A novela sobre as candidaturas ao Senado na chapa do governador Jorginho Mello (PL) nas eleições de outubro deste ano teve um episódio decisivo nesta quarta-feira (25), com o anúncio do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) de que os nomes indicados pelo partido serão os de Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni. Os dois formarão uma chapa “puro-sangue” do PL nas vagas para senador. A confirmação da dupla ocorreu pela manhã, em entrevista coletiva de Flávio, e à tarde, em reunião nacional do PL também com a presença do pré-candidato do partido a presidente. 

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A confirmação da chapa do PL com Carol e Carlos pôs um ponto final à disputa travada nos últimos meses entre três atores políticos: Carlos, Carol e o senador Esperidião Amin (PP), que competiam pelas duas vagas. Ainda que na gramática particular da política o ponto final possa não representar efetivamente um fim, o gesto escanteou de fato o senador Amin, que afirma se manter pré-candidato ao Senado, mas deverá ter que procurar outra coligação para pôr em prática a tentativa de reeleição. O prefeito de Chapecó e pré-candidato ao governo, João Rodrigues (PSD), já fez acenos a Amin e abriu os braços para recebê-lo na chapa ao Senado, com o intuito de atrair a federação União Progressista. 

O desfecho favorável a Carol de Toni encerra com reviravolta uma batalha que ela esteve perto de perder. Carol e Amin eram os nomes mais prováveis apontados pelo governador Jorginho quando projetava a possível chapa ao Senado nas eleições de 2026. O plano cumpriria um acordo em que Jorginho indicaria um nome — o de Carol de Toni — e o ex-presidente Jair Bolsonaro o outro, que tenderia a ser o de Esperidião Amin, pela relação de amizade histórica entre ambos, ex-colegas de PP. 

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A chegada de Carlos a SC

A situação mudou no início de 2025, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro tornou pública a intenção de indicar o filho Carlos Bolsonaro, então vereador do Rio de Janeiro, como candidato ao Senado por Santa Catarina, mudando o domicílio eleitoral dele para o Estado. Com a lealdade a Bolsonaro como um ativo imprescindível perante o eleitorado em SC, recusar o pedido do ex-presidente não entrou nos planos. Com isso, recaiu sobre Jorginho Mello o dilema de dedicar a segunda vaga ao Senado a Carol de Toni, atendendo ao desejo da base do PL, ou a Amin, atraindo para a coligação a federação dos partidos União Brasil e PP, e uma fatia importante de recursos e tempo de TV. O arranjo também seguiria um acordo nacional entre PL e PP, que estarão juntos em outros estados como Rio de Janeiro e São Paulo, e tinham Santa Catarina também prevista no mapa de alianças antes de precisar escolher entre Carol e Amin.

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Diante dessa escolha, Jorginho deu sinais até o fim do ano passado de que não haveria espaço para Carol ser candidata ao Senado, tentando convencê-la a concorrer a um terceiro mandato de deputada federal. A intenção era manter os partidos e garantir uma aliança ampla para buscar a reeleição. Alguns gestos como a oferta da liderança do partido na Câmara foram oferecidos a Carol, mas não seduziram a parlamentar, focada em concorrer ao Senado.  

Carol se ausentou em licença-maternidade no fim do ano passado com um cenário adverso e de provável saída do PL, com convites de partidos como o Novo lhe garantindo espaço para candidatura ao Senado. O PL chegou a cogitar uma solução salomônica, com Carlos e Amin na chapa principal, e Carol de Toni concorrendo ao Senado em uma “candidatura avulsa” pelo Novo. Desta vez, foi Amin quem teria rejeitado a ideia, uma vez que só existem duas vagas em disputa. 

A situação passou a mudar no início deste ano. Após anunciar o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), como candidato a vice-governador, Jorginho Mello acabou vendo o MDB se distanciar, por ter sido preterido e ficado sem o espaço de vice esperado pelos emedebistas. Nesse mesmo período, Jorginho pareceu ceder aos apelos do partido para manter Carol no PL, ainda que tivesse que abrir mão também de outro aliado, a federação União Progressista, ao não ter espaço a oferecer a Amin.

Os apoios decisivos de Carol de Toni

Para reverter a situação, Carol de Toni contou com apoios importantes. Um deles foi o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro que em mais de uma ocasião publicou mensagens nas redes sociais em apoio a Carol e defendendo a candidatura dela. A esposa de Bolsonaro, que comanda o projeto PL Mulher, teria pressionado até mesmo o ex-presidente, quando ainda estava em prisão domiciliar, defendendo que o espaço fosse oferecido a uma liderança feminina, para guardar coerência com as bandeiras do movimento interno do partido. 

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Outra aliada que tomou a dianteira na defesa da pré-candidatura de Carol foi a deputada estadual Ana Campagnolo (PL), a mais votada do Estado na eleição de 2022. Em entrevista a uma rádio, ela afirmou que a chegada de Carlos a SC poderia “rifar” Carol de Toni do PL, e defendeu a candidatura da deputada federal. Ela reafirmou a defesa da candidatura de Carol em uma polêmica live com a deputada federal Júlia Zanatta. Prefeitos do PL no interior também teriam saído em defesa da candidatura de Carol. 

