Quando o assunto é Antártica, uma das maiores preocupações dos pesquisadores é o impacto do aquecimento global. O derretimento das camadas de gelo e o consequente aumento do nível dos oceanos é um dos temores. Se esse gelo marinho que cobre o mar derreter, regiões costeiras, como é o caso do Brasil e de Santa Catarina, poderão ficar submersas. O que poderia ser uma previsão pessimista já é uma realidade na parte ocidental do continente atlântico. Foi o que presenciou a oceanógrafa Gabriela Decker Sardinha, 29 anos, recém desembarcada de uma expedição ao mais inóspito dos continentes.

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Formada em Oceanografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Gabriela foi uma das três brasileiras a bordo do navio Island Sky, da companhia Noble Caledônia, e que reuniu 100 mulheres e pessoas não binárias de diferentes países. A iniciativa da organização Homeward Bound tem como pano de fundo a Antártida e visa aumentar a influência e o impacto das cientistas na tomada de decisões que moldam o planeta.

Gabriela soube sobre o programa para a Antártica ainda antes da pandemia. Achou interessante, inscreveu-se, foi selecionada e ainda teve a sorte de ganhar uma bolsa para os 12 meses de treinamento on-line. As aulas tinham a participação de mulheres de diversos países e conteúdos diferenciados: cultura do trabalho, desenvolvimento de liderança, impacto do trabalho científico na comunidade e novas ferramentas em tecnologias.

A viagem se iniciou novembro e durou três semanas. Para Gabriela, a expedição foi uma oportunidade ímpar enquanto oceanógrafa e pela primeira vez num navio de grande porte. Desde o começo teve que enfrentar os efeitos das mudanças climáticas:

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– Sabíamos que o Estreito de Drake (separa a América do Sul da Antártica) é sempre uma travessia difícil. Porém, não no verão, como agora, o que demonstra o aquecimento e seus impactos no planeta. As ondas chegaram a oito metros e ventos de até 110 km/h. Enjoar foi normal – brinca a mestre em Gerenciamento Costeiro pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e atualmente doutoranda em Geografia pela UFSC.

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A pesquisa atual, explica, faz parte do projeto Mission Atlantic, e tem como objetivo mapear e avaliar o estado (presente e futuro) dos ecossistemas marinhos sob a influência de atividades antrópicas – aquelas realizadas pelos humanos – e mudanças climáticas em Santa Catarina.

– Tivemos a oportunidade de conhecer uma colônia de pinguins-de-Adélia, impactados pelas alterações climáticas. Os números perto da Estação Palmer, na Península Antártica Ocidental, diminuíram 80% desde a década de 1970. Os fatores incluem a redução do gelo marinho e a substituição da neve pela chuva em algumas áreas. Também reduziu o krill, espécie de crustáceos que serve de alimento para baleias, focas e aves – explica.

Gabriela é a mestre em Gerenciamento Costeiro pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e atualmente doutoranda em Geografia pela UFSC (Foto: Arquivo Pessoal)

O grupo passou uns dias em Porto Madre estabelecendo a cultura de convivência dentro do navio, visitou as Ilhas Malvinas e não foi a Geórgia do Sul, onde fica a Estação Comandante Ferraz, devido à gripe aviária. Na sequência, esteve na Península Antártica, onde passou o restante dos dias. Foi um período intenso de trabalhos e no final elaborado um documento apresentado na COP, a Conferência do Clima organizada pelas Nações Unidas, em Dubai.

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Gabriela conta que, ao voltar para Florianópolis, se deu conta do quanto é importante compartilhar a experiência vivida na Antártica. Além de se dispor a dar palestras para estudantes e grupos interessados, lembra que na expedição foi formada uma comunidade com especialistas em muitos temas e que está comprometida em fazer com que as pessoas acordem sobre os riscos da degradação do ambiente. Para ela, “a Antártica é o espelho da ação”. E se tem ação, logo, haverá reação:

– Essa representação geográfica que temos nos mapas não dá a dimensão do que isso significa no continente antártico, maior do que o Brasil, e ainda que tão distante já sofrendo os reflexos. Ainda que sob o efeito do El Niño, o que ocorre em Santa Catarina com as enchentes está conectado com essa realidade desafiadora – pontua.

“As pessoas só se importam com aquilo que têm conhecimento”

Gabriela conta que está sistematizando todos os conteúdos e aprendizados da expedição. Para ela, a ficha da urgência da questão das mudanças climáticas ainda não caiu para a maioria das pessoas:

– A ciência vem batendo nessa tecla há muito tempo, mas as pessoas não conseguem ver o que está acontecendo. Se fizessem a reflexão, acho que haveria uma movimentação maior para impedir a destruição do planeta.

