atividade totalmente diferente exigiu coragem. Mas acreditamos no potencial da ranicultura e estamos felizes com a decisão que tomamos — afirma Angélica.
A única espécie permitida para criação comercial
Atualmente, a propriedade trabalha exclusivamente com a rã-touro-gigante, espécie autorizada para criação comercial de rãs em território brasileiro. Embora o Brasil possua uma grande diversidade de anfíbios, a legislação permite apenas a produção da rã-touro em sistemas comerciais.
A espécie se destaca pelo rápido desenvolvimento, boa adaptação ao sistema produtivo e potencial para produção de carne.
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Seu tamanho também costuma surpreender visitantes.
— Muitas pessoas ficam impressionadas quando conhecem os animais de perto. A maioria está acostumada a ver rãs apenas na natureza e não imagina que exista toda uma cadeia produtiva organizada por trás da atividade — explica Angelica.
Na região Oeste de Santa Catarina, por exemplo, também é comum encontrar espécies nativas, como a rã-pimenta. Entretanto, esses animais pertencem à fauna brasileira e não podem ser criados comercialmente.
Temperatura, água e manejo: os cuidados com as rãs
Apesar de parecer uma atividade simples para quem observa de fora, a criação de rãs exige conhecimento técnico e monitoramento constante.
Os anfíbios são extremamente sensíveis às condições ambientais. Qualquer alteração na qualidade da água, na temperatura ou na alimentação pode comprometer o desenvolvimento dos animais.
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Por isso, o acompanhamento diário é considerado indispensável.
Entre os principais desafios está o controle da densidade dos lotes. Como as rãs possuem comportamento carnívoro, os produtores precisam realizar constantemente a separação dos animais conforme o tamanho.
Sem esse manejo, exemplares maiores podem atacar os menores, gerando perdas na produção.
Além disso, a prevenção é uma das palavras-chave da atividade.
O controle sanitário, a observação permanente do comportamento dos animais e a adoção de boas práticas de manejo são fundamentais para evitar doenças e garantir o bem-estar do plantel.
— É uma atividade que exige muita atenção. Não existe a possibilidade de deixar os animais sem acompanhamento. Todos os dias é necessário monitorar as condições de criação — explica Angélica.
Mercado da criação de rãs ainda é pouco conhecido em SC
Embora esteja presente no Brasil há décadas, a ranicultura ainda é considerada uma atividade de nicho quando comparada a outros segmentos da pecuária.
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A própria falta de conhecimento da população sobre o setor costuma gerar surpresa.
Muitos consumidores desconhecem que existem criadouros especializados, frigoríficos habilitados para o processamento e um mercado consolidado para a carne de rã.
Em Santa Catarina, um dos frigoríficos especializados no abate desses animais está localizado em Chapecó, referência regional para o setor.
A carne de rã é reconhecida pelo alto teor de proteína, baixo teor de gordura e sabor suave, características que fazem com que o produto seja valorizado em determinados nichos de mercado.
Atividade apresenta potencial econômico
Mesmo exigindo dedicação e investimentos, a ranicultura é vista pelos produtores como uma alternativa promissora para diversificação da renda no meio rural.
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Segundo Mauro e Angélica, estudos de viabilidade apontam que o setor possui potencial de crescimento e pode proporcionar bons resultados quando conduzido de forma profissional.
Assim como ocorre em outras atividades agropecuárias, o sucesso depende de planejamento, gestão eficiente e aplicação correta das técnicas de produção.
Os cálculos realizados pelo casal indicam que o retorno do investimento pode ocorrer em aproximadamente dois anos, desde que sejam mantidas as condições adequadas de manejo e comercialização.
Enquanto acompanham o desenvolvimento do empreendimento em Princesa, os produtores seguem ampliando conhecimentos e consolidando um projeto que levou mais de uma década para sair do papel.
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