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    "Nem no meu pior pesadelo imaginei isso", diz marido da mais jovem vítima de coronavírus em Joinville

    Juliana e a sogra, de 67 anos, ficaram internadas ao mesmo tempo na UTI do Hospital São José, e faleceram com 18 dias de diferença

    24/06/2020 - 19h46 - Atualizada em: 25/06/2020 - 07h50

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    foto mostra a jovem sorrindo para a câmera
    Juliana era natural de São Paulo, mas escolheu Joinville para ter uma vida melhor
    (Foto: )

    Nesta quarta-feira (24), Joinville registrou mais três mortes por coronavírus, incluindo a moradora mais jovem até agora. Juliana de Jesus Campos tinha acabado de completar 33 anos, em 18 de junho — data que passou internada na UTI do Hospital São José. Para o marido dela, Alessandro Santos, é um momento de perda de dois amores: a mãe dele, Maria das Graças Antônio dos Santos, também morreu por coronavírus em 5 de junho. Ela tinha 67 anos.

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    Juliana havia sido diagnosticada com lúpus há cerca de seis meses. A doença causava cansaço, inchaço e dores no corpo, e já havia provocado um problema no rim. Mesmo assim, Alessandro conta que nada disso a impedia de viver bem, acompanhar o crescimento das duas filhas, de 13 e 14 anos, e de continuar realizando os sonhos que eles tinham juntos há 16 anos, desde que começaram a namorar, em Itanhanhém, no interior de São Paulo. 

    — Mudamos para Joinville há cinco anos para buscar uma vida melhor, e estávamos conseguindo. Compramos um geminado na planta que vai ficar pronto daqui a um mês. Infelizmente, não deu tempo de ela morar lá — lamenta Alessandro.

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    Cativante de alma e coração, diz marido

    Juliana trabalhava como vigilante mas, depois que foi diagnosticada com lúpus, passou a dedicar-se à venda de bijuterias e outros acessórios pelas redes sociais. O marido conta que ela era cativante, a ponto de, ao contrair coronavírus, ter grupos realizando orações por ela em várias cidades do país.

    — Ela era cativante "de alma e coração". Era minha pilastra, e de toda a família. Nem nos meus piores pesadelos eu imaginei que poderia perdê-la — conta.

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    Semanas convivendo com o Covid-19

    Em maio, a mãe de Alessandro deixou São Paulo justamente para sair do local que era o epicentro da pandemia quando esta chegou ao Brasil. Após alguns dias, no entanto, ela começou a passar mal e todos os integrantes da família foram socorrê-la.

    — Não imaginamos que poderia ser coronavírus. Então, eu, minha esposa e minhas filhas, todos tivemos contato com ela — recorda Alessandro.

    Maria da Graça foi para o Hospital São José e, dois dias depois, foi diagnosticada com coronavírus. Dois dias depois, Alessandro também começou a sentir-se mal e também precisou ser internado no Hospital São José. Os médicos chegaram a cogitar o uso dos respiradores, mas Alessandro conseguiu evoluir e pôde voltar para casa para concluir o período de tratamento e isolamento.

    No entanto, dois dias depois de ele retornar do hospital, foi a vez de Juliana começar a apresentar os sintomas da Covid-19. 

    — Ela começou a sentir falta de ar e foi internada. O teste positivo veio dois dias depois e, no terceiro dia, informaram que precisavam entubá-la com urgência. Foi a última vez que falei com ela, por vídeo conferência — conta o marido.

    Enquanto isso, as filhas de Alessandro e Juliana também testaram positivo para coronavírus, mas puderam permanecer em casa. Elas viveram a experiência de perda de paladar e olfato, sintomas da doença, enquanto tinham mãe e avó internadas na UTI de Covid-19. Maria da Graça faleceu em 5 de junho, enquanto Juliana ainda lutava pela vida no hospital.

    — Não pude ver minha mãe, nem mesmo seu caixão. É muito ruim a sensação de não saber se é a pessoa mesmo que está lá, de não poder se despedir — explica Alessandro.

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    Marido conseguiu se despedir na UTI

    Menos de duas semanas depois, ele recebeu a ligação mais inesperada de todas. Apesar de seu quadro ter evoluído por um tempo, Juliana estava 100% dependente dos respiradores. A informação veio carregada por um luto prévio: Alessandro já sabia que estava também perdendo a esposa.

    Depois de tantas semanas convivendo com a Covid-19 e já sendo um "conhecido" da UTI do São José, Alessandro recebeu uma autorização que não é comum: ele pôde entrar na unidade para ver a esposa pela última vez, um dia antes da morte de Juliana.

    — Os médicos viram minha situação, de como perdi minha mãe. E acho que, como já havia contraído a doença, eles puderam autorizar minha entrada. Foi muito bom poder me despedir, alivou um um pouco a dor. É uma pancada muito, muito grande — recorda.

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    Joinville tem 33 mortes por coronavírus

    Nesta quarta-feira, Joinville chegou a 33 mortes por coronavírus em menos de três meses. O primeiro óbito na cidade foi do empresário Mário Borba, em 30 de março. Ele tinha 68 anos. A maioria dos pacientes que morreram por causa da doença tinha mais de 60 anos, exceto pelos técnicos de enfermagem Claudiomiro Silveira Rattis, de 44 anos; e Lúcia Isolde Rocha Henrique, de 56 anos; e por outro morador que morreu nesta semana, que também tinha 56 anos.

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