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Em entrevista, Mário Motta relembra a trajetória dos 35 anos à frente do Jornal do Almoço

Com uma história profissional reconhecida pelo público e colegas de profissão, o apresentador de rádio e TV viveu a experiência singular de ser entrevistado por colegas da NSC

18/12/2021 - 07h00 - Atualizada em: 16/03/2022 - 15h59

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Por Ângela Bastos
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Neste ano, Mário Motta celebra 35 anos no comando do Jornal do Almoço
(Foto: )

Mário Motta é um dos maiores apresentadores da televisão brasileira. Aos 69 anos de vida e durante 35 anos apresentou um único telejornal na mesma emissora – o Jornal do Almoço, na NSC TV – talvez um dia até entre para o Guinness Book, o livro dos recordes. Com uma história profissional reconhecida pelo público e colegas de profissão, ele viveu recentemente uma experiência singular: acostumado a fazer entrevistas, teve que sentar à frente de um grupo de colegas jornalistas e responder a várias perguntas.

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Tendo Laine Valgas (apresentadora parceira no JA) no comando, o bate-papo contou com Fabian Londero (editor-chefe e apresentador do NSC Notícias), Eveline Poncio (apresentadora do Bom dia SC e do Notícias da Manhã/CBN) e Ângela Bastos (repórter especial do Diário Catarinense). Por quase uma hora e meia, Marinho, como é carinhosamente chamado nos bastidores, foi provocado a falar dos tempos de menino saltimbanco no circo dos pais pelo interior de São Paulo, do jovem que cursou Educação Física ainda que namorasse com a Medicina, do comunicador apaixonado pela rádio que inovou ao narrar partidas de beisebol e de tênis e do homem que se tornou a maior e mais popular referência da televisão catarinense.

Mais do que respostas nascidas desta rica e enraizada experiência, Mário Motta compartilhou o que parece ser a maior de suas qualidades: a generosidade. Dono de uma memória que o faz lembrar de lugares, datas e colegas que com ele dividiram a bancada ao longo das mais de três décadas de JA, respondeu-me quando perguntei sobre como consegue ter uma “memória afetiva” tão presente:

– A gente não dá o que não recebe, Ângela.

De palhacinho no circo dos pais à bancada do JN

Sabe aquela história de que o fruto não cai longe do pé? Mário Motta prova isso. Nascido em uma família de comunicadores – filho do radialista paulista Mário Pinto da Mota (“Motinha”) e de Nair de Campos Motta (Nhá Fia), que nos anos 1950 apresentavam o programa “Na Serra da Mantiqueira”, na Rádio Bandeirantes – o apresentador do JA conta orgulhoso sobre o que considera o alicerce da carreira.

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Certo dia, ainda na Band, o casal decidiu adquirir um circo teatro, o qual a cada 15 dias era armado num bairro da periferia da cidade. Mário chegou quando o circo estava em Santo André, no ABC paulista, mas foi criado nas andanças pelo interior paulista pelo que considera uma prova de amor dos pais: eles pediram demissão e procuraram um lugar com clima mais quente já que o filho havia nascido com algumas doenças.

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Apresentador Mário Motta durante a entrevista conduzida pelos colegas jornalista
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Marinho tinha apenas quatro anos quando começou a encarar o público, com uma sanfoninha que havia ganho de presente. O pai logo percebeu que o filho tinha talento e com o violão na mão formou a dupla que encantava a plateia. O pequeno artista também fazia acrobacias, experimentava trapézio e arrancava gargalhada da criançada como palhaço. E quem diria que com o pequeno instrumento musical faria par com um dos maiores sanfoneiros da MPB, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, privilegiado pela amizade do pai com Gonzagão.

A precocidade também colocou Mário Motta no cinema. Aos sete anos ele participou do filme “Maria 38”, dirigido por Watson Macedo, e que tinha no elenco artistas como Zilka Saleberry, Eliana Macedo, Francisco Dantas, John Herbert. Com o fim do circo, por volta de 1965, a família Motta fixou residência na cidade paulista de Tupã. Ali, aos 13 anos, iniciaria a atividade na Rádio Piratininga atuando em diversas funções. 

