O Brasil chega ao Oscar mais uma vez com um filme forte na disputa. Indicado em quatro categorias, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, chega à cerimônia do próximo domingo (15) com a possibilidade de fazer dobradinha com “Ainda Estou Aqui”, que no ano passado garantiu ao país seu primeiro Oscar.
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O longa brasileiro concorre a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Seleção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura — uma categoria a mais do que o filme de Walter Salles disputou na edição anterior.
No entanto, apesar de ter mais indicações, “O Agente Secreto” chega à premiação com menos chances de vitória do que “Ainda Estou Aqui”. Em 2025, o longa protagonizado por Fernanda Torres era favorito na categoria de Melhor Filme Internacional, enquanto o filme com Wagner Moura entra na premiação deste ano sem liderar nenhuma das categorias em que está indicado.
O motivo não tem nada a ver com as qualidades de ambos os filmes, mas com os contextos das campanhas. No ano passado, o principal concorrente de “Ainda Estou Aqui” na categoria de Filme Internacional, “Emilia Perez”, sofreu uma derrocada na reta final da campanha após falas problemáticas da atriz Karla Sofía Gascón se tornarem públicas, o que abriu caminho para a vitória brasileira.
Desta vez, o cenário é diferente. Na categoria de Filme Internacional, por exemplo, “Valor Sentimental”, do diretor norueguês Joachim Trier, manteve o favoritismo ao longo de toda a temporada. Já na categoria de Melhor Ator, Wagner Moura talvez não seja o maior beneficiado pelos tropeços de seu concorrente Timothée Chalamet, do filme “Marty Supreme”.
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Campanha é chave para sucesso no Oscar
Segundo Márcio Rodrigo, professor do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, o desempenho de um filme no Oscar depende cada vez mais da força de sua campanha nos Estados Unidos.
— No ano passado, por exemplo, “Ainda Estou Aqui” foi distribuído pela Sony, que é uma das grandes majors que operam em Hollywood e no mundo. E isso fez com que a campanha fosse muito acertada, especialmente a escolha de Fernanda Torres como porta-voz do filme, correndo atrás de conversar com a imprensa, estar nos eventos de cinema com a classe cinematográfica para promover “Ainda Estou Aqui” — recorda.
O professor lembra que, neste ano, a distribuidora Neon, responsável por “O Agente Secreto”, também divide esforços com “Valor Sentimental”.
— De certa maneira, isso fez com que a campanha de “O Agente Secreto” nos Estados Unidos fosse um pouco mais tímida do que foi “Ainda Estou Aqui” no ano passado — diz.
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Ainda assim, a campanha brasileira ganhou força nas últimas semanas e mantém a possibilidade de um novo momento histórico para o cinema nacional. Segundo cineasta catarinense Zeca Pires, parte da força do filme está na combinação entre tema e elenco.
— O ponto forte de “O Agente Secreto”, ao meu ver, é o excelente elenco e o tema da ditadura extraordinariamente bem conduzido na abertura do filme, no posto de gasolina, com aquele cadáver exposto sem quem ninguém desse a mínima atenção. Nessa cena, Kleber Mendonça revela e contextualiza a época da depressão militar, da ditadura. Wagner Moura no auge da sua bela trajetória — afirma.
Veja fotos de “O Agente Secreto”
O que pesa a favor de “O Agente Secreto”?
Segundo colocado em Filme internacional
A categoria de Melhor Filme Internacional se desenha como uma disputa entre “Valor Sentimental” e “O Agente Secreto”. Um levantamento da revista The Hollywood Reporter, publicado na última segunda-feira (9), baseado no histórico da premiação e em avaliações da crítica, coloca o drama norueguês com cerca de 42,9% de chances de vitória, contra 27,4% do brasileiro.
O filme de Joachim Trier aparece à frente nas previsões. Venceu o Bafta e recebeu nove indicações ao Oscar. Já “O Agente Secreto” venceu o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, mas recebeu quatro indicações ao maior prêmio de cinema do mundo.
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O professor da ESPM Márcio Rodrigo pontua que o tema de “Valor Sentimental” possa ter maior apelo com os votantes:
— É um filme mais universalista, um drama familiar, como “Ainda Estou Aqui”, que acabou ganhando o filme de melhor Oscar de Filme Internacional em 2025.
A margem, no entanto, não é intransponível. Nas últimas semanas, a distribuidora Neon intensificou a campanha de “O Agente Secreto” entre votantes da Academia, divulgando o slogan “Take a stand” (“Tome um lugar”, em tradução livre), reforçando o tom político do filme brasileiro. Isso pode ter efeito entre membros que deixam para assistir a parte dos indicados depois do anúncio das nomeações.
