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O PALCO DO TEMPO

Casarões antigos da Rua XV em Blumenau ajudam a contar a história do comércio

Livro em fase final de produção vai mostrar como a via teve papel fundamental nas transformações vividas pela cidade

05/10/2021 - 06h00

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Pedro
Por Pedro Machado
Edificações ao longo da XV ajudam a explicar como o município forjou seu desenvolvimento
Edificações ao longo da XV ajudam a explicar como o município forjou seu desenvolvimento
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Entre vitrines, anúncios de ofertas e entregadores de panfletos, a Rua XV de Novembro preserva um legado dos primórdios de Blumenau que foge do alcance dos olhos daqueles que só enxergam o que está à frente ou, nestes tempos modernos, distraem-se com a tela do celular. Quem experimenta percorrer os quase dois quilômetros de extensão da via com a cabeça erguida – sem se descuidar do caminho, é claro – pode se surpreender com o que encontra acima dos letreiros das lojas.

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Ao longo desse trajeto estão espalhados casarões que ajudam a explicar como a cidade forjou o seu desenvolvimento não apenas econômico, mas também cultural e político. São edificações que abrigaram as primeiras casas de comércio abertas por imigrantes alemães, que começaram a desembarcar em Blumenau a partir de 1850, e que agora estão sendo revisitadas em um novo livro, prestes a sair do forno.

> Mapa interativo mostra a evolução da Rua XV de Novembro de Blumenau em 10 imagens

A obra foi encomendada pelo Sindilojas, sindicato que representa os empresários lojistas. A ideia é resgatar as transformações que ocorreram ao longo da Rua XV de Novembro com o passar dos anos e identificar a localização dos comércios pioneiros da cidade. Mais do que eternizar memórias no papel, um dos objetivos é valorizar o espírito empreendedor de quem desbravou Blumenau no passado, justifica Emilio Schramm, presidente da entidade:

— Quantas pessoas deram o seu suor, para não dizer vida, para o desenvolvimento do comércio de Blumenau? Isso tem que ser resgatado.

Emilio Schramm, presidente do Sindilojas: ideia de obra é valorizar espírito empreendedor da cidade
Emilio Schramm, presidente do Sindilojas: ideia de obra é valorizar espírito empreendedor da cidade
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O livro já tem nome: “Rua XV de Novembro – O desfile do tempo”. A produção está a cargo de uma equipe liderada pela historiadora Ana Maria Ludwig Moraes. As pesquisas, que começaram há cerca de três anos, incluem consultas a jornais escritos em alemão do fim do século 19 e início do século 20, coletas de depoimentos e recuperação de propagandas antigas das lojas. O trabalho é custeado com recursos captados via Lei Rouanet.

Dividida em quatro capítulos, a obra traça um perfil da Rua XV em quatro períodos, de 1850 a 2000, quando a via passou por uma ampla obra de reurbanização. Em cada um desses espaços de tempo, um mapa vai ajudar a apontar onde estavam os estabelecimentos comerciais das respectivas épocas. A expectativa de Ana Maria é que tudo esteja pronto ainda em 2021.

Esboços do livro aos quais a reportagem do Santa teve acesso revelam que nos primeiros anos da cidade as casas de comércio atendiam necessidades primárias – hospedarias, secos e molhados e oficinas de carroças, por exemplo. Com o passar do tempo e a consolidação da colônia como município, começam a ganhar espaço nas vitrines artigos mais sofisticados, como porcelanas, cristais, chocolates estrangeiros e até caviar.

Mapa elaborado em 1858 mostra a distribuição de lotes no perímetro da colônia e sugere o que seria o primeiro traçado da Rua XV às margens do Rio Itajaí-Açu
Mapa elaborado em 1858 mostra a distribuição de lotes no perímetro da colônia e sugere o que seria o primeiro traçado da Rua XV às margens do Rio Itajaí-Açu
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De “picada” a base do desenvolvimento

Acredita-se que o primeiro traçado da Rua XV de Novembro conste em um mapa elaborado em 1858 por Emil Odebrecht, engenheiro que emigrara da então Prússia e que viria a se tornar um importante colaborador de Dr. Blumenau. No documento, é possível visualizar a distribuição de lotes no perímetro da sede da colônia. Um pontilhado que acompanha o curso do Rio Itajaí Açu pressupõe, para Ana Maria, o que seria a futura via – que receberia o atual nome somente em 1890, após a proclamação da República.