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A pesquisadora Gabriela Sardinha é integrante do Laboratório de Gestão Costeira Integrada (LAGECI) da UFSC, do Grupo de Ações Integradas em Gerenciamento Costeiro (GAIGERCO) e do Grupo de Gestão Costeira Ecossistêmica (GCE), ambos da FURG. Para ela, que foi voluntária na R3 Animal no ano de 2013 e monitora da Ilha do Campeche nas temporadas 2018, 2019 e 2020, a profissão está ligada a um hábito da infância, o de ver documentários sobre a natureza:

– Acredito que as pessoas só se importam com aquilo que têm conhecimento. Por isso, quero usar o meu tempo para levar o que vi e vivi para ajudar a mudar essa realidade ameaçadora para o nosso planeta.

Veja imagens da expedição à Antártica

Aposta em mulheres para melhorar o planeta

Quem quiser conhecer a Homeward Bound deve acessar o site da instituição. A iniciativa, de liderança global inovadora que tem como pano de fundo a Antártica, visa aumentar a influência e o impacto das mulheres na tomada de decisões que moldam o planeta.

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Lançado em 2016, o programa inaugural culminou na maior expedição feminina à Antártida. Na última, neste 2023, eram 100 mulheres e pessoas não binárias. A escolha por mulheres, define a organização, considera que elas se encontram em sub-representação nas posições de liderança.

Dados apontam que embora as mulheres representem 60% dos diplomados universitários, apenas de 10% a 20% delas conseguem ocupar cargos de tomada de decisão ou acadêmicos de nível profissional. Ao proporcionar a mulheres participantes do programa liderança, visibilidade e competências estratégicas, através da sólida compreensão da ciência, e uma rede forte desenvolvida propositadamente, aumenta-se a sua capacidade de liderar para um bem maior, de impactar a tomada de decisões para um futuro sustentável.

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Como resolver a desigualdade de gênero na ciência? Acerca do foco em STEM (movimento que propõe um ensino baseado em ciências, tecnologia, engenharia e matemática), a organização defende que o esforço científico desempenha um papel crítico na resolução dos problemas mais “perversos” no futuro. O objetivo é capacitar as mulheres a enfrentar o desafio da comunicação científica e da visibilidade delas nas STEM.

A desigualdade de gênero na ciência, na tecnologia, na engenharia e na matemática é um dos desafios: estima-se que apenas uma mulher para cada quatro homens consiga um emprego na área STEM. Além do desequilíbrio geral de gênero na liderança, as mulheres em STEM enfrentam desafios adicionais específicos destas áreas, como a disparidade econômica.

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As regiões da Antártida apresentam as respostas mais rápidas a alguns dos problemas de sustentabilidade global que enfrentamos atualmente. Ao mesmo tempo, a Antártica oferece uma oportunidade sem paralelo para observar em primeira mão a influência das atividades humanas no ambiente e fornecer informações críticas sobre as mudanças necessárias à escala global.

Algumas curiosidades:

  • É Antártica ou Antártida? Ambos os nomes estão corretos.
  • De origem grega, a palavra Antártica é usada como oposto a Anti-Ártico. Já a versão latina Antártida seria uma referência à Atlântida, a lendária ilha dos tempos de Platão.
  • A área total do continente é de 13.660.000 km² e equivale aos territórios do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia.
  • A Antártica é o continente mais frio do mundo e com os ventos mais fortes do planeta. No inverno, a temperatura pode chegar a -89°C. Durante o verão, a média fica na casa dos -12°C.
  • Desde 1959, quando foi assinado o Tratado da Antártica, o 1º de dezembro marca o Dia da Antártica. Formalizado em Washington e em vigor desde 23 de junho de 1961, o documento é um compromisso entre os países que lá desenvolvem atividades garantindo o diálogo sobre seu uso, preservação e o não uso como objeto de discórdia internacional.
  • O coração da Antártica é composto por um grande planalto de gelo: as altitudes variam entre 1,5 mil e 4 mil metros acima do nível do mar.
  • A região tem a maior camada de gelo do mundo, que cobre cerca de 95% do continente. Esse gelo, cerca de 35 milhões de km 3, representa cerca de 70% da água doce do planeta.
  • Ao penetrar no mar, as geleiras flutuam e se desprendem, formando icebergs, que são levados pelas correntes marinhas até se desintegrarem, devido à ação do mar e elevação da temperatura.

    Fonte: Programa Antártico Brasileiro

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