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    Especialistas avaliam novas restrições em Blumenau: "isolamento mal feito só prolonga a angústia"

    Para pesquisador e médico, medidas podem ter pouco efeito por serem tardias e pela falta de apoio da população

    26/06/2020 - 16h33

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    Por Bianca Bertoli
    Medidas foram adotadas nesta sexta-feira. Entre elas está o fechamento de parques públicos, como o Ramiro Ruediger.
    Medidas foram adotadas nesta sexta-feira. Entre elas está o fechamento de parques públicos, como o Ramiro Ruediger.
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    As novas medidas anunciadas pela prefeitura de Blumenau no combate à disseminação do novo coronavírus podem não ter o efeito esperado, alertam os especialistas. Primeiro por falta de engajamento da população, segundo pelas próprias falhas da gestão pública. As restrições formalizadas em decreto assinado nesta quinta-feira (25) se resumem à proibição de idosos no transporte coletivo, limitação no acesso a supermercados, parques fechados e horários de funcionamento reduzidos para os ônibus e estabelecimentos.

    Para Eduardo Werneck Ribeiro, professor do Instituto Federal Catarinense em Blumenau e um dos integrantes da Rede Nacional de Geógrafos para a Saúde, que mapeia a evolução da doença em todo o país, o relaxamento no isolamento por parte dos moradores foi determinante para a rápida disseminação do coronavírus (em cinco dias o número de casos saltou de 1,4 mil para 1,8 mil; o de internações em UTIs de seis para 16 em quatro dias). Os baixos índices de isolamento atrelados às flexibilizações estaduais prematuras geraram o cenário atual. Blumenau foi destaque nacional ao protagonizar cenas como a aglomeração no dia da reabertura dos shoppings e de bares lotados.

    — A rebeldia do blumenauense somada à falta de gestão federal, estadual e municipal resultou nisso — critica Ribeiro.

    Tanto ele quando o infectologista Amauri Mielle não arriscam prever quando o “pico da curva” de contágio acontecerá em Blumenau. É unânime, porém, que a situação se arrastará por muito mais tempo, já que não há vacina nem remédio eficaz contra a Covid-19. O único modo de prevenir é o isolamento e distanciamento. Para Mielle, novas ações só surtirão efeito se durarem semanas e significarem restrições severas. Ainda assim, o desafio é grande pois o vírus já está por toda a parte, o que dificulta o rastreamento de infectados.

    — O momento de fazer isso era lá atrás, no começo. É difícil ter ideia se o que está sendo feito hoje é o suficiente. A testagem que temos não é a ideal, mas é boa. Só que tem que haver um rastreamento das pessoas com quem o contaminado convive. Em uma pandemia é preciso estar sempre à frente, conhecer precocemente quem está infectado — explica o médico.

    — Sem testar massivamente não tem como ter certeza da ação, é tentativa e erro. A realidade é que não existe estratégia perfeita para a Covid-19 — avalia Ribeiro.

    Rastreamento de infectados

    A prefeitura acompanha os diagnosticados por aplicativo e ligações telefônicas, mas as pessoas que convivem com o paciente só fazem o exame quando apresentam sintomas - no entanto, precisam ficar em quarentena por 14 dias. Recentemente o município passou a chamar centenas de familiares de contaminados para os testes rápidos, para tentar descobrir quantos acabaram contraindo a doença nessas últimas semanas. É uma equação desequilibrada. De um lado milhares que precisam ser identificados e rastreados para evitar a disseminação e de outro poucos profissionais para fazer todo esse trabalho.

    O médico também questiona como as decisões foram tomadas. No anúncio, o prefeito Mário Hildebrandt disse que se notou aglomerações em bares e restaurantes e por isso o fechamento desses lugares ocorrerá antes da meia-noite. Os idosos, mais sensíveis ao coronavírus, estão proibidos de usar o transporte coletivo. E os parques foram fechados novamente. Muitas ações reforçam itens já publicados pelo Estado no mês passado. A prefeitura não detalhou qual impacto espera ao adotar essas restrições.

    — Tem que ter estudo que demonstre qual será o impacto nessa diferença de horários (de funcionamento). Eu imagino que isso tenha sido avaliado exaustivamente, porque a coisa é muito mais ampla que reduzir hora de bar. Será mesmo que proibir as pessoas de fazerem uma atividade individual ao ar livre fará diferença? Me parece algo meio empírico — analisa o infectologista.

    Ele ressalta, assim como o presidente da Associação do Médio Vale do Itajaí, que as medidas de restrição precisam ser tomadas em conjunto com outras cidades da região.

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    Colaboração de todos

    A desobediência às regras de isolamento e distanciamento pode ser explicada por desconhecimento da situação, pelo cansaço em permanecer distante dos conhecidos, pela falta de campanhas que esclarecessem a importância das privações ou por pura “imbecilidade”, opina o infectologista. Os que negam a gravidade da pandemia e não tomam os devidos cuidados têm parcela de culpa.

    — Tem uma responsabilidade que é nossa. Temos que cobrar os poderes públicos, claro, mas não podemos focar só em um lado — opina.

    Ribeiro lembra dados de geolocalização dos celulares apontaram que Blumenau, no começo da pandemia, teve uma taxa de isolamento de 70%. O índice despencou e hoje está em cerca de 35%. Além disso, o estudo mostrou que o blumenauense saiu de casa antes mesmo da autorização através de decretos que flexibilizaram a quarentena.

    — Houve uma falta coletiva, talvez por falta de preparo psicológico. O fato é que esse isolamento mal feito só prolonga essa angústia — lamenta o professor Ribeiro.

    O médico defende que punições como multas deveriam ocorrer não só para os estabelecimentos, mas também para as pessoas. Conforme o novo decreto, comerciantes podem pagar pelos próprios descuidos e dos clientes, como é o caso dos supermercados. A partir de agora, quem autorizar a entrada de mais de uma pessoa por família nesses locais será notificado.

    Enquanto a pandemia existir, as dificuldades serão muitas para todas as esferas de gestão pública. Duas das principais é acertar na adoção de medidas e tentar fazer com que a população entenda e colabore. Difícil dizer o que é mais desafiador.

    Coronavírus em Blumenau

    O município confirmou nesta quinta-feira (26), 130 novos casos. Foi o segundo dia com mais diagnósticos positivos para a Covid-19 desde 20 de março, quando a cidade teve o primeiro morador infectado. O aumento em relação ao dia anterior é de 7%. Além disso, a cidade soma 981 pessoas consideradas recuperadas da doença, 53% do total.

    Dos 866 pacientes ativos com o novo coronavírus, 28 estão hospitalizados, sendo que 13 estão em leitos de terapia intensiva (UTIs) e 15 em enfermaria. Outros 838 testaram positivo, porém apresentaram sintomas leves e estão em isolamento dentro das próprias casas, com acompanhamento de agentes de saúde da prefeitura de Blumenau. 

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