Desde sábado (28), moradores de Doha convivem com o barulho de interceptações de mísseis, aulas presenciais suspensas e a orientação do governo para que a população permaneça em casa sempre que possível. Natural de Criciúma, no Sul de Santa Catarina, o ex-treinador de goleiros Airton Souza, de 68 anos, vive há duas décadas na cidade que é capital do Qatar, e relatou ao NSC Total como está a rotina na cidade em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, causada por uma grande ofensiva aérea dos EUA contra alvos militares e estratégicos no Irã.
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Segundo Airton, a orientação do governo local é para que a população permaneça em casa sempre que possível.
— Eles pediram para que a gente só saísse em extrema necessidade. Quem pode trabalhar de forma remota está em casa — relata.
As escolas suspenderam as aulas presenciais e adotaram o ensino on-line. Apesar disso, a rotina não foi completamente interrompida, de acordo com ele.
— Tem muita gente trabalhando, gente na rua. É uma vida relativamente normal, mas com cuidado — afirma.
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O que mais impressiona, segundo ele, são os estrondos provocados pela interceptação de mísseis lançados pelo Irã.
— O barulho é muito alto. Você está dentro do apartamento e a janela chega a mexer. É um “bum” atrás do outro. No sábado, era de hora em hora — conta.
Nos últimos dias, os ruídos diminuíram, mas ainda são ouvidos, inclusive durante a madrugada. Airton acredita que a redução pode estar relacionada ao fato de que ataques também passaram a atingir outros países do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Bahrein. Além dos mísseis, há relatos do uso de drones. Um dos episódios recentes envolveu o impacto em uma refinaria de gás.
— Não foi um estrago muito grande, mas atingiu. O Qatar interceptou, mas sempre fica essa apreensão — diz.
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Ele explica que os ataques são vistos como retaliação e não direcionados à população civil. O país abriga a maior base militar dos Estados Unidos na região do Golfo, o que o coloca no centro das tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
— As bases não estão sendo atingidas porque os mísseis estão sendo interceptados. O perigo são os “debris”, os pedaços que caem quando o míssil é destruído no ar — explica.
Entre orações e incertezas, ele resume o sentimento de quem acompanha o conflito à distância do front, mas sob seus efeitos diretos:
— A gente pede a Deus que isso acabe o mais rápido possível. É uma situação muito horrível. Estamos aguardando um desfecho para que tudo volte ao normal.
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Como começaram os conflitos?
Os Estados Unidos e Israel realizaram no sábado uma grande ofensiva aérea contra alvos militares e estratégicos no Irã, alegando ser necessário destruir o programa nuclear iraniano e responder a ameaças do regime.
Em retaliação, o Irã lançou mísseis e drones contra Israel e contra bases norte‑americanas em diversos países do Oriente Médio. Os ataques atingiram o topo da liderança iraniana e resultaram na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, confirmada pelo próprio governo iraniano horas depois.
Outras altas autoridades militares, incluindo o chefe do Estado‑Maior e o ministro da Defesa, também morreram.
O conflito ampliou drasticamente as tensões regionais, fechou o Estreito de Ormuz, provocou centenas de mortes no Irã e desencadeou ondas de ataques em vários países do Oriente Médio.
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Veja imagens do conflito
“Devemos nos preparar para o pior”, diz embaixador brasileiro
O embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou nesta segunda-feira (2) à GloboNews que o Brasil deve se preparar para o pior diante do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, no Oriente Médio.
— Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável. Devemos nos preparar para o pior — afirmou ele.
Ao ser questionado sobre o que seria “o pior”, Amorim mencionou um possível alastramento do conflito na região.
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— O aumento vertiginoso das tensões no Oriente Médio, com grande potencial de alastramento. O Irã historicamente fornece armamento para grupos xiitas que estão em outros países, além de grupos radicais — argumentou.
O embaixador acrescentou que vai falar, por telefone, com o presidente Lula ainda nesta segunda-feira. Segundo ele, os dois ainda não “conversaram direito” sobre o assunto.
Segundo interlocutores do Planalto, a diplomacia brasileira ainda vai avaliar como o conflito pode interferir na agenda de Lula com o presidente norte-americano, Donald Trump, neste mês.
Há uma previsão de que a ida de Lula a Washington ocorra de 15 a 17 de março, mas o martelo ainda não foi batido. Na sexta-feira (27), Trump, inclusive, disse que “adoraria” receber o brasileiro em Washington.
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— Estamos a poucos dias do encontro do presidente com Trump, em Washington. É sempre difícil encontrar o equilíbrio entre a verdade e a conveniência. Não perder a capacidade de diálogo sem comprometer a credibilidade exige destreza — afirmou Amorim.
O governo brasileiro já prestou solidariedade a países impactados por ataques retaliatórios do Irã e pediu a interrupção de ações militares na região do Golfo. Em nota divulgada na noite deste sábado (28), o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a escalada representa uma grave ameaça à paz.
Diferentemente do comunicado divulgado na manhã de sábado, quando condenou ataques feitos por Israel e Estados Unidos contra alvos iranianos, nessa última nota o Itamaraty não citou diretamente os dois países.