Chance em Seleção de Elenco
A categoria de Melhor Seleção de Elenco estreia neste Oscar. O favorito nas projeções é “Pecadores”, que venceu o prêmio de elenco do Actor Awards (antigo SAG) e aparece com cerca de 61% de chances, conforme a The Hollywood Reporter. Já “O Agente Secreto” aparece na última posição entre os indicados principais, com 4,5% de probabilidade.
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Ainda assim, o conjunto de personagens é justamente um dos pontos fortes do filme. O professor da ESPM avalia que a categoria é a melhor oportunidade para o filme brasileiro.
— Existe uma vantagem que é uma dobradinha no elenco: de um lado Wagner Moura, que hoje é um ator de grande trânsito em Hollywood, com a carreira cada vez mais consolidada e respeitada nos Estados Unidos, e o fenômeno Tânia Maria, uma atriz de quase 80 anos, que despertou muito a atenção da imprensa especializada norte-americana — elogia.
Melhor Ator é a maior disputa do Oscar
Já a corrida de Melhor Ator é uma das mais acirradas do Oscar 2026. Durante grande parte da temporada, o favorito foi Timothée Chalamet, por “Marty Supreme”, premiado no Globo de Ouro e no Critics Choice Awards. Esse cenário mudou nas últimas semanas após a vitória de Michael B. Jordan, por “Pecadores”, no Actor Awards, e de Robert Aramayo, por “I Swear”, no Bafta.
As derrotas de Chalamet nas duas premiações podem ter relação com a postura dele durante a campanha ao Oscar, vista por muitas pessoas como “arrogante”. Recentemente, por exemplo, o ator afirmou que “não gostaria de trabalhar com balé e ópera”, que segundo ele estão morrendo e com as quais as pessoas “não se importam”. A declaração causou reação no meio artístico americano.
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Com a disputa mais aberta, Wagner Moura aparece como uma alternativa. Apesar de não ter sido indicado ao Actor Awards e ao Bafta, o brasileiro venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e saiu vitorioso na categoria de drama do Globo de Ouro.
A projeção da The Hollywood Reporter coloca Michael B. Jordan com 32,2% de chances, Chalamet com 31,3% e Moura com 20,3%.
— O comentário desastroso do Timothée Chalamet, que repercutiu nos fins de semana nas redes sociais, embolou tudo. Eu acho que o Wagner não tem chance como ator, embora seja muito respeitado lá fora — resume Márcio Rodrigo.
Poucas chances em Melhor Filme
Já na categoria principal da premiação, “O Agente Secreto” é coadjuvante. Desde o início da temporada, o favoritismo é de “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, que venceu o prêmio do Sindicato dos Produtores (PGA) e o Globo de Ouro.
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Nas últimas semanas, “Pecadores” ganhou força, após conquistar o prêmio de melhor elenco no Actor Awards e impulsionar a campanha de Michael B. Jordan.
Veja quem concorre com “O Agente Secreto” no Oscar
Melhor Filme
- Uma Batalha Após a Outra
- Pecadores
- Marty Supreme
- O Agente Secreto
- Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
- Valor Sentimental
- Frankenstein
- Bugonia
- Sonhos de Trem
- F1
Melhor Filme Internacional
- Valor Sentimental (Noruega)
- Foi Apenas um Acidente (França)
- O Agente Secreto (Brasil)
- Sirat (Espanha)
- The Voice of the Hind Rajab (Tunísia)
Melhor Ator
- Leonardo Di Caprio (Uma Batalha Após a Outra)
- Timothée Chalamet (Marty Supreme)
- Wagner Moura (O Agente Secreto)
- Michael B. Jordan (Pecadores)
- Ethan Hawke (Blue Moon)
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Melhor Seleção de Elenco
- O Agente Secreto
- Hamnet
- Marty Supreme
- Uma Batalha Após a Outra
- Pecadores
Veja o trailer de “O Agente Secreto”
Qual a história de “O Agente Secreto”?
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” se passa no final dos anos 1970, em meio ao regime militar. Moura interpreta Marcelo, um professor universitário e especialista em tecnologia, que volta ao Recife, sua cidade natal após anos afastado, fugindo de seu passado misterioso.
Contudo, a calmaria que buscava na capital pernambucana se transforma em um ambiente de constante vigilância e ameaça.
Tentando obter informações sobre sua falecida mãe, trabalhando disfarçado em um cartório, Marcelo se refugia num “aparelho”, onde estão escondidos dissidentes políticos e outras figuras marginalizadas. No thriller, ele acaba envolvido numa rede de espionagem e conspirações.








