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Empatia é uma das principais lições aprendidas pelos catarinenses em meio à pandemia de 2020

Para psicóloga, esse sentimento permite ver o que pode ser feito para colocar em prática a compaixão

18/12/2020 - 08h17 - Atualizada em: 18/12/2020 - 08h57

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Luiza
Por Luiza Morfim
Moradora de Lages recolhe brinquedos para doar para crianças carentes no Natal
Moradora de Lages recolhe brinquedos para doar para crianças carentes no Natal
(Foto: )

Aprender a se colocar no lugar do outro. Esse foi um dos ensinamentos que a pandemia de coronavírus trouxe à humanidade em 2020. Com uma doença que, muitas vezes, não escolhe suas vítimas, cuidamos e protegemos quem amamos neste ano que está terminando. O distanciamento social e diversas outras restrições que nos colocaram em isolamento do resto do mundo fizeram com que uma palavra estivesse ainda mais presente no vocabulário dos brasileiros: a empatia.

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A capacidade de observar a experiência que alguém está vivenciando como se você estivesse vivendo aquilo pode ter mostrado uma das faces mais generosas do ser humano em um momento tão difícil para o planeta. Desde março, vimos jovens se oferecendo para fazer compras para idosos, pequenos empreendedores doando seus serviços aos profissionais de saúde da linha de frente da Covid-19 e tantas outras atitudes que nos fizeram ter fé e acreditar que fazer o bem pode ser parte da rotina.

— A empatia pode contribuir no fortalecimento de vínculos, pois ao compreender um pouco melhor o que o outro sente “como se” fosse seu (mas lembrando que não é), te permite ver o que pode ser feito para colocar a compaixão na ação, ajudando assim a minimizar o sofrimento do outro – explica a psicóloga Raquel Passos. 

A pandemia de coronavírus trouxe a todos medo e insegurança, mas também despertou em muitos o sentimento de querer fazer o bem. E essa angústia de ver outra pessoa enfrentar uma situação muito mais difícil do que a sua própria motivou o nascimento do Todos contra o Corona.

Amanda Alves de Araújo é uma das voluntárias do projeto, fundado em março, que tem como objetivo ajudar, com doações de alimentos e roupas, pessoas que ficaram sem trabalho e foram duramente afetadas pela pandemia de coronavírus.

— Eu sempre quis me envolver de fato em trabalhos voluntários, sempre ajudei no que pude as pessoas próximas e quem eu sabia que precisava de ajuda de maneira isolada, mas nunca consegui tempo para me dedicar muito. Em março, uma semana antes das restrições, meu pai faleceu, então foi um momento de reflexão bem grande para mim. Eu comecei a pensar que queria fazer o bem e amenizar a dor das outras pessoas

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Assim como fez Amanda, outros catarinenses passaram a realizar boas ações e atividades voluntárias, impulsionados pelo cenário da pandemia. A psicóloga Raquel Passos explica que momentos como esse, de catástrofes, tendem a levar muitas pessoas a agirem com mais empatia, pois estão diretamente ligados ao altruísmo, nossa natureza instintiva de ajudar o próximo.

— Na pandemia todos vivemos um momento ansiogênico (capaz de causar ansiedade), alguns mais, outros menos, mas com certeza todo mundo sentiu um impacto emocional de alguma maneira. Assim como quando vivenciamos um sofrimento é muito reconfortante ter ao nosso lado alguém que compreenda a nossa dor, para o outro também é. Essa troca fortalece todos e torna menos difícil passar por momentos como este.

Fim de ano inspira solidariedade

Mas não são apenas situações de pandemia que podem nos despertar a vontade de fazer o bem pelo outro. Com a chegada de dezembro, muitas pessoas têm o costume de repassar suas vivências ao longo daquele ano que está acabando, e isso também gera uma corrente de solidariedade e busca por sentimentos prazerosos, estimulando ainda mais boas ações que marcam, principalmente, o Natal.

Desde 2012, Lídia Ribeiro organiza o Natal da Tia Ivonete. O projeto, que leva o nome de sua mãe, começou muito antes, quando Ivonete ainda era viva e tinha a prática de fazer doações no período natalino. Com o falecimento da mãe, a moradora de Lages percebeu que deveria continuar com a ação, não só como um legado, mas porque via o bem que a prática fazia à sua família e às famílias que recebiam as doações. No entanto, em um ano de pandemia, Lídia se viu em uma situação complicada e chegou a pensar se realmente conseguiria continuar com a tradição.

— Em setembro eu comecei a ficar nervosa. Eu já tinha alguns brinquedos, eram poucos, mas eu pensei em não fazer. Conversei com a minha família, com meu pai que me ajuda muito, e decidimos guardar tudo para o ano que vem. Mas aí eu comecei a ficar com o coração apertado, comecei a rezar e pedi pra Deus me guiar. Em outubro decidi que ia dar um jeito de fazer, só não sabia ainda como.