Também se formaria em Educação Física, em 1973, e ingressaria no magistério. E foi para trabalhar na Educação das crianças e jovens que, percebendo maiores oportunidades na carreira, Mário desembarcaria no Planalto Serrano de Santa Catarina. Nas escolas de Lages ele deu aulas e ocupou cargos em secretarias ligadas aos esportes, mas retomou o caminho da comunicação nas rádios Princesa e Clube como locutor esportivo e como apresentador na TV Planalto. Até que, em 1986, as andanças da vida o levam para Florianópolis, onde assumiu a chefia do Serviço Pedagógico da Educação Física na Secretaria de Estado da Educação e do Desporto (SED).

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Paralelamente, nesse mesmo ano, coordenou o jornalismo da sucursal da TV Planalto, na capital. O talento chamou a atenção da RBS TV (hoje NSC TV). Figura carimbada nos Jogos Abertos de SC, Mário ocupa desde 1986 o seleto lugar de âncora do Jornal do Almoço. Não raro atua como mestre de cerimônias. A intimidade de Mário Motta com o microfone é imensa. Achou interessante vê-lo narrar diferentes modalidades nos Jogos Abertos? E que tal uma partida de beisebol? Ou prefere Guga Kuerten no saibro?

Mário é um comunicador humilde. Diz que não desenvolveu muito o texto, embora tenha escrito colunas no Jornal de Tupã e no Jornal da Alta Paulista, em meados dos anos 1960, e mais tarde no Correio Lageano. Com a generosidade que o caracteriza, assinou uma coluna no Hora de Santa Catarina, na Capital, com o título de Hora das Ruas. Mário é um homem de boas leituras, de gosto eclético, que curte filmes e boa música. Cita Nietzsche, aquele que diz o fato não existir, mas existir as circunstâncias que o cercam. Então, observa Mário, cabe ao jornalismo buscar essas circunstâncias: 

– O fato é a conclusão, o fechamento, a união dessas circunstâncias.

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Jornalista Laine Valgas durante a entrevista
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Laine Valgas foi cirúrgica ao dizer que Mário Motta desperta em quem trabalha com ele o melhor de cada um. É o sujeito que abre a porta para dar bom dia, que criou o jargão “Vamos fazer uma boa tarde”, que sempre cumprimenta por quem passa, seja gestor ou moça da limpeza. A colega lembrou de um aviso corporativo sobre datas de aniversários de cada funcionário da NSC. Não importa o tempo de firma. Mário é infalível: envia uma mensagem felicitando sobre “mais uma voltinha redor do sol” a cada um.

Fabian Londero lembrou que, em 1997, quando chegou a Florianópolis, Mário Motta já era referência. Contou que substituir Motta aos sábados, no Jornal do Almoço, fazia tremer. Foi de Londero a pergunta se Mário ficou nervoso quando, em novembro de 2019, apresentou o Jornal Nacional como comemoração dos 50 anos do telejornal, ao lado da potiguara Lídia Pace.

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Londero destacou a qualidade de Mário em ser natural no vídeo, como se estivesse conversando com as pessoas, uma característica que busca para si. Mário voltou no tempo: 

– Creio que isso venha dos tempos do circo. A gente tinha que falar com o público, mesmo que fosse escuro e do palco não se visse quase nada. Com o tempo a gente foi se soltando. A resposta vinha das pesquisas onde o público dizia que “o Mário não dá notícias, ele conta os fatos”. Isso foi sendo aprimorado e com suporte de muitos colegas no estúdio, na bancada.

