O cofre ainda está lá. Pesado, metálico, com aquele charme antiquado de quem já guardou o dinheiro de uma cidade inteira, ele ocupa um canto do térreo do casarão na Rua XV de Novembro. Nos outros cômodos da residência, em uma ordem ao mesmo tempo cuidadosa e casual, estão vestidos de noiva, chapéus de feltro, maletas de couro, ferros de passar roupa e até uma casinha de boneca de 1914. O Museu de Hábitos e Costumes, em Blumenau, é o mais discreto da cidade, mas tende a surpreender e até chocar quem visita.
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“Os objetos dos museus, na maioria das vezes, são guardados em sótãos, malas, caixas… Ao saírem desses lugares e serem colocados à contemplação dos olhares dos visitantes, aqueles candelabros ganham luzes, os vestidos que não ditam mais a moda ganham movimentos, os sapatos percorrem jardins e estradas que hoje já não existem mais”, explica uma das placas informativas do local.

Conheça a história do prédio
O prédio que o abriga tem história suficiente para vários museus. Construído em 1898, foi residência e casa de comércio do cônsul alemão Gustav Salinger, descrito como “uma das forças vivas do comércio de exportação e importação” da então jovem colônia.
O pavimento superior era onde a família vivia. O térreo, onde os negócios aconteciam. Depois veio o Banco Nacional do Comércio, na década de 1930, e o cofre ficou como testemunha desse período. Depois, entre 1945 e 1993, o edifício sediou a Distribuidora Catarinense de Tecidos, a Dicatesa. Depois, uma cristaleira chamada Casarão dos Cristais, até 2003.
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A prefeitura comprou o imóvel em 2006 e o transferiu para a Fundação Cultural de Blumenau. Em setembro de 2010, o casarão virou o Centro Cultural Hélio Hanemann e, dentro dele, nasceu o Museu de Hábitos e Costumes. Tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual, o edifício em estilo neoclássico é um ponto de referência de chegada na cidade, um daqueles lugares que existem como ponte entre o passado e o presente.
A vida por trás do acervo
O acervo de 5 mil objetos veio, em grande parte, de uma mulher que passou a vida juntando o que os outros não costumavam prestar atenção. Diferente do Museu da Família Colonial, que foca nos períodos específicos de vivência dos fundadores de Blumenau, cada item pertence ao abrangente universo do vestir, costurar, brincar e orar vivenciado a partir do século 19.

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“Todos esses objetos, quando colocados em um museu, ganham vida, ganham alma. Ao serem ordenados e cuidadosamente colocados em vitrines, em expositores, saem do papel de coadjuvantes da história para se tornarem personagens principais de uma história muitas vezes ainda não contada. Esses objetos são capazes de juntar fragmentos que estavam espalhados no fundo de uma mala, fazendo com que lembranças esquecidas se tornem contadas”, outra placa elabora.
Ellen J. Weege Vollmer é trineta de imigrantes pomeranos que chegaram ao Brasil em 1868. Perdeu a mãe com um ano e meio e, por isso, foi criada pela avó em Pomerode. Depois veio para Blumenau estudar na Escola Alemã e foi adotada pela irmã do pai biológico, Cecilia Weege Lieschke.
Quando moça, estudou em São Paulo, trabalhou como secretária bilíngue na fábrica Dr. Oetker, voltou a Blumenau, se casou com Harald Vollmer em 1951, teve dois filhos, Gunnar e Ina, e acolheu uma menina, Rosima, como filha aos nove anos. Em viagens à Europa nos anos 1950, trouxe máquinas para montar uma fábrica de confecção de roupas íntimas e fundou a Maju Ltda. E, no meio de tudo isso, foi acumulando objetos.

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“Fui juntando as coisas, então me deu a ideia de juntar mais coisas antigas de todas essas pessoas que deixavam as casas e iam morar em apartamentos ou para ancionatos”, uma das placas informativas no museu traz o relato de Ellen.
O que você encontrará
O nome do acervo é “Abriram-se as malas” por conta da forma como o acervo foi guardado pela Ellen. Ela reuniu todos os objetos em 75 malas e utilizou saquinhos de pimenta do reino para conservação das peças. O que começou na infância virou um acervo de proporções históricas. Ellen doou praticamente tudo ao museu e uma placa bem na entrada do casarão reconhece isso: “Homenagem e gratidão à blumenauense Ellen J. Weege Vollmer pela dedicação em reunir e doar o acervo que agora ilustra a história desse novo museu”.

