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    Violência na Grande Florianópolis

    “Foi tirada a vida de uma pessoa cheia de sonhos”, diz amiga de grávida morta em Canelinha

    Moradores da cidade, que tem cerca de 12 mil habitantes, ainda estão em choque com o crime registrado na última semana

    02/09/2020 - 05h03 - Atualizada em: 02/09/2020 - 13h56

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    Por Ângela Bastos
    crime em canelinha
    Flávia, de 24 anos, estava grávida quando foi morta por uma conhecida; mulher confessou o crime e está presa
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    A semana se iniciou cinzenta em Canelinha, no Vale do Rio Tijucas, a 67 quilômetros da capital Florianópolis. Nas praças, calçadas e lojas um assunto triste domina as conversas, o crime que tirou a vida da professora Flávia Godinho Mafra, 24 anos. Na segunda-feira, primeiro dia útil após a confissão do assassinato por outra mulher da cidade, uma jovem de 26 anos, o Diário Catarinense esteve lá e ouviu relatos de uma população angustiada.

    — Ela morreu viva.

    Com estas palavras, a monitora de uma das creches do município, Rosimeri Vicente, fala da causa da morte de Flávia, grávida de 36 semanas, e que teve a barriga cortada por um estilete e o filho arrancado do ventre. A criança sobreviveu.

    > Mulher que confessou ter matado grávida em Canelinha divulgou parto falso em grupo

    rosimeri canelinha
    Rosimeri é moradora de Canelinha e conta que a cidade ficou em choque
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    — Eu tenho três filhos e fui avó na sexta-feira, no mesmo dia que o crime foi descoberto. Por um lado, fiquei contente em ver minha filha sendo mãe; por outro, muito triste em saber que Flávia, única filha de uma mãe, não teve a oportunidade de realizar este sonho. É muito revoltante – diz.

    "São duas famílias destruídas"

    Parentes da mulher que confessou o assassinato falaram à nossa reportagem. Por questões de segurança, o DC decidiu manter os nomes deles no anonimato. Um deles diz que perdeu o apetite, o sono, e está com medo desde a descoberta do crime. Não teve coragem de ir ao velório e ao enterro, na manhã de sábado, no Cemitério Municipal:

    — Eu queria ter ido, mas veio o medo de alguém apontar o dedo e dizer: aí está um parente da assassina. Eu tenho que trabalhar nesta quarta-feira, mas me pergunto como vai ser, como as pessoas vão olhar, o que vão pensar?

    Outro contou que, na segunda (31) de manhã, foi visitar os parentes que, depois de duas noites fora, retornaram para a propriedade. Na noite de domingo (30) a casa foi arrombada e uma televisão e carne do freezer, furtadas. O apartamento da homicida confessa e do marido presos, no Centro da cidade, também foi arrombado e objetos quebrados.

    Este mesmo parente afirma que o crime foi um choque:

    — Ela tem que pagar pelo que fez. A gente pede a Deus força para a outra família, que é conhecida, amiga da gente, a quem queremos bem.

    João Erotides Grimm é vizinho ao local do crime e também lamenta pelas duas famílias:

    — É muito triste para os pais das duas, da vítima e da assassina. Temos duas famílias destruídas em Canelinha.

    Grimm conta que desde a descoberta do crime sente-se angustiado. Para ele, todos os moradores estão abalados.

    — A morte da menina foi uma tragédia nunca vista na cidade, no Vale do Rio Tijucas, no Estado. Da mesma forma, o pai e a mãe da assassina vão ficar com esta cicatriz para o resto da vida.

