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    O lado positivo

    O que aprendemos com a pandemia?

    Conheça histórias de pessoas que mudaram a rotina com a chegada da Covid-19, famílias que se aproximaram mesmo com o isolamento e cidadãos que resolveram ajudar o próximo

    20/09/2020 - 07h00

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    Por Janaína Laurindo
    Alessandra Malischeski usou a pandemia como mola propulsora para abrir seu próprio negócio.
    Alessandra Malischeski usou a pandemia como mola propulsora para abrir seu próprio negócio.
    (Foto: )

    A pandemia provocou enormes mudanças na rotina de todos no Brasil. Há seis meses, algo até então impensável se tornou a única opção comprovada por cientistas para conter o avanço do novo coronavírus: o isolamento. Ficar dentro de casa, afastado de pais, mães, avós, é algo doloroso, que aperta o peito, quase sufoca. Mas nada se compara a quem perdeu familiares, amigos, colegas de trabalho. Infelizmente, a Covid-19 nos levou até agora mais de 134 mil vidas - são mais de 4 milhões de casos confirmados no país. Porém, o que aprendemos nestes seis meses?

    Fomos em busca de resposta a essa pergunta. E não foi surpresa que encontramos pessoas engajadas, solidárias, cidadãos que respeitam o próximo. 

    Paramos e observamos os detalhes

    A professora e filósofa Lúcia Helena Galvão avalia o que aprendemos com a pandemia. Para ela, o fato de pararmos a correria do dia a dia e de sermos tocados pelas circunstâncias nos faz ter um olhar intensificado sobre a vida e sobre todos os detalhes daquilo que nos circunda, inclusive sobre nós mesmo. 

    – Temos um vício complicado em nossas vidas, sabemos que a vida é dual, mas caímos em uma alienação e uma reatividade, ou seja, estamos sempre preparados para atacar, e essa postura só enxerga o pior de tudo. Nesse momento, pudemos parar um pouco e observar a beleza nos detalhes.

    Vivemos um momento de perdas irreparáveis. Nesse cenário muitas vezes é um exercício complexo fazer uma avaliação com uma lente positiva, afirma Lúcia. São ações pequenas na rotina que nos trazem com mais clareza o lado positivo daquilo que estamos enfrentando.

    Adaptar e empreender para mudar de vida 

    Adaptação também foi o ponto de partida para a podóloga Alessandra Malischeski. Funcionária em uma estética no início da pandemia, a profissional que é mãe, sentiu a necessidade de abrir o seu próprio negócio. A falta de transporte público e das aulas presenciais da filha, Júlia, de 6 anos, foram a mola propulsora para que seu espaço saísse do papel. 

    – A procura por atendimento de mão de obra qualificado me deixou mais segura, pois já tenho 10 anos de experiência e uma vasta clientela – diz Alessandra, que montou o espaço Santa Mão Podologia a poucas quadras de sua residência, o que facilitou a logística de sua rotina com a filha. 

    Além de estar mais próxima de casa, ela passou a levá-la e a tomar todos os cuidados. Alessandra celebra o retorno positivo da clientela, mas aponta que ainda há muito a melhorar em relação ao olhar para os pequenos negócios. 

    – Infelizmente, a desvalorização de serviços de pequenas empresas ainda afeta muito o microempreendedor. Mas a qualidade e garantia do meu atendimento, ainda é o melhor que tenho a oferecer – finaliza. 

    Alessandra foi uma das pessoas que enxergou na crise um caminho para colocar seu objetivo do negócio próprio em prática. 

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    – Muita gente, ao invés de ficar paralisada, caminha dentro da crise. O que eu quero dizer com isso, não estou querendo dizer para que você saia de sua casa, não se trata disso. Mas caminhar dentro da crise significa crescer dentro do espaço que o isolamento nos dá – frisa a filosofa Lúcia Helena, que acrescenta:

    – O caminhar dentro da crise faz com que a gente vá treinando a musculatura, por exemplo, da generosidade, que vai ser muito necessária quando tudo isso terminar. Quando terminar teremos a nossa porta uma crise econômica, social, política, que vai ser delicada. Não é difícil da gente concluir que só sairemos dessa juntos.

