Com a previsão de um El Niño se formar no próximo semestre e interferir nos padrões de chuva de Santa Catarina, o governo do Estado diz estar atento aos possíveis impactos. Na lista de ações preventivas estão limpezas de rios já feitas e futuras, capacitação de profissionais da Defesa Civil e retirada de árvores de áreas de risco. As barragens no Alto Vale do Itajaí, importante ferramenta em caso de enchentes na região, estão funcionando, apesar de alguns consertos pendentes.

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El Niño é o nome dado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico em um trecho perto do Peru. Com a temperatura a partir de 0,5ºC acima da média, a evaporação ocorre mais rápido. Esse ar quente leva umidade para a atmosfera e forma uma grande quantidade de nuvens carregadas. Com isso, no meio do Pacífico chove mais, dando início a um efeito dominó que alcança o Sul do Brasil.

Com o El Niño há também uma interferência no padrão da circulação de ventos em grande escala, que age como uma barreira ao impedir que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul. Ou seja, todos os fatores contribuem não só para a formação mais frequente de chuvas como para que elas caiam por tempo prolongado.

Não à toa, o fenômeno, junto com a “irmã” La Niña, que é o resfriamento das águas, é um dos mais estudados pela ciência. A agência norte-americana Noaa é o principal órgão internacional que monitora o comportamento do Pacífico. Essas observações resultam, mensalmente, em relatórios que indicam a probabilidade do fenômeno se formar a médio prazo.

No mais recente deles, a Noaa afirmou que as chances do El Niño começar a se estabelecer durante o inverno é de 61%, persistindo pelo menos até o verão. As condições neutras, que é quando não há nem La Niña nem El Niño em atuação, já estão saindo de cena. Na última segunda-feira (20), a temperatura na região central do Pacífico Equatorial atingiu pela primeira vez neste ano 0,5ºC acima da média.

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Isso não significa que o El Niño esteja configurado neste momento, pois cientificamente são necessários cerca de seis meses consecutivos com as anomalias a partir de 0,5ºC para que haja oficialmente o fenômeno. Porém, com o passar das semanas, o aquecimento já é capaz de interferir na circulação atmosférica global.

O El Niño em 10 passos

Os modelos usados para fazer essas projeções ainda não são capazes de dar certeza sobre a força do El Niño. O que se sabe é que os ventos no Pacífico estão fracos e persistentes. Se essa característica continuar, o próximo El Niño será de intensidade muito forte — a possibilidade para isso atualmente é de 25%, descreve a agência.

O que impressiona muitos cientistas é que o aquecimento tem sido mais rápido do que o previsto. No começo do ano, a condição era de La Niña, com temperaturas abaixo do normal, mas o cenário já é outro, com a elevação bem estabelecida, analisa o meteorologista da Defesa Civil do Estado, Caio Guerra:

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— Hoje há uma confiança relativamente alta na formação do El Niño. No entanto, a intensidade do fenômeno é incerta porque ainda estamos a alguns meses do seu pleno desenvolvimento. Esse tempo de antecipação aumenta a incerteza — detalha.

Sinal amarelo

Independentemente da intensidade, o El Niño tende a provocar uma elevação significativa na precipitação no Sul do Brasil, o que por si só exige atenção das cidades, já que a primavera e o verão são estações normalmente chuvosas em Santa Catarina. É por isso que o “sinal amarelo” já acendeu para diversas instituições.

“Esse cenário demanda acompanhamento contínuo e preparação por parte dos órgãos públicos e da população, visto que aumenta o potencial de impactos relacionados a enxurradas, inundações e deslizamentos, e a probabilidade de tempestades severas, que são acompanhadas de vendaval e granizo”, escreveram os meteorologistas da Defesa Civil estadual e Epagri/Ciram em uma nota conjunta.

O governo do Estado acredita que ações já adotadas devem contribuir para minimizar as consequências das chuvas acima da média no Estado. Como exemplo, a Defesa Civil citou o desassoreamento feito em Rio do Sul e Taió e afirmou que rios de outros municípios de diferentes regiões serão atendidos conforme a demanda.

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As cidades também precisam sinalizar à Defesa Civil e executar por conta própria a remoção de árvores em locais com risco de deslizamento. Todas as ações devem ser feitas durante a Operação Primavera 2026, planejada de 1º de junho a 21 de setembro, com foco nas áreas conhecidas por serem suscetíveis a alagamentos, inundações e desmoronamentos.

A partir de 22 de setembro, quando começa oficialmente a primavera, profissionais de Defesa Civil estaduais e municipais entrarão em uma espécie de regime de plantão para ações coordenadas. Até lá — e durante todo o ano —, é missão da meteorologia ir atualizando sobre o cenário esperado, comenta a meteorologista do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Ciram), Maria Laura Rodrigues:

— É momento de acompanhar, monitorar e tomar ações de prevenção — defende.

A chuva extrema deve afetar também as safras deste ano e de 2027, trazendo impacto direto ao setor agropecuário. Por isso, os agricultores contam com serviços específicos de acompanhamento da Epagri/Ciram.

Combo destrutivo

A previsão da chegada de um novo El Niño exige monitoramento e medidas preventivas, mas de forma alguma pânico, tranquilizam os meteorologistas catarinenses. Até porque, como explica Guerra, não há uma relação direta entre El Niño intenso e impactos mais severos. O ano em que Santa Catarina teve o maior número de eventos hidrológicos das últimas três décadas, por exemplo, foi em 2022, um período marcado pela atuação da La Niña.

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Isso ocorre porque no tempo e clima um fato sozinho não dita as regras. O El Niño não é o único responsável pelo registro de desastres em Santa Catarina. Alice Grimm, cientista reconhecida internacionalmente por pesquisas sobre o tema, destaca em um artigo que, apesar do El Niño deixar o Sul do país ainda mais vulnerável para chuvas extremas, oscilações oceânicas e atmosféricas que mudam semanalmente, anualmente e até em décadas precisam estar alinhadas para que o pior aconteça.

Foi o que ocorreu durante a catástrofe do Rio Grande do Sul em 2024, quando houve um combo de El Niño, oscilações favoráveis e impacto das mudanças climáticas.

O efeito do El Niño em SC

No caso de Santa Catarina e da região Sul como um todo, Caio Guerra destaca que quando há a formação de um El Niño, a primeira consequência observada é na temperatura, que costuma ficar acima da média. No inverno, isso não significa ausência de dias gelados, mas episódios mais curtos, com frentes que não mantêm as massas de ar frio por muito tempo.

— A partir de agosto aumenta o potencial para tempestades severas, com ocorrência de ventos fortes, granizo e outros eventos extremos. Na primavera, especialmente entre setembro e novembro, são comuns chuvas mais frequentes e volumosas. Esse cenário eleva o risco de alagamentos, enchentes e inundações — detalha o profissional.

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Quanto maior o aquecimento das águas, maior a probabilidade desses episódios ocorrerem. Além disso, com o solo encharcado, também há o aumento no risco de deslizamentos. Em outras regiões do país, o comportamento é o oposto. O Norte e Nordeste, por exemplo, podem enfrentar estiagens mais severas.

Diferença entre El Niño e La Niña

O El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico Equatorial, perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña.

Os efeitos também são opostos. Enquanto no La Niña as chuvas caem em menor volume em Santa Catarina, o El Niño é conhecido por favorecer as instabilidades no Sul, onde as frentes frias e ciclones encontram ambiente mais favorável. O resultado: episódios prolongados de chuva e mais chance de temporais.