O ex-deputado estadual Gelson Merisio (Solidariedade) está afastado da política desde a derrota nas urnas na eleição para governador em 2018. Nesse período, no entanto, o político que chegou a anunciar voto a Bolsonaro para tentar evitar um tombo na onda que levou o ex-presidente à vitória atuou nos bastidores e fez novos aliados que surpreenderam a política de SC. Em 2026, o nome de Merisio ganha força como possível candidato ao governo por uma frente de esquerda, sob a bênção do presidente Lula (PT).
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Após três mandatos consecutivos de deputado estadual e de presidir por duas vezes a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), Gelson Merisio chegou à eleição para o governo de Santa Catarina de 2018 como figura influente e candidato da sucessão apoiado pelo ex-governador Raimundo Colombo (PSD). No entanto, em uma eleição que assistiu à primeira “onda Bolsonaro”, o favoritismo de Merisio perdeu fôlego no decorrer da campanha. Na tentativa de conter o fenômeno, chegou a anunciar voto em Jair Bolsonaro para presidente na reta final do primeiro turno, mesmo sem ligação partidária com o então candidato. Merisio foi ao segundo turno, mas perdeu para o então desconhecido Comandante Moisés (à época, PSL), impulsionado por ostentar o número 17, o mesmo do partido da época de Bolsonaro, ainda que o então candidato tenha ficado neutro no segundo turno em SC.
Depois da derrota inesperada, Merisio se afastou das urnas. Deixou o PSD, avaliou mudar o domicílio eleitoral para Joinville. Chegou a se filiar ao PSDB e ajudar Eduardo Leite em prévias nacionais do partido em 2021, mas nunca anunciou planos eleitorais claros no ninho tucano. Aliados contam que, neste período longe dos cargos públicos, passou a se dedicar a suas empresas e a um convite recebido para ser conselheiro da empresa multinacional JBS.
Veja os pré-candidatos ao governo de SC em 2026
Em 2022, surpreendeu a política de Santa Catarina ao aparecer ao lado de Décio Lima no grupo do PT e de partidos de esquerda. Merisio reuniu-se com Décio e Lula em São Paulo e coordenou a campanha que levou os petistas pela primeira vez ao segundo turno na corrida pelo governo de SC.
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Os planos de Décio e Merisio para 2026
Quatro anos depois, a dobradinha Décio e Merisio volta a aparecer no projeto de candidatura dos partidos progressistas em SC. Décio Lima era o nome do partido mais cotado para concorrer novamente ao governo, pela herança da ida inédita ao segundo turno do PT em 2022. Nas últimas semanas, no entanto, o grupo tem falado abertamente que o nome da candidatura de esquerda pode ser o de Gelson Merisio. A intenção seria abrir espaço para que Décio concorresse ao Senado, aproveitando o racha na direita com as possíveis candidaturas de Carlos Bolsonaro, Carol de Toni e Amin para tentar assegurar uma vaga de senador para a esquerda.
Em entrevista ao podcast Café nas Eleições, do NSC Total, Décio Lima respondeu que o eleitorado de esquerda vai aderir a uma eventual candidatura do ex-deputado ao governo porque Merisio será “o candidato do Lula” em SC. Merisio tem evitado entrevistas e não tem feito publicações nas redes sociais, mas a reportagem do NSC Total conversou com aliados e ex-aliados para refazer a trajetória do ex-deputado que o levou de nome mais identificado à centro-direita a possível líder do projeto de esquerda no Estado.
Merisio atualmente está filiado ao partido Solidariedade, presidido nacionalmente pelo deputado federal Paulinho da Força, relator na Câmara do PL da Dosimetria, projeto que favoreceu Bolsonaro e condenados do 8 de janeiro com redução de penas. Como a legenda não deve estar alinhada nacionalmente com Lula em outubro, as lideranças admitem que Merisio pode trocar de partido até o fim da janela, em 4 de abril, para concorrer ao governo por outro partido, como o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin.
A intenção é repetir uma estratégia de atrair um nome menos identificado com a esquerda às lideranças tradicionais do PT para tentar aumentar o potencial eleitoral, além de garantir espaço para Décio concorrer ao Senado. A definição final sobre o destino partidário de Merisio deve ocorrer até 20 de março.
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Presidente do Solidariedade em SC, o ex-deputado federal Osvaldo Mafra conta que fez o convite de filiação a Merisio pouco antes da eleição de 2022, e que sentiu interesse e entusiasmo dele.
— Ele ficou meio sem espaço, após 2018, e procurou uma nova oportunidade sem estar naquele time da “onda Bolsonaro”. Escolheu discutir política como ele achou que deveria — conta Mafra.
O dirigente afirma que os resultados e reviravoltas na trajetória de Merisio deram mais clareza nas leituras do ex-deputado e o deixaram mais “casca grossa”.
— Ele foi fundamental na campanha do Décio [de 2022, que foi ao segundo turno]. Não aparecia, mas articulava o comitê, a campanha de TV, teve um papel importante — conta.