A capacidade de conversar com o coração das pessoas

Esta capacidade de conversar com o público também motivou uma pergunta da jornalista Eveline Poncio. A colega que apresenta o Notícias da Manhã falou do aprendizado que é ter a parceria do Mário na CBN Diário. Ela citou várias coisas do dia a dia, como arrumar um cabo do computador, para qual Mário sempre dá um jeito. Mas foi um fato marcante que pautou a pergunta: ter sido escolhido para a cerimônia de chegada dos corpos, na Arena Condá, dos mortos no acidente aéreo da Chapecoense, em novembro de 2016. Entre os 71 falecidos estavam cinco colegas da NSC.

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Jornalista Eveline Poncio
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Eveline, que na época trabalhava em Chapecó, disse ter ouvido que “não havia pessoa melhor escolhida, pois Mário Motta fala com o coração das pessoas”. 

– Foi um momento de muita emoção, e que a gente fez com o respeito exigido para aquela circunstância. Como foi que conseguimos? Ah, depois que tudo passou, a gente fecha a porta, se recolhe e aí deixa o sentimento aflorar – respondeu ele. 

Mário também falou sobre um livro em que conta a trajetória profissional. Disse que tem 400 páginas escritas e que estão com um editor amigo para avaliar. O assunto “aposentadoria” fez parte da roda. Mário já é aposentado pelo Estado, como professor; e há alguns anos pelo INSS. Mas segue com a energia de alguém que não sente a idade. Ele conta que não imaginou vir para Florianópolis, trabalhar na RBS-NSC. Tampouco apresentar o Jornal do Almoço por quase 36 anos:  

– Talvez a minha grande falha seja não planejar a minha existência. A gente não acha. Junto com o público queremos mais é continuar a desfrutar desta suposta falha. Afinal, temos que continuar a fazer uma boa tarde.

Pequenas histórias

Picadeiro eletrônico

“Sempre gostei muito de fazer o Jornal do Almoço na praça. Nascido num circo, eu gostava de sentir o programa indo ao público, de ver os jornalistas sendo levados para conhecer o Estado, de estar com os colegas que trabalhavam nas emissoras do interior. Para mim a TV funcionava como uma espécie de picadeiro eletrônico indo até nossas cidades”.

“Mordi o lábio para não chorar”

“Uma das passagens que mais me machucou enquanto apresentador ocorreu no Morro do Baú, nas enchentes de 2008. Estava na prefeitura de Blumenau e precisei chamar ao vivo o repórter Ricardo Von Dorff, porém, eu estava sem retorno de imagem, e apenas com áudio. No exato momento, um bombeiro trazia um saco nas mãos e o Ricardo informa que se tratava do corpo de uma criança de dois anos resgatado pelo bombeiro. Fiquei muito mal: ‘Como vou voltar?’. Isso me fez reforçar a importância da imagem e do áudio. Como voltei? Mordendo o lábio por dentro para não chorar”.

“A gente sente que nunca está sozinho”

“Quando fui participar do Jornal Nacional encerrei com versos de Gonzaguinha: ‘Toda pessoa é sempre as marcas de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense que está’. Eu tomo isso como um hino. Penso nos meus familiares, pais, irmão, minha esposa Glorinha, amigos, colegas”.

“É bom viver, é bom conviver”

“Eu não tenho o menor direito de reclamar da minha vida. Se isso é felicidade, se é ser feliz? Eu não sei, mas com certeza é um estado de espírito de profunda gratidão por tudo que a vida me deu. É bom viver, é bom conviver”.

Respeito aos valores

“Nunca tivemos tanta facilidade técnica para chegar aos fatos, as informações e aos argumentos como hoje. Cabe a quem trabalha na área da comunicação respeitar os próprios valores, respeitar os valores de quem está envolvido e respeitar os valores de quem irá receber a informação. A esses cabe a crítica, e quem oferta fazer o melhor possível”.

Medicina segue nos planos

“Quando jovem eu pensava em fazer Medicina, porém, fui convocado para o Exército e acabei cursando Educação Física. No ano seguinte eu ia tentar de novo o vestibular para Medicina. Mas eu me apaixonei pela área pedagógica e decidi terminar. Se ainda está nos planos? Sim! Quem sabe vocês não me encontram correndo nos portões do Enem?”. 

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