Com o início do aquecimento das águas superficiais no Pacífico, próximo ao Peru, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Nooa) dos Estados Unidos, referência mundial no acompanhamento desse evento, informou que o El Niño de 2026/2027 pode se tornar um dos mais intensos já registrados. Caso as estimativas se concretizem, o fenômeno atingirá o patamar de “super” (categoria muito forte) no fim de 2026.
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Esse aquecimento, que caracteriza o El Niño, já foi constatado na última medição, com temperatura 0,7ºC acima da média, indicando o início do processo, que deve perdurar pelo menos até o verão de 2027. A imagem que ilustra o fenômeno, divulgada pela Agência Espacial Europeia (ESA), mostra a área afetada no Pacífico.
De acordo com o boletim da Nooa, a probabilidade de ocorrência de um super El Niño subiu para 63%, contra 37% registrados no mês anterior. Os pesquisadores norte-americanos prevêem que o pico do fenômeno ocorrerá entre a primavera e o verão (de novembro a janeiro), o que, segundo eles, poderá colocar esse El Niño entre os mais fortes da série histórica, iniciada em 1950.
Uma imagem de satélite divulgada nos últimos dias pela ESA exemplifica essa questão que envolve o El Niño. A agência se referiu a ela, inclusive, como “o sinal precoce mais claro de que o El Niño está de volta”.
Em nota, a autoridade espacial europeia reforçou que “o poderoso padrão climático (o El Niño), e seu equivalente La Niña, podem intensificar o clima em todo o mundo, amplificando extremos como ondas de calor e secas, chuvas torrenciais, inundações e trajetórias de tempestades de inverno alteradas, tudo isso além dos efeitos do aquecimento climático já causado pela atividade humana”.
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— O El Niño geralmente começa como uma mudança sutil em relação ao que é considerado normal, e essas mudanças iniciais são mais fáceis de observar em comparação com um padrão de referência. Embora as diferenças de temperatura possam parecer pequenas, o oceano armazena e troca enormes quantidades de calor, portanto, mesmo um leve aquecimento pode indicar mudanças muito grandes no fluxo de energia entre o oceano e a atmosfera — destaca Craig Donlon, cientista da ESA.
A categoria “super”
Oficialmente não existe a classificação de “super El Niño”, mas o termo é usado popularmente quando o aumento da temperatura do oceano ultrapassa os 2°C acima da média, patamar considerado elevado e pouco comum, explica o meteorologista da Defesa Civil de Santa Catarina, Caio Guerra. Para se ter uma ideia, desde 1950, dos 25 episódios de El Niño, cinco tiveram registros acima dos 2ºC, mostram dados da Noaa.
O que o levantamento também indica é uma diminuição no intervalo entre El Niños de forte intensidade. Desde a metade do século passado e início do atual, foram mais de 10 anos entre um “super El Niño” e outro. Na história recente, esse tempo caiu para oito anos. E agora, se de fato o próximo aquecimento ficar acima dos 2ºC, a “pausa” será de menos de cinco anos.
Desde 1950, os cinco episódios de El Niños fortes ocorreram em 1972/1973, 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e em 2023/2024, conforme a Noaa. No último, ocorreram as chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul, com impactos também para os catarinenses, com enchentes especialmente no Vale do Itajaí. De acordo com o Atlas de Desastres do Brasil, do governo federal, 2023 foi o segundo ano com o maior número de eventos hidrológicos de Santa Catarina das últimas três décadas.
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Pela classificação, os eventos hidrológicos são enxurradas, alagamentos, enchentes, deslizamentos e chuvas intensas. Esses extremos já estão mais frequentes por conta do aquecimento global e, com a temperatura do Oceano Pacífico mais elevada, eles tendem a se intensificar, alertam meteorologistas de todo o mundo.
A preocupação resultou em um relatório publicado pela Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, no mês passado. O documento destacou que com o El Niño as temperaturas globais poderão atingir novos recordes em 2026, agravando ainda mais a emergência climática.
Entenda o El Niño
Combo destrutivo
A previsão da chegada de um novo El Niño exige monitoramento e medidas preventivas, mas de forma alguma pânico, tranquilizam os meteorologistas catarinenses. Até porque, como explica Guerra, não há uma relação direta entre El Niño intenso e impactos mais severos. O ano em que Santa Catarina teve o maior número de eventos hidrológicos das últimas três décadas, por exemplo, foi em 2022, um período marcado pela atuação da La Niña.
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Isso ocorre porque, no tempo e clima, um fato sozinho não dita as regras.
O El Niño não é o único responsável pelo registro de desastres em Santa Catarina. Alice Grimm, cientista reconhecida internacionalmente por pesquisas sobre o tema, destaca em um artigo que, apesar do El Niño deixar o Sul do país ainda mais vulnerável para chuvas extremas, oscilações oceânicas e atmosféricas que mudam semanalmente, anualmente e até em décadas precisam estar alinhadas para que o pior aconteça.
Foi o que ocorreu durante a catástrofe do Rio Grande do Sul em 2024, quando houve um combo de El Niño, oscilações favoráveis e impacto das mudanças climáticas.
Diferença para o La Niña
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O ar quente sobe para a atmosfera, levando umidade e formando uma grande quantidade de nuvens carregadas.
Com isso, no meio do Pacífico chove mais, afetando a região Sul do Brasil, pois a circulação dos ventos em grande escala, causada pelo El Niño, também interfere em outro padrão de circulação de ventos na direção norte-sul e essa interferência age como uma barreira, impedindo que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul.
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O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña. Os efeitos do La Niña para Santa Catarina são o oposto do outro fenômeno, já que as chuvas caem em menor volume no Estado.
O efeito do fenômeno em SC
Apesar de já estar em aquecimento, cientificamente são necessários cerca de seis meses consecutivos com as anomalias a partir de 0,5ºC acima da média para que haja oficialmente um El Niño. No entanto, não há mais dúvidas sobre a “chegada” dele.
Com isso, os impactos também são percebidos de forma gradual em Santa Catarina. O Fórum Climático Catarinense atualizou na última reunião que as temperaturas devem seguir o padrão típico do inverno, especialmente ao longo deste mês, com a atuação frequente de massas de ar frio e episódios de queda acentuada. Em julho e agosto, a previsão é de termômetros acima da média climatológica, com dias amenos na maior parte do período.
O El Niño deixa os episódios de frio intenso e duradouro mais escassos em relação ao inverno do ano passado. No entanto, algumas massas de ar frio vão chegar ao Sul do Brasil, provocando frio mais abrangente, com formação de geada e, se acompanhadas de umidade, pode nevar na Serra.
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Neste ano há chance de veranicos, com dias consecutivos acima de 30ºC. Outra caraterística da estação são os nevoeiros. Em julho e agosto, chuva próxima a acima da média, mais frequente e com totais mais elevados em curto intervalo de tempo, o que pode significar temporais com raios, granizo e ventania. Com isso, crescem os riscos de alagamentos, inundações e deslizamentos, alerta a Defesa Civil.
Categorias
Como o El Niño é classificado:
- Fraco: 0,5°C a 1,0°C acima da média
- Moderado: 1,0°C a 1,5°C acima da média
- Forte: 1,5°C a 2,0°C acima da média
- Muito forte: acima de 2,0°C acima da média











