A possibilidade de formação do El Ninõ no segundo semestre deste ano traz preocupação ao Vale do Itajaí. A última vez que o fenômeno ocorreu no Estado, em 2023, provocou uma série de enchentes na região, deixou dezenas de famílias fora de casa e chamou a atenção para a situação das barragens. Passados dois anos e meio, os moradores se fazem uma pergunta: se as chuvas voltarem a ocorrer em volumes tão elevados, as estruturas de contenção de cheias estarão preparadas? A resposta é depende.

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Após as enchentes de 2023, a barragem de Taió passou por melhorias no sistema elétrico, teve tubulações renovadas e bombas de drenagem foram trocadas, segundo a Defesa Civil de Santa Catarina. O trabalho foi finalizado no fim de 2025. Dados da Epagri mostram que a cidade teve um dos maiores registros de chuva naquele mês de outubro no Estado, chegando a 646,8 milímetros. Em março último, o governo de SC citou uma reforma geral da estrutura, mas ainda não foi lançada licitação.

Ficha técnica das barragens do Alto Vale do Itajaí

  • Barragem Norte – José Boiteux, colocada em operação em 1992, é a maior barragem de contenção de cheias do Brasil, com o volume de 357 milhões de metros cúbicos.
  • Barragem Oeste – Taió, colocada em operação em1973, volume de 83 milhões de metros cúbicos.
  • Barragem Sul – Ituporanga, colocada em operação em1979, volume de 93,5 milhões de metros cúbicos.

E Ituporanga e José Boiteux?

A barragem de Ituporanga também passou por obras. A estrutura tinha problemas em duas das cinco comportas desde 2021 e, em 2023, a sequência de enchentes no Alto Vale do Itajaí comprometeu ainda mais a situação. No ano passado, todas as comportas foram trocadas, inclusive as que não tinha defeitos, por medida de segurança. A Defesa Civil do Estado aproveitou e automatizou a barragem, para que possa ser ativada e desativada remotamente, sem necessidade de alguém pessoalmente na barragem.

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A situação mais delicada está na barragem de José Boiteux. A estrutura é a maior para contenção de enchente no Vale do Itajaí e tem mais do que o triplo da capacidade de reservação de água que as de Taió e Ituporanga. Com o excesso de chuvas provocado pelo El Ninõ em 2023, pela primeira vez desde quando foi inaugurada, em 1992, a barragem atingiu o limite e chegou a verter alguns centímetros de água. Em Taió e Ituporanga, a título de comparação, é comum transbordar, pois são menores.

A barragem de José Boiteux já não funcionava como deveria e tinha que ser ativada com o uso de um caminhão hidráulico após depredações provocadas durante impasses com a comunidade indígena local. Para piorar, uma das duas comportas emperrou fechada e não abre desde então. Isso é importante porque quando chove, a Defesa Civil de SC precisa ter condições de abrir e fechar essas comportas, seja para represar a água na barragem e evitar que desça o rio, seja para abrir e liberar espaço no reservatório.

A empresa responsável pela reforma já foi definida, é a Construtora e Incorporadora Saks LTDA, de Videira. A obra foi licitada por R$ 9,9 milhões. São R$ 5,3 milhões vindos do governo federal e R$ 4,6 mil do governo estadual. No começo deste mês, a Defesa Civil de SC terminou de enviar os documentos para o governo federal analisar e, caso estejam dentro das exigências, liberar o dinheiro. Até o momento não há previsão para início da reform. Se precisar ativar a estrutura, será de forma manual e só uma comporta.

Vídeo mostra funcionamento da barragem de Ituporanga

Cadê as novas barragens prometidas para o Vale do Itajaí?

Em novembro de 2023, pressionado por obras contra as enchentes, o governo de Santa Catarina se comprometeu a tirar do papel as minibarragens previstas há mais de uma década pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica). A prioridade, conforme elencado a época, seriam Mirim Doce, Petrolândia e Trombudo Central, todas no Alto Vale do Itajaí.

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De lá para cá, porém, nenhuma delas começou efetivamente a sair do papel. A minibarragem em situação mais adiantada é a de Mirim Doce, que chegou a ter licitação lançada, mas foi suspensa pelo Tribunal de Contas (TCE). O motivo seria um possível sobrepreço na casa dos R$ 23,9 milhões. O processo aguarda alterações por parte do governo de SC para ser reaberto.

Para as demais minibarragens, ainda não edital lançado.

Já as empresas interessadas em construir a barragem de Botuverá, no Médio Vale do Itajaí, devem ser conhecidas em 29 de maio. A licitação chegou a ser suspensa recentemente, também pelo TCE e com o argumento de possível sobrepreço. O órgão apontou a necessidade de mudanças no edital e que, após acatadas pelo governo de SC, resultou em uma economia de R$ 6,6 milhões aos cofres públicos.

O contrato será de 30 meses, dos quais seis dedicados aos projetos e 24 à construção da barragem propriamente dita, segundo expectativa da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil. Ainda não há previsão de quando começam os trabalhos, mas ao menos dois terrenos já foram desapropriados para receber o canteiro de obras e para a estrutura física.

A prefeitura de Botuverá também já colocou na mesa os pedidos como compensação pela obra.