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Aproximação com Décio após 2018
Fiador da chegada de Merisio ao grupo dos partidos de esquerda (ou do “campo democrático popular”, como prefere chamar), Décio Lima conta que a relação com Merisio nasceu da aproximação da esposa dele, a atual deputada federal Ana Paula Lima, com a esposa de Merisio, Márcia, nos tempos em que Ana e Merisio ainda eram colegas de Alesc. Em 2018, após ficar em quarto lugar na eleição para governador, Décio apoiou Merisio no segundo turno contra o bolsonarista Carlos Moisés.
A partir daí, segundo Décio, houve visivelmente uma aproximação. Encontros no Mercado Público de Florianópolis e em shoppings marcaram conversas de alinhamento. Em 2022, Décio e Merisio estiveram reunidos com o então pré-candidato Lula, que teria se entusiasmado com a chegada de Merisio ao grupo dizendo que o lugar do ex-deputado não seria “onde ele estava”.
— Merisio não é um cara de direita, um extremista. Ele defende a democracia, tem compromisso com os valores democráticos, um olhar humanista — defende o agora aliado Décio.
Nos últimos quatro anos, após a eleição de 2022, Merisio voltou a se dedicar às suas empresas e ao papel de conselheiro na JBS, enquanto Décio Lima assumiu a presidência nacional do Sebrae. No entanto, Merisio deu dicas e participou de reuniões com Décio sobre o Sebrae em Brasília. Num desses encontros, em meados de 2025, esteve novamente com Lula, que voltou a cortejar o ex-deputado.
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— Tu sumiu, tens que ajudar… A democracia precisa de ti, tens que ser candidato — teria sugerido o atual presidente, em tom informal.
Merisio respondeu que estava se preparando para voltar às urnas e ser candidato a governador em 2030.
“Ótimo. Então, vamos começar a tua campanha agora, em 2026. E vais antecipar em quatro anos a eleição”, teria dito Lula.
Papel da JBS na pré-candidatura
Ex-colegas de Merisio em outras legendas alegam, em reservado, que a aproximação de Merisio com a esquerda e o PT teria ocorrido por influência da JBS, empresa liderada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista e que tem boa relação com o governo federal e o presidente Lula. O pedido ao ex-deputado estadual e conselheiro da gigante do agro teria ocorrido justamente para melhorar as chances dos petistas de SC e permitir que Décio tente uma vaga ao Senado, considerada mais viável com o racha na direita de SC causado pela mudança de Carlos Bolsonaro ao Estado. O partido teria identificado um cenário desafiador no Estado em razão do perfil do eleitorado.
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Antes de ir para a linha de frente, Merisio e os partidos aliados teriam sondado outros nomes para pôr em prática essa chapa, como o ex-senador Paulo Bauer, que poderia migrar para o PSB, e o ex-governador Raimundo Colombo. A função, entretanto, deverá caber mesmo a Merisio.
Os atuais aliados de Merisio negam que a aproximação tenha ocorrido em razão disso ou que o ex-deputado seria candidato por influência da empresa.
— A ligação de ele ser conselheiro é que faz as pessoas fazerem isso [relacionar candidatura à empresa], mas de forma alguma. O Lula também era do sindicato dos metalúrgicos, mas nem por isso foi o candidato da Volkswagen — compara Décio, que credita a aproximação de Merisio a seu campo político pelos valores pessoais do ex-deputado.
Definições ainda em andamento
O projeto da esquerda para o governo de SC ainda não está sacramentado. Décio Lima e Gelson Merisio são os nomes mais cotados, mas ainda não tiveram as funções definidas, podendo concorrer tanto ao governo quanto ao Senado — embora o entusiasmo maior de Merisio se dê com a corrida pela Casa d’Agronômica, segundo aliados.
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Para essa construção, no entanto, ainda há conversas internas e com outros partidos deste campo, como PDT, PCdoB e PSB, que pode inclusive ser o destino de Merisio. Em meio a tudo isso, o PSOL ainda votou neste fim de semana uma possível entrada na federação do PT, que já tem os partidos PCdoB e PV, o que também exigiria que o partido estivesse junto no projeto — os psolistas, no entanto, rejeitaram a federação e poderão ter projeto paralelo em SC, embora não pretenda lançar candidato a presidente.
Os papéis da provável chapa ainda não estão fechados no xadrez eleitoral de SC em 2026. Décio, no entanto, admite otimismo com a construção com Merisio, que poderia ter mais facilidade em atrair o eleitor tradicional de centro ou centro-direita em uma eventual disputa de segundo turno contra um nome bolsonarista, como Jorginho Mello (PL) ou João Rodrigues (PSD). De quebra, ainda poderia deixá-lo livre para entrar na disputa do Senado, em vez de concorrer pela terceira vez seguida a governador.
— O Merisio fura melhor a bolha, não leva o estigma que a polarização nos trouxe perante parte do eleitorado. Mas vamos apresentar uma frente democrática, onde a esquerda vai caminhar junto — antecipa o presidente do Sebrae.