    > Veja o que já se sabe sobre o caso da mulher grávida morta em Canelinha

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    Crime chocou a cidade de Canelinha, que tem cerca de 12 mil habitantes
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    Natália deu emprego, Flávia espalhou luz

    Natália Desiderio e Flávia Godinho Fraga tinham a mesma idade. Isso fez com que nos tempos de colégios estudassem juntas. Mas foi quando Natália abriu uma papelaria no Centro da cidade que as duas se reaproximaram. Natália quis aproveitar a experiência de Flávia, que por muitos anos tinha trabalhado noutra papelaria, e ofereceu-lhe emprego. Foi quando, diz, conheceu uma jovem esforçada para realizar os sonhos de alcançar a universidade, construir a casa para viver com o rapaz que amava e casar na Igreja Católica

    — Eu fico emocionada quando penso nisso e na forma terrível com que ela foi morta. Nenhuma pessoa deve ter este fim, mas Flávia com certeza não merecia. Era tão cheia de luz, e acontecer isso.

    Natália não teve forças para abrir a loja na sexta-feira e ir despedir-se da ex-funcionária que juntava todo o dinheiro que recebia e fazia coisas em casa para não ter gastos na rua:

    — Foi tirada a vida de uma pessoa cheia de sonhos.

    Jeisiane, madrinha de casamento, e da filha arrancada da mãe

    Jeisiane Benevenute Pacheco e Flávia se conheciam desde a infância, mas foi na adolescência que a amizade se fortificou. Até a chegada da Covid-19 elas trabalhavam juntas na loja de bordados de Jeisiane, mas como Flávia tinha diabetes foi preciso evitar riscos e o contrato suspenso. Desde então, as conversas passaram a ser por aplicativo e sempre por um motivo muito especial: Jeisiane foi convidada para batizar a filha que Flávia esperava.

    — Tenho muitos bons momentos com Flávia: a formatura na Pedagogia, o casamento em que fui madrinha e peguei o buque da noiva, o sonho de formar uma família – conta.

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    Jeisiane era amiga de infância de Flávia e seria madrinha do bebê que ela esperava
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    Jeisiane esclarece que a homicida confessa não era amiga de Flávia desde a infância, como foi noticiado. Como a cidade é pequena as famílias se conheciam, mas não havia intimidade até o período da gravidez em que houve a aproximação. Como a mulher simulava a gravidez, elas trocavam informações a respeito da gestação.

    — Este crime abalou toda a cidade. Flávia era muito conhecida, tanto como professora como no comércio, pois trabalhou em duas papelarias e na loja. Além disso, não fazia mal a ninguém.

    Jeisiane conta que pretende ajudar a família de Flávia e fazer tudo que estiver ao seu alcance pela menina. Ela esteve no velório da amiga e colocou sobre o caixão, que estava fechado, um pequeno rosário: o tercinho havia sido um presente da própria Flávia, na festa em que foi anunciada como madrinha. Jeisiane recorda que Flávia tinha uma relação muito afetiva com a mãe, a quem sempre dizia ser uma grande amiga:

    — Tudo isso se torna ainda mais doloroso, pois a mãe dela passou mal e precisou ser levada para o hospital na hora de despedir-se da única filha.

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    Copo de vidro com flores brancas foram deixados na cena do crime
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    Flores e banho de sangue

    Um copo de vidro com flores do campo brancas foi deixado no lugar do crime, uma olaria desativada na estrada do bairro rural da Galera. Quatro dias depois do crime ainda é possível ver que se tratou de um banho de sangue. Os tijolos permanecem manchados. No local também o par de chinelos de couro preto usado por Flávia. Assim como um pedaço de pano rosa, semelhante a um lençol, usado pela homicida para cobrir o corpo. 

    Laudo do Instituto Geral de Polícia (IGP) aponta que Flávia morreu em decorrência dos cortes na barriga, ou seja, esvaiu-se em sangue. Além dos machucados na cabeça decorrentes de tijolaços, ela recebeu múltiplos ferimentos no pescoço e nos braços. Para poupar os familiares e preservar a memória da moça sorridente muito conhecida na cidade, o velório foi com caixão fechado. 

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    O drama ficou tatuado nas costas da bebê, atingidas pela lâmina cortante. No Cemitério Municipal de Canelinha a sepultura de Flávia destaca-se pela quantidade de flores. Foram tantas coroas que a funerária preciso de uma camioneta para transportar as homenagens.

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