    Proximidade com a família

    Para o professor e coordenador do curso de Designer da Faculdade Energia, Tiago Mattozo, os dias sempre foram muito corridos, em uma rotina que o deixava por muito tempo longe de casa. São os almoços diários em família que serão memória deste período de pandemia. Tiago e a esposa, Manoella, são pais de Olívia, 4 anos, e Ricardo, que tem menos de um mês de vida. Ele reconhece o que a falta da vivência escolar, por exemplo, e a convivência com outras crianças podem trazer reflexos na vida da filha futuramente. Mas enxerga também o outro lado de estar dividindo tantos momentos em família. 

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    Tiago, a esposa, Manoela, e os filhos Olívia e Ricardo
    Tiago, a esposa, Manoela, e os filhos Olívia e Ricardo
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    – Tirando a gestão de várias pessoas dentro do mesmo espaço durante muito tempo, tem sido importante essa aproximação com ela. A gente está sempre tão corrido, que acaba vendo pouco os nossos filhos. Estamos, por exemplo, tendo a oportunidade de almoçar em família, coisa que não tínhamos antes – diz.

    Otimismo

    Tiago é um otimista e lembra de uma passagem do livro do colunista Marcos Piangers, “Papai é Pop”, em que o autor fala dessa característica dos pais, que mesmo em cenário pessimista, ainda assim se arriscam a trazer pessoas novas para o mundo e, por meio delas, mudar a realidade. 

    – Tento ter esse olhar positivo. Eu brinco, dá o mesmo trabalho. Particularmente tenho vivido essa intensa proximidade e interação com a família. Os almoços, o estar junto à mesa compartilhando uma refeição. Isso tem me marcado. Era muito difícil e quando conseguimos era corrido e na rua.

    Compartilhar e adquirir conhecimento

    Ainda que se questione a forma de transpor o universo do ensino à distância para a educação básica, período em que a presença física faz diferença no processo de aprendizagem, ou até mesmo para ensino fundamental e médio, as aulas on-line parecem ser um ganho para o ensino de línguas. Pode ser, portanto, outro ponto que positivo que aprendemos na pandemia. Adquirir o conhecimento em uma nova língua foi um dos planos colocados em prática durante a quarentena. Se antes os cursos on-line ainda sofriam alguns questionamentos, no momento de isolamento social foram fundamentais para que muitos retirassem do papel esse desejo. A professora particular de inglês Daniella Rousset Medici viu o número de alunos quase triplicar. 

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    – Percebi uma alta significativa no número de alunos, gente que resolveu tirar planos da gaveta e aproveitar o tempo extra e, também, gente que perdeu o emprego ou que está em risco de perder e não teve outra chance, precisou investir no inglês com emergência – conta. 

    Para Daniella, que já trabalhava com as aulas on-line, a adaptação foi imediata. Mas ela diz que antes da pandemia buscou um emprego presencial, pela necessidade de um maior contato. A filha Alice, 9 anos, que estuda em escola pública e está sem vídeo aula, apenas com atividades e alguns eventos digitais da turma, aproveita o tempo livre para adquirir um novo conhecimento. Foi matriculada em um curso de programação de jogos, algo que ela já se interessava. 

    Daniella e a filha Alice, de 9 anos, que iniciou um curso de programação de jogos
    Daniella e a filha Alice, de 9 anos, que iniciou um curso de programação de jogos
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    – Eu que não ganhei tempo para fazer curso nenhum, porque graças a Deus o meu trabalho quase triplicou e eu estou aproveitando muito essa onda de aprendizado online. São três coisas que a pandemia acelerou: o aprender – se aprimorar para o futuro –, o aprender on-line, e o aprender inglês, que é algo tão importante para quem quer viver em um mundo tão globalizado. 

    Para a estudante de moda da Faculdade Estácio de Sá de São José, Letícia Benelli, 2020 era o ano de colocar em prática seu projeto desenvolvido em seu Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de muita pesquisa e desenvolvimento, o Traçando História, seria iniciado em maio. Aulas de trabalhos manuais seriam executadas em um projeto social desenvolvido na Passarela Nego Quirido. O isolamento proporcionou uma adaptação do projeto para o ambiente virtual, que ampliou o seu alcance. 

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    – Fui atrás do que poderia fazer para não deixar de implantar, mas também sem mudar a essência do projeto. Então, em paralelo iniciamos as aulas no Instagram, o que tem proporcionado uma conexão com outras professoras, com mulheres que querem compartilhar técnicas que conhecem, não só o crochê, que era a minha ideia inicial – conta Letícia, que comemora o alcance de mais pessoas.

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