O plano do governo para baratear a troca de motos de aplicativo parece perfeito no papel, mas já divide opiniões na prática. De um lado, a promessa de ajudar o entregador a se livrar da manutenção cara de uma moto antiga e ganhar mais dinheiro nas ruas. Do outro, aparece o fantasma do endividamento para uma categoria que corre o dia todo e nunca sabe exatamente quanto vai receber no fim do mês.

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O plano federal voltado para a realidade dos motoboys

A discussão ganhou força após a publicação da Resolução nº 5.309 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que regulamentou o programa Move Brasil Entregadores e MotoApp. A medida cria linhas de crédito destinadas a entregadores, motoristas de aplicativo e outros profissionais do transporte individual urbano interessados na compra de motocicletas, bicicletas elétricas e equipamentos voltados à mobilidade sustentável.

O programa chega em um momento em que boa parte desses profissionais depende de veículos com muitos anos de uso, sujeitos a quebras frequentes, manutenção elevada e maior consumo de combustível. Para quem passa horas nas ruas diariamente, a renovação da frota pode representar não apenas mais conforto, mas também impacto direto no orçamento mensal.

Crédito mais barato busca renovar a frota de trabalhadores por aplicativo

Pelas regras aprovadas pelo CMN, os financiamentos poderão ser contratados com prazo de até quatro anos para pagamento. Os recursos poderão ser utilizados na compra de motocicletas elétricas ou flex de até 160 cilindradas, além de bicicletas elétricas e ciclomotores.

As taxas de juros foram limitadas a 11,25% ao ano para homens e 10,25% para mulheres, percentuais inferiores aos praticados em diversas modalidades tradicionais de crédito. A operação ficará a cargo de instituições financeiras como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES e agentes credenciados.

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A proposta busca atender um público que frequentemente encontra dificuldades para acessar financiamentos convencionais devido à informalidade, à renda variável e à ausência de vínculo empregatício.

Troca da moto deve reduzir despesas e aumentar a renda

Os defensores da iniciativa apontam que a renovação dos veículos pode gerar economia significativa para os trabalhadores.

Modelos mais novos costumam exigir menos manutenção, apresentar menor consumo de combustível e oferecer maior confiabilidade para quem depende do veículo como ferramenta de trabalho. No caso das motocicletas elétricas, os gastos com energia e revisões tendem a ser ainda menores.

Para entregadores que convivem com despesas frequentes em oficinas e perdas de faturamento causadas por problemas mecânicos, a redução desses custos pode ajudar a compensar parte das parcelas do financiamento ao longo do contrato.

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Além da questão financeira, o programa também integra a estratégia federal de incentivo à mobilidade sustentável e à redução das emissões nos centros urbanos.

A instabilidade diária como barreira para o pagamento 

Apesar das vantagens potenciais, a medida também levanta preocupações sobre a capacidade de pagamento dos beneficiários.

Diferentemente dos trabalhadores com salário fixo, entregadores e motoristas de aplicativo dependem diretamente da quantidade de corridas e entregas disponíveis no dia. Oscilações na demanda, mudanças nos algoritmos das plataformas ou períodos de menor movimento nas cidades podem afetar a renda mensal de forma drástica, sem que o valor das parcelas assumidas seja reduzido.

Para o presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos, o crédito pode ser uma ferramenta útil, mas exige planejamento para não se transformar em um problema financeiro.

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— Comprometer até 35% do salário com um empréstimo é algo muito sério. Mesmo com juros menores, sem planejamento, a dívida pode virar uma armadilha — alerta.

O cuidado deve ser ainda maior entre profissionais que já possuem motocicletas em boas condições de uso ou que enfrentam poucos gastos com manutenção. Nesses casos, a troca do veículo nem sempre gera uma economia capaz de compensar o valor das prestações, o que pode aumentar o comprometimento da renda sem trazer ganhos financeiros significativos no dia a dia.

Os argumentos que dividem defensores e críticos do plano 

A criação do programa evidencia uma transformação mais ampla no mercado de trabalho brasileiro, onde milhões de pessoas atuam em plataformas digitais, mas permanecem fora de diversas linhas tradicionais de financiamento.

O resultado final dessa política pública dependerá, em grande parte, da realidade individual de cada trabalhador.

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Para quem enfrenta altos custos operacionais com uma moto desgastada, o financiamento pode significar mais eficiência e aumento real de produtividade. Já para quem possui um orçamento muito apertado ou ganhos altamente variáveis ao longo das estações, o crédito facilitado pode acabar transformando uma oportunidade de crescimento em uma nova e pesada obrigação financeira de longo prazo. 

Guia do entregador: cuidados fundamentais antes de fechar o contrato da moto

  • Faça um raio-X das finanças
    Avalie sua situação financeira, identifique outras dívidas e verifique se a portabilidade realmente trará economia.
  • Compare além dos juros
    Analise o CET (Custo Efetivo Total), prazo de pagamento, valor das parcelas e possíveis tarifas.
  • Evite apenas empurrar a dívida
    Trocar uma dívida mais cara por outra mais barata pode ser vantajoso. Porém, alongar o prazo sem reorganizar o orçamento pode aumentar o problema.
  • Ajuste o orçamento antes de contratar
    Como as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento, é importante garantir espaço no orçamento para lidar com imprevistos.
  • Use o consignado com estratégia
    A portabilidade é uma ferramenta para reduzir custos, não uma solução definitiva para problemas financeiros.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.