No meio de um horto botânico no Centro Histórico de Blumenau, existe um lugar que boa parte dos moradores nunca visitaram, mas que turistas de todo o Brasil buscam por curiosidade: um pequeno cemitério a céu aberto com nove lápides de concreto cinza, cada uma com um nome gravado. Pepito, Mirko, Bum, Peterle, Musch, Schnurr, Sittah, Putze e Mirl. Todos os finados eram gatos, que já foram muito amados em vida e, agora, são homenageados na morte.
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Quem caminha devagar pela trilha de pedras e se mantém atento consegue encontrar os totens com fotos pessoais de Edith, posando há muitos anos naquele mesmo jardim, e diversas artes espalhadas entre as árvores que ilustram os felinos. Esculturas coloridas e lúdicas imitam as figuras dos gatos, outras fazem alusão às brincadeiras dos animais, como a do gato Peterle que “quer ser artista de circo! Atravessar círculos, saltar, atirar-se ao mundo”, como conta a placa.

O espaço, em que o som dos pássaros é mais alto do que os carros que passam pela Rua Alameda Duque de Caxias — ou, para os mais íntimos, a Rua das Palmeiras —, fica nos fundos do Museu da Família Colonial. O Cemitério dos Gatos compõe o que hoje se chama de Horto Botânico Edith Gaertner, em pleno coração do Centro Histórico de Blumenau.
“A beleza e tranquilidade que faziam Edith esquecer o mundo e perder-se em pensamentos, podem ainda ser sentidos nos caminhos que se embrenham por todo o parque”, diz um totem informativo.
Há uma escultura de dois felinos no centro de uma clareira, elaboradas pelo artista Miguel Borba na década de 1970. Junto dela, uma placa com uma frase atribuída ao escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, gravada em alemão e em português, que retrata quem Edith era com primazia: “Ao esmagar, hoje, uma aranha, perguntei-me se me era lícito matar a quem Deus dera, como a mim, parte igual nos dias desta vida”.
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Edith Gaertner: uma artista viajante
Edith Gaertner nasceu em Blumenau no dia 22 de março de 1882 e era sobrinha-neta do fundador da cidade, Hermann Bruno Otto Blumenau. Filha do cônsul alemão e da fundadora do teatro, era a caçula de oito irmãos, como conta a Secretaria de Turismo e Lazer municipal. Cresceu em uma família de prestígio, mas foi o que fez depois que a tornou uma figura singular na história da cidade.
Após a perda dos pais aos 20 anos, Edith decidiu deixar o Brasil. Inicialmente, trabalhou como governanta no Uruguai, mas o verdadeiro sonho era se tornar atriz. Da América do Sul, foi para a Europa. Na Alemanha, cursou a Academia de Arte Dramática em Berlim e, nos mais famosos palcos, de Viena a Leipzig, encenou Goethe, Schiller, Molière e Shakespeare. A crítica a recebia muito bem, especialmente a dicção e expressão eram elogiadas.

Além da paixão pelo teatro, ela gostava de se autofotografar — e algumas fotos, especialmente as que ela posa com os gatinhos, estão expostas em totens pelo bosque — e tinha o hábito de tomar o “chá das cinco”, costume europeu que adquiriu nos anos em que morou na Alemanha.
Foi também na Europa que conheceu Eleonora Duse, atriz que se tornaria uma grande referência artística. A carreira seguia bem, como contou a historiadora e professora Sueli Petry, diretora do Patrimônio Histórico de Blumenau. E então, em 1924, veio a notícia que mudaria o rumo da vida da artista.
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O retorno e a reclusão
Edith voltou a Blumenau em 1924 para cuidar dos seus irmãos Erich e Arnold, que estavam doentes, e foi esse o motivo pelo qual abandonou a carreira. Nunca mais pisou num palco. Nunca mais saiu da cidade.
— Solteira, Edith nunca teve filhos. Não trabalhou mais com teatro, vivia enclausurada. Para passar o tempo tinha gatos, e toda a parte afetiva era para eles. Tinha seis, sete gatos de uma vez só, e à medida que os gatos foram morrendo, ela os enterrava nos fundos da casa — conta a historiadora.

A Fundação Cultural de Blumenau conta que a propriedade já chegou a ter 50 sepulturas, mas após a restauração e revitalização do espaço foram conservados somente nove túmulos em uma clareira. Cada um que morria recebia um enterro, com direito até a cortejo fúnebre. Edith os sepultava no grande horto que tinha nos fundos de casa, um terreno de 1.775 metros quadrados cercado pelas árvores plantadas pelos antepassados da família.
Em 27 de agosto de 1951, dezesseis anos antes de morrer, Edith cedeu o terreno herdado pela família à prefeitura, sob a condição de que a área fosse mantida tal como a dona a deixara. Quando os herdeiros tentaram revogar a decisão alegando que ela não estaria lúcida, a doação foi mantida.
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“Em seu parque, Edith mantinha bambuzais, bananeiras, palmeiras, árvores frutíferas e vários espécimes raros de flora. Para não perder o tão estimado tesouro, Edith doou as terras, em troca da garantia de que tudo seria preservado”, conta uma placa.
Edith Gaertner morreu em 1967, foi a última proprietária da casa. O então diretor da Biblioteca Pública e historiador, José Ferreira da Silva, transformou o imóvel em museu e, em respeito a ela, manteve o cemitério de gatos. Foi ele quem colocou as lápides com os nomes dos animais.

O cemitério preservado no tempo
O aspecto atual do espaço, com diversas espécies de plantas e a escultura rodeada por nove lápides, foi construído entre os anos 1991 e 1992 durante a restauração do lugar. Originalmente existiam quase 50 sepulturas no cemitério, mas o número foi reduzido durante o tempo em que o parque ficou abandonado após a morte de Edith.
As nove lápides que restam preservam os nomes de gatos que viveram ali entre o começo dos anos 1920 e o fim dos anos 1960. Não se sabe ao certo por que esses nove, em especial, foram os escolhidos para ter os nomes imortalizados.
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Veja os túmulos dos gatinhos
Em outubro de 2024, o espaço passou por nova revitalização, coordenada pela Gerência de Museus da Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais. As trilhas que levam ao cemitério ficaram mais seguras com um novo piso, o terreno foi ajustado com uma camada de pó de brita, as lápides e os bancos foram pintados de cinza e novas placas foram instaladas para facilitar a identificação dos nove gatos.
“Em seu jardim, Edith reservou um espaço a seus gatos, para que, quando morressem, também tivessem seu recanto”, informa uma placa.
Hoje o Cemitério dos Gatos integra o complexo do Museu da Família Colonial e pode ser combinado com a visita ao Mausoléu do Dr. Blumenau, que fica nas proximidades. O horto também é frequentado por cotias, capivaras e diversas aves, o que torna o passeio mais completo do que muitos visitantes esperam quando chegam.

Como visitar
O acesso ao Cemitério dos Gatos em Blumenau é gratuito, com horário de visitação de terça-feira a domingo, das 10h às 16h. Não é necessário agendamento, basta chegar com curiosidade e explorar por conta própria. O espaço pode ser visitado pelo complexo do Museu da Família Colonial, na Alameda Duque de Caxias, 78, ou pela Secretaria de Cultura, na Rua XV de Novembro, 161.
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