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Educação

Filha de produtores de banana de SC é aprovada em Medicina na UFSM: "A educação pública venceu"

Jovem tem 18 anos e venceu o ensino à distância na pandemia, os efeitos do ciclone bomba e a rotina entre trabalhar, ajudar a família e sessões de estudo de até 15 horas

28/04/2021 - 10h29 - Atualizada em: 29/04/2021 - 19h35

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Cláudia
Por Cláudia Morriesen
foto mostra noemi roder
Noemi recebeu o resultado de um ano de esforço na última sexta-feira, ao ser aprovada na Universidade Federal de Santa Maria
(Foto: )

Noemi Röder, de Garuva, cidade de 18 mil habitantes no Norte de Santa Catarina, nunca tinha ouvido falar sobre Sisu, Fies e outras siglas comuns ao vocabulário de estudantes de Ensino Médio até poucos meses atrás. Mesmo "Enem" era um termo que quase não fazia parte de seu dia a dia. Mas foi por meio do exame que ela conquistou uma vaga para o curso de medicina na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, já na primeira vez em que prestou o vestibular.

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O resultado foi divulgado na última sexta-feira (23), e Noemi comemorou com uma postagem que define sua trajetória até esta primeira vitória de sua vida profissional. "A escola pública venceu", escreveu a jovem. Ter prestado o Enem e passado para o curso com o qual sonhava, no entanto, não encerrou a rotina de estudos que ela iniciou em março do ano passado, quando chegava a passar 15 horas por dia dedicada aos conteúdos do Ensino Médio.

— Quanto mais eu estudava, mais eu percebia como estava atrasada, mais eu via que não sabia nada. Então, eu continuo estudando todos os dias — conta Noemi.

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Aluna da rede pública municipal no Ensino Fundamental e da rede pública estadual no Ensino Médio, a garuvense sempre foi uma boa aluna, com facilidade para aprender as matérias sem precisar fazer esforço. As notas dificilmente vinham menores do que 8,0 no boletim e, por isso, quando ouvia falar em "Exame Nacional do Ensino Médio", imaginava que era o tipo de prova na qual se sairia bem. Ao entrar no terceiro ano, decidiu que estudaria para tirar só notas 10. Então, a pandemia chegou ao Brasil e as escolas foram fechadas.

— Eu comecei a procurar por vídeos de aulas aleatórias para não ficar sem estudar naqueles primeiros dias, e apareceu a propaganda de um cursinho pré-vestibular online que tinha mensalidades baratas. Assinei na hora. Haviam de cinco a seis aulas para fazer por dia, mas eu comecei com uma a duas aulas e fui ficando atrasada. Decidi que teria que acordar às cinco horas da manhã para dar conta de começar a estudar antes de ir trabalhar — recorda.

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Ensino superior era realidade distante

Entre os colegas de escola de Noemi, passar no vestibular para uma universidade federal não estava entre os sonhos. Para muitos dos jovens, o fim do Ensino Médio significa mais tempo para dedicar-se a um emprego, e o ensino superior, quando faz parte dos planos, fica para depois. Ela mesma, ainda no primeiro ano do Ensino Médio, foi procurar emprego, e chegou a baixar o desempenho no colégio por causa da jornada de segunda a sábado.

— Eu trabalhava oito horas por dia em uma padaria. Quando ela fechou, ainda trabalhei em duas lojas antes de passar em um concurso público. Só então comecei a trabalhar apenas quatro horas por dia — detalha ela.

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Filha de bananicultores, uma "profissão por herança", como ela mesma define, o ensino superior era algo distante, que não fazia parte da realidade em que ela, a família e os amigos vivem. Além de acompanhar as aulas do terceiro ano do Ensino Médio, fazer cursinho pré-vestibular e trabalhar como auxiliar administrativo na Secretaria de Saúde de Garuva, Noemi ainda dava suporte aos irmãos mais novos nas aulas à distância, ajudava a mãe na limpeza do galpão de armazenamento das bananas e, de vez em quando, a auxiliava quando ia fazer faxina em casas da região para complementar a renda.

Diante de tantos compromissos, Noemi fez algo impensável para uma "millenium": em 2020, excluiu todas as suas redes sociais — não apenas os aplicativos, mas as contas, para não cair na tentação de acessá-las. O Facebook só foi reativado depois do Enem, e uma das primeiras postagens foi justamente a comemoração pela aprovação na universidade federal.

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Pandemia e ciclone-bomba

Em meio às dificuldades causadas pela pandemia e a uma rotina atribulada, Noemi ainda teve que lidar com outra situação: em junho de 2020, um ciclone-bomba passou por Santa Catarina e afetou, principalmente, a cidade de Garuva. Por nove dias, os moradores ficaram sem energia elétrica e, consequentemente, sem internet.

— Talvez para outras pessoas, nove dias sem internet não signifique muito. Mas imagina você saber que já está atrasada em relação ao conteúdo e não poder estudar? São 100 horas a menos de estudo — comenta ela.

Mesmo depois de perceber como a educação pública não garantiu a ela acesso a todos os conteúdos que alunos em outras condições têm, Noemi continua a defendendo. Em especial, os professores que a acompanharam e que sempre ofereceram ajuda. Entre eles, está um professor de matemática, por exemplo, que avisou que estaria sempre disponível, e a atendia para tirar dúvidas do cursinho pré-vestibular fora do horário de aula, mesmo que aqueles temas não fizessem parte do que estava ensinando ao terceiro ano naquele momento.

— Têm professores que se esforçam muito. Mas o sistema está precarizado e estamos acostumados com isso, ficamos acomodados. A pandemia também contribuiu para a precarização, os professores não podiam cobrar muito dos alunos porque estavam à distância — analisa a jovem.

Noemi ingressará no primeiro dos 12 semestres de curso em 18 de maio. Por enquanto, como as aulas estão 100% online, não precisará mudar para Santa Maria. Mas, quando o momento chegar, terá que enfrentar sozinha o desafio de ir para uma cidade onde não conhece ninguém, em outro Estado. Quando estiver formada, planeja voltar para perto de Garuva — Joinville e Curitiba estão nos planos —, e dedicar-se à pesquisa. Parar de estudar? Nunca mais.

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