A safra da tainha de 2026 motivou uma disputa jurídica em Santa Catarina. O governo estadual entrou com uma ação civil pública contra a União para suspender as cotas da pesca artesanal. O documento foi enviado na segunda-feira (15) e traz cinco argumentos para derrubar a limitação de pesca.

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O pedido tem o objetivo de anular os dispositivos da Portaria Interministerial MPA/MMA n.º 51/2026, documento que estabeleceu limites para a modalidade de arrasto de praia, método tradicional no Litoral catarinense. 

FOTOS: Como foi a safra da tainha em 2025

Os argumentos do governo de SC para derrubar a cota da pesca da tainha

Desigualdade na aplicação

O governo estadual afirma que a aplicação da cota de pesca no arrasto de praia apenas em Santa Catarina gera desigualdade e impõe um “mecanismo interventivo discriminatório que viola o pacto federativo”. Não existem limitações semelhantes para a mesma modalidade de pesca nos demais estados das regiões Sul e Sudeste do país. 

— Esse foi um questionamento que a secretaria sempre fez para o Ministério da Pesca, por que só Santa Catarina na modalidade de arrasto de praia tinha cota? Mas não tivemos resposta. Santa Catarina defende que não tenha cota para o arrasto de praia — opina o secretário-executivo de Estado de Aquicultura e Pesca, Fabiano Müller Silva.

Baixo impacto ambiental

Para o procurador-geral do Estado, Marcelo Mendes, a política de cotas para pesca da tainha ignora as peculiaridades regionais da atividade. 

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— Na prática, a persistência desse limite de capturas impõe restrições desproporcionais a uma modalidade de baixo impacto ambiental que é patrimônio cultural em Santa Catarina. Não podemos aceitar que a administração pública federal imponha restrições discriminatórias, baseadas em dados inconsistentes, que penalizam de forma injusta o pescador catarinense e ferem a autonomia do nosso estado — alega o procurador.

A pesca da tainha como patrimônio cultural imaterial

O governo do Estado também menciona o reconhecimento da pesca da tainha como patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina, dado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), em 2025.

Pesca da tainha foi retomada em Balneário Camboriú após cota extra (Foto: PMBC, Divulgação)

— Além de ser fundamental para a subsistência de famílias do Litoral catarinense, a pesca de arrasto de praia, uma das modalidades mais tradicionais do Estado, teve seu valor histórico oficialmente reconhecido — destaca a administração estadual.

Questão econômica

Segundo o procurador Marcelo Mendes, a suspensão da medida federal evitaria danos irreparáveis à economia e à cultura local, uma vez que os pescadores foram impedidos de trabalhar sem receber qualquer mecanismo de compensação financeira.

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— Mais um ano tivemos a cota sendo aplicada somente para os nossos pescadores de arrasto de praia aqui em Santa Catarina, afetando de forma negativa essa modalidade que tem anos de tradição e que faz parte da cultura do nosso estado, além do prejuízo aos nossos pescadores artesanais que ficam impedidos de pescar quando atingem a cota — disse o secretário Fabiano Müller Silva.

Passagem dos cardumes ainda havia atingido o auge

Ao apresentar a ação civil pública, o governo também afirma que o limite da cota teria sido atingido no auge da passagem dos cardumes pela costa.

— Este limite foi atingido em apenas 38 dias, o que provocou o encerramento abrupto da temporada de pesca no dia 7 de junho e frustrou a participação dos trabalhadores justamente no período em que há a maior passagem de cardumes pela costa do estado — alega o governo catarinense.

Por que só SC tem cota para pesca de arrasto de praia na safra da tainha?

O fim da safra na pesca por arrasto de praia reacendeu a discussão sobre a cota estipulada para a captura nesta modalidade. Ao contrário do sistema de cotas nos outros tipos de pesca de tainha, que começaram em 2018 visando garantir a proteção da espécie e evitar risco de extinção, a cota para o arrasto de praia foi definida pela primeira vez em 2025.

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A safra de 2026, portanto, é a segunda que ocorre com cota no arrasto de praia. No ano passado, o período de captura terminou sem que o limite máximo fosse atingido, com pouco mais de 1 mil toneladas pescadas. Neste ano, no entanto, a safra foi encerrada em apenas 38 dias, após a captura atingir 90% da cota, que havia sido ampliada em 20% em relação ao ano passado.

Um ponto que chama a atenção e que gera queixas de pescadores é que, no caso da pesca de arrasto de praia, a cota é válida exclusivamente para Santa Catarina. O motivo é que o Estado é onde a prática, considerada tradição cultural, é mais adotada.

Segundo informações da Secretaria de Aquicultura e Pesca do governo de SC, o estado catarinense é o único que tem a pesca de arrasto de praia regulamentada no Ministério da Pesca. Embora outros estados também tenham a prática da pesca de arrasto de praia, como Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, na prática eles não ficam sujeitos ao limite das cotas.

Em quanto tempo a supersafra virou suspensão?

A pesca extremamente ativa logo nas primeiras semanas de safra de 2026 teve efeito imediato: a modalidade arrasto de praia (marcada pelos grandes lanços de rede) chegou a 90% do limite da cota e foi suspensa pelo governo federal no dia 7 de junho.

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Pescadores e comunidade local atuam em conjunto na pesca (Foto: pinheirabeachdrones, Reprodução)

Para 2026, todos os formatos de pesca da safra tiveram aumento de 20% na cota. Confira os números impostos a modalidades diferentes do arrasto de praia, a princípio:

  • Captura no estuário da Lagoa dos Patos: 2.760 toneladas; pesca realizada no estuário da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, conforme regras específicas para essa área.
  • Emalhe anilhado: 1.094 toneladas; atuação restrita ao litoral de Santa Catarina; cada embarcação pode capturar até 15 toneladas, com tolerância extra de até 20%.
  • Emalhe costeiro de superfície: 2.070 toneladas; pesca permitida no litoral e em águas mais afastadas (ZEE) das regiões Sudeste e Sul.
  • Cerco/traineira: 720 toneladas; área de operação no litoral e em águas mais afastadas (ZEE) das regiões Sudeste e Sul do Brasil; cota é distribuída por embarcação.