As paredes do centro histórico de Florianópolis ganharam novas cores e significados com o Street Art Tour (SAT), um projeto que transforma a cidade em uma grande galeria a céu aberto. Criado em 2018 pela produtora cultural Studio de Ideias e pelo artista Rodrigo Rizo, o projeto responsável pelo tour nas artes urbanas da Ilha nasceu do desejo de mostrar como as manifestações artísticas se tornaram uma ferramenta de expressão cultural e social.

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O tour em si, parceria do Guia Manezinho — projeto de Rodrigo Stüpp — com o Street Art Tour, convida moradores e visitantes a percorrer os principais murais e grafites da cidade. O passeio dura por volta de 1h30min e tem início no Largo da Catedral, coração histórico de Florianópolis.

Dali, o guia conta a história de cerca de 15 obras espalhadas pelo Centro de Florianópolis. As rotas passam por pontos emblemáticos, como o Largo da Alfândega, Mercado Público, Travessa Ratcliff e a Rua Victor Meirelles.

Mais de 50 artistas já participaram das ações e intervenções promovidas pelo projeto. Entre eles, está Gugie Cavalcanti.

Quem é Gugie Cavalcanti

Brasiliense de nascimento e radicada em Florianópolis desde os 10 anos, Gugie começou na arte ainda criança, inspirada pelo pai, militar da Aeronáutica e também formado em artes plásticas. Na adolescência, encontrou na cultura hip-hop e nas danças urbanas um espaço de criação que a levou ao grafite.

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Formada em artes visuais pela Udesc, Gugie se tornou referência na cena catarinense, reconhecida por grandes murais, como “Histórias no Peito”, no edifício Schweidson, na Rua Tenente Silveira, que representa um motorista de aplicativo abraçado a sua mulher.

Além disso, Gugie também é responsável pela homenagem à jornalista, professora e política florianopolitana, Antonieta de Barros, pintada na mesma região. Sua arte é marcada por personagens femininas, cores vibrantes e temas ligados à representatividade e à memória. Quando Gugie relembra o momento da pintura do retrato de Antonieta, sente a identificação com a artista.

— Lembro de estar lá em cima pintando e pensar “caramba como é que vim parar aqui”, em seguida olhei pro layout e vi. Justamente por uma mulher como ela, eu podia estar ali protagonizando minha trajetória — afirma.

Gugie Cavalcanti, responsável por muitas das obras apresentadas no tour (Foto: Redes sociais, Reprodução)

Apagamento das obras no Centro

Entre as obras mais simbólicas apresentadas pelo Street Art Tour, estava o mural em homenagem ao poeta simbolista Cruz e Sousa, figura central da literatura brasileira e da luta pela valorização da cultura negra. Criado pelo artista Rodrigo Rizo em 2019, o mural foi apagado em 2024 devido a fissuras e infiltrações na parede em frente ao Palácio Cruz e Sousa, localizado no Centro da ilha.

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— [A pintura] trouxe à tona a representatividade do poeta cujo rosto estampou por cinco anos a paisagem centenária do coração de uma Capital majoritariamente branca, reparando parcialmente os efeitos do apagamento histórico [do artista em sua época] — afirmou Rizo na época.

O mural de Antonieta de Barros e Franklin Cascaes, também apagados em 2024, já foram refeitos e têm suas versões atualizadas, mas ainda não há previsão para finalização do retrato do poeta Cruz e Sousa. Nas redes sociais, Gugie apresentou o depoimento sobre a principal motivação para refazer as pinturas que compõe a arte urbana de Florianópolis.

— Quando a arte toca de verdade, ela deixa de ser de um só, ela é reivindicada pelo povo — escreveu, afirmando que a população da capital catarinense realmente valorizou as artes.

Júlia*, de 27 anos, que já realizou o tour idealizado pelo projeto Street Art Tour, representa exatamente a crença da artista.

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— Antes, eu nem percebia a pintura [de Cruz e Sousa]. Alguns amigos vieram nos visitar [ela e a namorada] e se interessam muito pela arte urbana. Eles que me apresentaram o tour e pude perceber a pintura do poeta. Quando o mural ainda estava lá, passava por ele todos os dias. Hoje, sinto falta — relembra.

A arte urbana florianopolitana mostrada durante o passeio se conecta a uma longa tradição artística da cidade. Para a historiadora Rosani Pellense, o movimento atual de grafiteiros e muralistas dá continuidade à missão de artistas como Victor Meirelles, Martinho de Haro, Juarez Machado e Franklin Cascaes, que também contaram a história da cidade por meio da arte.

— Os artistas sempre tiveram um papel fundamental em contar a história do seu povo e do seu tempo. A arte urbana faz isso de forma viva e participativa, criando novas camadas de significado nos espaços da cidade. É um registro da cultura e da identidade do nosso povo — afirma Rosani.

Veja fotos do tour

*Sobrenome ocultado para manter privacidade da entrevistada
**Sob supervisão de Luana Amorim

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