Segundo fontes próximas ao governador, essa força demonstrada por Carol de Toni em várias frentes influenciaram a decisão de optar pela chapa com Carlos e Carol. O trabalho de Carol como deputada e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) também a credenciaram à escolha. Além disso, uma hesitação de Esperidião Amin de selar um acordo previamente também teria pesado na escolha de Jorginho. Em 2022, o atual governador já havia negociado por meses com Amin em busca de uma chapa conjunta, mas não obteve o apoio esperado para formar uma dobradinha, e ambos acabaram saindo candidatos ao governo em projetos distintos. 

Entre pessoas próximas a Carol de Toni, a leitura é de que a resistência da deputada em não ceder aos pedidos para desistir da disputa e concorrer novamente à Câmara foi o principal fator que contribuiu para mantê-la na disputa. O apoio interno das lideranças e de figuras expressivas, como Michelle Bolsonaro e o próprio Carlos Bolsonaro, que se tornou defensor da “chapa pura”, também é citado. A avaliação é de que, em um cenário em que parte dos apoiadores questionava Carlos Bolsonaro por não ser um candidato de SC e hesitava no apoio a Amin por já ser uma figura há muito tempo na política, Carol seria o voto “unânime” entre os filiados. A postura de Carol durante todo o impasse, sem atacar os adversários e nem se envolver em polêmicas públicas, mesmo no período mais tenso do racha provocado no bolsonarismo, também é citada por apoiadores da deputada — um indicativo do chavão de que “o calado vence”.

O ato em Brasília serviu como uma “garantia” para Carol de Toni de que a escolha do PL não será desfeita após o fim do prazo para troca de partidos, em 4 de abril, já que a partir daí a deputada não poderia mais buscar outra legenda para concorrer caso o partido mudasse de ideia. Em razão disso, o anúncio teve entrevista do presidenciável Flávio Bolsonaro, encontro nacional com as lideranças do PL e até foto extraoficial da chapa para garantir que a escolha não sofra uma nova reviravolta. A decisão do PL por disputar com Carlos e Carol ocorreu mesmo com pressão para que os partidos estivessem juntos no Estado por força de acordo nacional, costurado pelos presidentes Valdemar Costa Neto e Ciro Nogueira.

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O duelo de gerações entre Carol e Amin

A escolha por Carol em detrimento de Esperidião Amin marcou também um duelo de gerações na busca pela vaga do PL. Ex-governador por dois mandatos, senador e candidato à Presidência em 1994, Amin é figura conhecida da política catarinense. Após a onda Bolsonaro, conseguiu renovar o discurso e se alinhou ao bolsonarismo. No fim do ano passado, foi relator do PL da Dosimetria no Senado, que resultou em redução de penas para Jair Bolsonaro e condenados do 8 de janeiro, e no início deste ano apresentou um projeto de anistia, buscando a extinção das punições.

Ainda assim, após concorrer sem o apoio público de Bolsonaro ao governo em 2022, por ter enfrentado Jorginho Mello, do PL, deve ficar novamente de fora do projeto bolsonarista. Fontes próximas ao governador citam que o momento atual da política exige definições com maior antecedência, para um trabalho de campanha quase permanente, o que pode ter prejudicado o senador na disputa pela vaga. Agora, Amin deve abrir frentes de negociação com outros projetos, como o do pré-candidato João Rodrigues.

O perfil jovem e ideológico de Carol de Toni é citado por analistas como trunfo da deputada na vitória na queda de braço sobre Amin. Desconhecida da política catarinense até 2018, ela foi eleita deputada federal na onda Bolsonaro daquele ano e se tornou uma das principais lideranças bolsonaristas no Congresso nas duas últimas legislaturas, o que a credenciou a buscar uma vaga no Senado. Por ser a casa responsável por medidas como impeachment de ministros do STF, a característica combativa da deputada é mencionada como uma vantagem da parlamentar para atrair o apoio dos eleitores identificados com essas bandeiras. 

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Tradição versus longo prazo

O professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e pesquisador em Cultura Política, Daniel Pinheiro, avalia que o impasse sobre a definição da chapa ao Senado provocou uma série de desconfortos no projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, em um cenário que até então era aparentemente confortável, o que exigiu a solução da questão. 

— A direita está pedindo os nomes [dos candidatos], isso no Brasil inteiro. Quer antecipar os nomes, não só do candidato a presidente, que deve ser o Flávio, mas também dos outros cargos. Porque desde o surgimento da onda Bolsonaro, esse movimento levou vários nomes que se aproveitaram desse apoio e não satisfizeram esses eleitores — avalia. 

Segundo ele, a escolha por Carol de Toni em vez de Amin sinaliza a opção por um nome com possibilidade de planos a longo prazo. 

— A Carol representa mais essa nova direita que surgiu em Santa Catarina pós-2018 do que o nome do Amin, mesmo que ele sempre tenha se colocado ao lado das pautas bolsonaristas desde que esse movimento surgiu. Nessa luta entre a tradição e um projeto de mais longo prazo, essa corrente nomeada pelo Bolsonaro optou pelo projeto de longo prazo — aponta. 

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