Depois de transformar 300 cartões de memorização e cerca de 1,3 mil bilhetes em uma estratégia para estudar durante os deslocamentos ao trabalho, o ex-faxineiro Bruno Eulálio Santos, de 28 anos, alcançou, na última quinta-feira (9), um marco que parecia distante há alguns anos: a formatura em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A cerimônia de colação de grau ocorreu no Centro de Cultura e Eventos da universidade, no campus da Trindade, em Florianópolis.
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A conquista encerra uma trajetória marcada por mudanças de cidade, dificuldades financeiras, trabalho e persistência. Em 2016, Bruno morava em Contagem, município de Minas Gerais, havia concluído o ensino médio em escola pública e trabalhava em um lava-jato na favela do Ressaca. Em busca de novas oportunidades, mudou-se para Santa Catarina para morar com a irmã mais velha, sob a condição de continuar estudando.
Mas estudar não era a única prioridade. A necessidade de ajudar no sustento fez com que ele trabalhasse como faxineiro em um hospital de Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina, enquanto se preparava para o vestibular.
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Ex-faxineiro criou estratégia própria para estudar
Com pouco tempo disponível, Bruno criou uma estratégia própria para aprender os conteúdos. Primeiro, produziu mais de 300 cartões com resumos das aulas de um curso preparatório on-line. Depois, confeccionou cerca de 1,3 mil bilhetes com fórmulas, conceitos e informações das disciplinas, que carregava no bolso e revisava durante o trajeto entre casa e trabalho.
A aprovação veio para o segundo semestre de 2020, em meio à pandemia de Covid-19. Apesar do início remoto das aulas, Bruno acredita que o contexto não comprometeu sua formação.
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— A pandemia foi um desafio para todo mundo, de adaptação à nova realidade. Eu fiz os dois primeiros semestres somente na pandemia, então acredito que não tenha prejudicado tanto assim, porque fazia parte do ciclo básico, que normalmente tem um contato mais acadêmico mesmo — afirma.
Ao longo da graduação, a técnica dos cartões continuou fazendo parte da rotina, mas ganhou uma versão digital, por meio de aplicativos de flash cards — pequenos cartões que contêm uma pergunta, palavra-chave ou conceito de um lado, e a respectiva resposta ou definição no verso. Paralelamente, Bruno passou a produzir conteúdo na internet sobre estudos para vestibulares e Enem, tornando-se influenciador de um cursinho preparatório e realizando campanhas publicitárias, atividades que complementavam a renda.
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As políticas públicas que ajudaram a manter o sonho
Mesmo conciliando os métodos de estudo com bolsas de monitoria oferecidas pela universidade, houve um momento em que a situação financeira se agravou. Nos semestres finais da graduação, ele precisou recorrer às políticas de assistência estudantil da UFSC e recebeu Bolsa Estudantil durante dois semestres.
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— Meu trabalho com a internet nunca parou, o que sempre auxiliou de certa forma. Além disso, eu sempre fui monitor do curso, então tinha bolsa de monitoria. Mas, no final do curso, minha realidade financeira mudou bastante e precisei fazer parte da política de permanência estudantil — conta.
Agora médico, Bruno atribui sua trajetória às oportunidades proporcionadas pela educação pública e pelas políticas de acesso e permanência no ensino superior:
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— O que eu posso dizer é que a universidade pública mudou a minha vida. Se não fosse a universidade pública, programas como o Sisu, o ProUni, as políticas de ações afirmativas, a política de permanência estudantil e projetos como as monitorias, eu não teria permanecido. O impacto na minha vida é imenso, tanto intelectual quanto social.
Para ele, o acesso à universidade deve ser uma possibilidade para todos os jovens.
— Acredito que todo jovem deveria ter acesso à universidade. Eu nem digo fazer a universidade propriamente dita, porque cada realidade é uma realidade, mas ter acesso a esse ambiente, que é muito importante para o crescimento não só intelectual, mas pessoal também — complementa.
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Ao olhar para a própria história, Bruno resume a conquista em poucas palavras:
— Com muito orgulho, o faxineiro conseguiu. Depois de muito sangue, suor e lágrimas, hoje eu tenho o prazer de falar que sou médico formado pela Universidade Federal de Santa Catarina.