Dentro das vitrines, os objetos contam histórias que os livros raramente registram. Um exemplo isso é a maleta feita de couro de jacaré-do-papo-amarelo, datada entre os anos 1930 e 1940, pertenceu a Annegrete Karin Von Kounlauch. Não foi comprada em nenhuma loja, o jacaré era doméstico, da família.
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Quando o réptil morreu, o pai da doadora e arquiteto renomado da região, teria aproveitado a pele do animal para fazer a maleta. A filha, mais tarde, a usou como bolsa escolar, como contam as placas informativas na exposição.
A caixa de noivos é outro objeto que para o tempo no museu. Segundo a tradição pomerana, durante a festa de casamento, os padrinhos presenteavam os noivos com uma caixa de madeira emoldurada com vidro. À meia-noite, a grinalda da noiva e o buquê da lapela do noivo eram guardados dentro dela.
Na parte de trás, havia um compartimento camuflado em que cada cônjuge escondia um pequeno segredo do outro, fosse uma mecha de cabelo, uma flor ou até uma joia. O segredo só poderia ser revelado após a morte de um dos dois. A caixa exposta pertenceu a Heinrich Baumann e Maria Sievert, casados em 1903.
“Se cada um desses objetos conseguir despertar algum tipo de sentimento, saudade, espanto e até mesmo estranhamento, o museu já conseguiu cumprir com o seu papel, fazendo com que as pessoas reconheçam suas vidas nos fragmentos das histórias existentes nesses espaços. O museu é um jardim de memórias, com o desafio de fertilizar a vida de seus visitantes, contribuindo com as imbricações entre suas histórias passadas e as histórias que ainda serão contadas”, afirma uma das placas.
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A moda, que atravessa o acervo de ponta a ponta, não é tratada como frivolidade. Os trajes de banho, por exemplo, contam como Blumenau sempre teve uma relação intensa com o litoral. “Você vai descer neste final de semana?”, perguntavam os blumenauenses, e qualquer um sabia que “descer” era ir à praia. Os primeiros trajes de banho, da Belle Époque, pareciam macacões inteiros. Depois da Primeira Guerra Mundial, foram ficando mais aderentes ao corpo, feitos de material pesado como malha e lã. Nos anos 1930 surgiram os primeiros maiôs comportados, logo ameaçados, na década seguinte, pelo biquíni.
Nos anos 1940, chegaram os primeiros salões de beleza, quebrando o monopólio das barbearias no universo da vaidade. Nos anos 1950, as tinturas para cabelo viraram febre. Nos anos 1960, chapéus eram indispensáveis para as mulheres da alta sociedade. Nos anos 1970, o movimento hippie revolucionou tudo com jeans e cabelos compridos. Hoje, como diz um dos painéis do museu, “a moda não segue regras, mas tendências, tornando-se uma questão de personalidade e estilo”.

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Como visitar
É um museu pouco conhecido que, paradoxalmente, trata da história total de uma cidade. O Observatório de Turismo divulgou uma pesquisa que constatava qual seria o museu mais visitado de Blumenau e, para isso, monitorou sete atrações entre janeiro e outubro do ano passado, como mostrou o colunista Pedro Machado. O Museu de Hábitos e Costumes ficou em último lugar, com apenas 541 pessoas, enquanto o Museu da Hering, por exemplo, teve um público de 11.917 pessoas.
Lá, você encontrará um cofre que pertenceu a um banco e, hoje, guarda até linhas e agulhas de crochê, uma maleta feita do couro de um jacaré de estimação, uma caixa com segredos de casal guardados por mais de cem anos e centenas de objetos que alguém, em algum momento, achou importante o suficiente para não jogar fora. Ellen Vollmer foi uma dessas pessoas. O museu existe porque ela existiu e prestou atenção às coisas que o mundo deixou o tempo levar.

O Museu de Hábitos e Costumes fica na esquina das ruas Alwin Schrader e XV de Novembro, nº 25, no Centro Histórico de Blumenau. Funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 16h. O ingresso custa R$ 12 e a meia-entrada é R$ 6, com as devidas isenções. O espaço conta um elevador para acessibilidade.
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O local abriga exposições de longa, média e curta duração, com acervo pertencente ao museu e eventualmente de particulares. Escolares e outros grupos devem agendar previamente as visitas, não sendo cobrado ingresso nesse caso específico. O agendamento é feito pelo contato (47) 3381-7979 ou pelo e-mail museudafamiliacolonial@fcblu.com.br.


































