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Lídia sempre contou com a ajuda de amigos e familiares para organizar tudo e também buscar doações, que vão desde alimentos até a brinquedos usados que precisam ser reformados e limpos. Com a pandemia de coronavírus, os planos para o Natal de 2020 precisaram mudar, para evitar a disseminação do vírus, ela passou a arrecadar dinheiro.

— Uma amiga me disse “pede em dinheiro que aí você não precisa ir de casa em casa, além disso brinquedos novos em caixa são mais fáceis de higienizar”. Eu demorei pra aceitar essa sugestão porque eu nunca pedia dinheiro. Mas criei coragem, pensei nas crianças que iriam receber e comecei a pedir para os amigos mais próximos. Então o TJSC, que é onde eu trabalho, publicou uma nota contando sobre o projeto e foi maravilhoso. Eu comecei a receber muitas doações e soube que as pessoas confiam em mim e no projeto.

Liberação do "hormônio do amor"

Lídia, em Lages, e Amanda, em Florianópolis, são apenas alguns dos exemplos das boas ações que os catarinenses organizam, seja durante um período de crise de saúde pública ou em épocas que costumam gerar um sentido de compaixão. A psicóloga Raquel Passos explica o quanto essas oportunidades podem ser benéficas:

— Vemos a importância de quando a empatia se funde com a compaixão. Nesse sentido, a empatia envolve sentimentos agradáveis frente aos desagradáveis, envolve o desejo de que o outro fique bem, sem pegar a dor dele para mim, mas cooperando no que posso para aliviar seu sofrimento. Quando isso acontece, liberamos um hormônio muito importante, a ocitocina, conhecido como “hormônio do amor”, que aumenta a ligação entre as pessoas e traz uma sensação agradável e ainda diminui o nível de cortisol (o tal hormônio do estresse), e isso faz bem para ambas as partes.

Para Amanda, o ano de 2020 já ficou marcado em sua memória pela rede de solidariedade que ajudou a construir. Ela conta que, além de ter ajudado e feito amigos que vai levar para a vida toda, deu ainda mais valor ao poder de um abraço, que tanto fez falta neste ano que está acabando.

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— Eu vi muita gente com bom coração. Muita gente que precisa de ajuda, às vezes nem é de coisas materiais, mas de uma conversa e atenção (mesmo que por ligação, WhatsApp e mantendo o distanciamento). Aprendi que existem pessoas boas, que o mundo ainda tem jeito e se cada um fizer um pouquinho, a gente consegue amenizar a dor do próximo e trazer esperança de dias melhores. Ah! aprendi o valor do abraço: espero que esta pandemia acabe logo para que possamos voltar a nos abraçar.

A pandemia veio e deu uma sacudida para tirar a poeira da empatia, da compaixão, da gratidão e de tantas outras coisas que estavam sendo deixadas de lado Psicóloga Raquel Passos

Em Lages, Lídia já é conhecida por sua tradicional ação de Natal, mas o projeto é apenas uma das faces da moradora que carrega o bem por onde passa e, junto com seu movimento de solidariedade, ainda busca fazer com que outras pessoas sintam e façam o bem umas às outras.

— Todos temos os problemas, mas eu penso “que eu não perca a criança dentro de mim”. E é isso que eu gostaria, que todo mundo não deixe a sua criança interior adormecida por muito tempo. Eu sempre procuro ver o lado bom das coisas, mesmo que tenha algo ruim. Acho que tudo o que acontece de ruim na vida da gente é pra melhorar.

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E sobre multiplicar as ações que aprendemos a valorizar, a psicóloga Raquel Passos explica que somos seres sociais, nossa natureza é empática. Segundo ela, a pandemia veio e deu uma sacudida para tirar a poeira da empatia, da compaixão, da gratidão e de tantas outras coisas que estavam sendo deixadas de lado.

— Acredito que estávamos vivendo (de uma forma bem generalista) voltados para nossos próprios fins, de uma maneira mais egoísta, preocupados em nos autoproteger e com foco em conquistar o que gostaríamos, perdendo assim o costume de olhar mais para as outras pessoas. A pandemia veio e mudou tudo, e eu espero do fundo do meu coração que essas lições sigam de forma mais presente na vida das pessoas.

Às vezes, o que é pouco pra você pode ser muito para outra pessoa Amanda de Araújo

Para Lídia, o conselho principal é ter a iniciativa.

— Não tem segredo. É só começar que os outros vão te acompanhar.

Amanda acredita que os sentimentos positivos são contagiantes.

— As pessoas e coisas boas se atraem, fazer o bem vale a pena. Às vezes, o que é pouco pra você pode ser muito para outra pessoa. O segredo é agir com o coração aberto, assim a gente consegue passar a verdade que existe dentro de nós, esse sentimento bom contagia a humanidade e atrai pessoas boas pra perto de nós. Gosto do lema “nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos".

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