O senador e pré-candidato à República, Flávio Bolsonaro, já havia sido questionado presencialmente pelo próprio Intercept Brasil, na manhã desta quarta-feira (13), sobre o suposto pedido feito a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiamento ao filme “Dark Horse”, filme que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar humanitária desde março deste ano por tentativa de golpe de estado. Na ocasião, ele disse que a informação era falsa. No entanto, quando a reportagem foi divulgada, ele admitiu o pedido.
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Os registros que mostram mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, com uma negociação para que o banqueiro assumisse o compromisso de repassar 24 milhões de dólares — valor que equivalia, na época, a aproximadamente R$ 134 milhões — ao filme, foram revelados pelo Intercept Brasil.
— De onde você tirou essa informação? É mentira — respondeu Flávio, antes do site revelar a troca de mensagens entre o senador e o banqueiro, e chamou o jornalista de “militante”.
No momento, Flávio respondia à jornalistas após ter se reunido com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin.
Horas depois, Flávio admitiu financiamento
Depois que a reportagem foi publicada, no entanto, Flávio admitiu, em nota, o pedido de financiamento ao Banco Master.
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Em nota, o político nega irregularidades sobre o financiamento e defende a instalação da CPI do Banco Master para “separar os inocentes dos bandidos”. Flávio se coloca como “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, sem uso de dinheiro público, segundo ele.
O senador afirma que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, após o fim do governo de Jair Bolsonaro, “quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. Ele destaca que retomou contato com o banqueiro quando houve atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme, mas que não ofereceu vantagens em troca.
“Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master”, escreveu.
Relembre caso do Banco Master
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Flávio associou Banco Master a Lula
No podcast do NSC Total, Café nas Eleições, Flávio Bolsonaro, havia dito que o escândalo com o Banco Master era “o maior esquema de corrupção do sistema financeiro que nós já vimos na nossa história” e associou o esquema ao governo Lula.
— Foi o Lula que se reuniu no escondidinho, ali na reunião secreta com o Vorcaro, com o presidente do Banco Central, com o ministro Rui Costa, né? Eles e mais de uma vez… Quer dizer, foi o Lula, não foi o Bolsonaro. Vocês vão se lembrar, o ministro da Justiça do Lula, Ricardo Lewandowski, ele recebia dinheiro do Banco Master antes de virar ministro da Justiça. Depois que ele vira ministro da Justiça do Lula, o contrato continua igual, só que para o filho dele. Aí, uma semana antes do caso Master explodir na imprensa, o ministro Lewandowski pede para sair do Ministério da Justiça. Quer dizer, é o dedo, é o a digital, é o DNA do PT nisso tudo no Banco Master — disse.
Flávio também disse uma frase que, posteriormente, virou estampa de camiseta, como um slogan.
— Eu digo o seguinte, o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula — afirmou.
Financiamento de R$ 61 milhões já havia sido pago
Documentos e trocas de mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil mostram que ao menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação da moeda nas datas das transferências — já haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. O valor foi enviado em seis operações para custear o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
O banqueiro é acusado de comandar um esquema de fraude que provocou um prejuízo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Em 18 de novembro, um dia depois da prisão, o Banco Central (BC) decretou a liquidação do Banco Master.
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Mensagens mostram planilhas de pagamentos
Nas mensagens, é possível ver um comprovante de transferência bancária no valor de 2 milhões de dólares e uma planilha com previsão de pagamentos. Em análise feita pelo Intercept, parte dos recursos apareciam como enviados pela Entre Investimentos e Participações ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
O financiamento teria sido intermediado pelo empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Fabiano Zettel, identificado pela Polícia Federal (PF) como principal operador financeiro de Vorcaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept cobrem o período entre dezembro de 2024 e novembro de 2025 e reúnem conversas do banqueiro com diversos interlocutores. A autenticidade do material foi confirmada a partir do cruzamento de informações dos diálogos com dados públicos e sigilosos. Entre os elementos utilizados na verificação estão registros bancários e telefônicos, inquéritos policiais, dados do Congresso Nacional e publicações em redes sociais.
Segundo as conversas analisadas, a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção internacional do filme começou, no fim de 2024, por meio de intermediários. Ao longo de 2025, no entanto, a interlocução passou a ocorrer diretamente entre eles, incluindo cobranças por liberação de recursos, negociações operacionais e demonstrações de proximidade pessoal.
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Os diálogos também sugerem que Vorcaro acompanhava pessoalmente a execução dos pagamentos e dava prioridade ao financiamento do longa em relação a outros compromissos financeiros.
O Intercept procurou, por e-mail, os advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a última atualização desta matéria.
*Com informações do O Globo e do g1