A ocupação às margens do rio fazia sentido: eram pelas águas que chegavam notícias e insumos de fora e também por elas onde se escoaria a produção colonial. Naquela época ainda não existia a Avenida Beira-Rio, que só começaria a ser construída em 1964 e ficaria pronta em 1975. Aliás, era praticamente tudo mato.

— Era tão rustica essa região que a Rua XV de Novembro era inicialmente uma picada. A medida em que os lotes foram sendo ocupados, ela vai ganhando corpo — lembra a historiadora Sueli Petry, diretora do Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura de Blumenau.

Quando surgiram, as propriedades da colônia eram basicamente voltadas à subsistência. Quando a produção começou a bastar, colonos viram no que sobrava uma oportunidade de ganhar dinheiro sem depender apenas do trabalho duro da lavoura. Estava plantada a semente que germinaria o comércio de Blumenau e que, mais adiante, impactaria também na indústria e nos costumes dos moradores.

Sueli Petry, historiadora: à medida em que lotes são ocupados, Rua XV vai ganhando corpo
Sueli Petry, historiadora: à medida em que lotes são ocupados, Rua XV vai ganhando corpo
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A formação do comércio

As primeiras casas comerciais de Blumenau começaram a surgir a partir dos anos 1860. Nos balcões era possível encontrar produtos agrícolas como açúcar, mandioca, fubá, fumo, banha e vinagre. Com o passar do tempo, o estoque começou a ir além dos gêneros alimentícios, avançando para itens como talheres, lubrificantes para móveis, munições para armas, parafusos e ferramentas. Apesar da diversidade, ainda não havia nichos de negócios bem definidos na época.

— As lojas não eram específicas para determinadas coisas. A grande maioria era dos secos e molhados, então vendiam de tudo, dependendo dos seus clientes. Era de carne seca até papelaria — pontua a historiadora Ana Maria Ludwig Moraes.

A maior parte desses comércios era batizada com o sobrenome dos proprietários – o que mais tarde viria a calhar, servindo de atestado de qualidade e procedência das mercadorias. Entre as mais emblemáticas do século 19 está a Casa Salinger, fundada por Gustav Salinger, cuja construção até hoje segue preservada, inclusive abrigando o Museu de Hábitos e Costumes. O imigrante alemão foi figura tão influente em Blumenau que chegou a ser prefeito e fundador e primeiro presidente da associação empresarial (hoje Acib).

No início basicamente tudo, inclusive a administração pública, estava concentrado no Stadtplatz, como era chamado o núcleo mais urbano da colônia – região que atualmente equivale ao Centro Histórico. Com a cidade crescendo, o comércio foi ganhando território ao longo da Rua XV. No rastro do aumento do fluxo de pessoas que vinham a Blumenau a negócios começam a ser instalados hotéis, hospedarias e restaurantes nos arredores.

A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes lidera a equipe responsável pela produção do livro
A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes lidera a equipe responsável pela produção do livro
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— As pessoas que vinham tinham que dormir aqui — conta Ana Maria ao lembrar que, naqueles tempos, com estradas precárias e sem automóveis, viagens que hoje são consideradas curtas demandavam um planejamento logístico à parte.

Na largada do século 20, Blumenau já tinha bancos, iluminação pública, teatros e até cinema. Preocupados com a ocupação acelerada do território e com a imagem que a cidade oferecia aos estrangeiros, jornais da época, como o Der Urwaldsbote, apelavam para a manutenção de estradas limpas e roçadas. A Rua XV ainda não era calçada e a poeira provocada por veículos motorizados que começavam a ganhar as ruas incomodava parte da população.

Em resposta às críticas, a gestão do então prefeito Curt Hering deu início, em 1926, à pavimentação da via com paralelepípedos, obra que levou três anos para ser concluída. Àquela altura, vários comerciantes já haviam construído casas de dois andares pela Rua XV. Enquanto no térreo funcionavam as lojas, a parte de cima servia de residência para as famílias.

Algumas dessas edificações desapareceram do mapa, mas outras estão preservadas até hoje e entregam detalhes de seu tempo, como o ano em que foram erguidas (veja abaixo). A parte de baixo desses imóveis segue mantendo a vocação original e abriga lojas dos mais variados produtos. Já no segundo piso o espaço que antes servia de lar para os comerciantes deu lugar em muitos casos a escritórios de prestadores de serviços.

Veja detalhes de construções da Rua XV que contam a história do comércio:

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