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    Entrevista

    “Podemos tirar grandes lições de convivência solidária da pandemia do coronavírus”, diz Mario Sergio Cortella

    Filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário fala sobre como podemos encarar a pandemia e avançar como sociedade, assim como outros países fizeram no século passado

    28/03/2020 - 13h00 - Atualizada em: 28/03/2020 - 13h17

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    Everton
    Por Everton Siemann
    (Foto: )

    Aos 66 anos, Mário Sergio Cortella é um dos grandes pensadores do Brasil. Filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário, o paranaense move multidões nos eventos em que é convocado e descreve como poucos o jeito de pensar e agir das pessoas, a partir dos 45 anos de experiência no mundo acadêmico.

    Por telefone, ele atendeu a reportagem na manhã da última terça-feira. Com a calma e o bom-humo tradicional, respondeu às perguntas, falou sobre o egoísmo, o caráter (ou até mesmo a falta deles para muitas pessoas), o distanciamento social, os relacionamentos interpessoais e viajou no tempo e buscou fatos históricos para tentar contextualizar o momento inédito que atravessamos com o coronavírus. Num misto de esperança e desconfiança, vê uma possibilidade de crescermos como sociedade a partir da pandemia:

    – Não é que eu tenho uma expectativa pessimista, mas acho que é necessário que a gente aprenda de vários modos, nos vários tempos e aí nós vamos seguindo até um outro momento – diz ao relembrar de casos como Japão e Alemanha, no século passado.

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    Questionado sobre os boatos e fake news que circulam em meio ao pânico das pessoas por conta do novo vírus, o filósofo foi duro com quem cria ou dissemina boatos:

    O vírus por si mesmo já é suficiente para nos ameaçar, para nos assustar, para nos colocar em estado de absoluta atenção. Por isso, evite acrescentar ao vírus mais esse malefício. Em última instância, não seja parceira ou parceiro do vírus.

    Ao final da entrevista, revelou ter laços com Santa Catarina: a filha dele e os netos vivem em Florianópolis, em uma das praias do Sul da Ilha. Sobre a proibição de ir à praia, por conta do isolamento social, o cientista brincou com a temperatura das águas:

    – Proibir a ida às praias agora em Santa Catarina é só uma medida cautelar. Já deveriam ter sido antes, por conta das águas geladas.

    Confira na entrevista a seguir o que mais disse Cortella:

    Sob o aspecto da filosofia, o que a pandemia do coronavírus pode nos ensinar?

    Primeiro mostrar a nossa pequenez. Isto é, o quanto, que apesar de toda a nossa capacidade, nossa autoimagem, nossa percepção, nós termos clareza em relação ao quanto a nossa fragilidade humana é expressiva. É uma lição de humildade em ralação àquilo que a gente não sabe, e também em relação ao poder que a gente imagina ter. Em segundo lugar, a outra lição grande que a filosofia nos dá é a importância de nós percebermos também que a união das nossas capacidades pode nos permitir lidar com aquilo que parece invencível. Embora nesse momento, sem dúvida, a gente tenha a agonia imensa de não ter ainda uma perspectiva mais nítida de solução, ainda assim nós coletivamente ainda não desistimos. Então, de um lado a gente a lição da humildade em relação ao nosso lugar na vida coletiva, e do outro a importância da junção das nossas inteligências para que a gente encontre sempre alternativa.

    Temos visto e foi noticiado atos egoístas de muitas pessoas desde que a pandemia do coronavírus chegou ao Brasil e medidas extremas começaram a ser adotadas pelas autoridades, seja de comerciantes que majoraram preços de produtos de saúde, ou simplesmente pessoas desobedecendo os protocolos de prevenção. Por que o ser humano é egoísta? Como a filosofia vê e explica esse fenômeno?

    A pandemia faz com que as pessoas revelem o caráter que no dia a dia já desempenham. De uma maneira mais direta, as pessoas concretamente, qualquer um e qualquer uma de nós, se mostram de fato nas crises. É a crise, o momento do abalo, no momento da dificuldade que mostra se alguém de fato é decente, se é valoroso, se é valorosa ou se é indecente e tem valia alguma porque se aproveita do desespero alheio para obter uma vantagem individual. A ideia de egoísmo é sempre uma escolha, exceto quem tem alguma perturbação psiquiátrica e portanto, não tem controle sobre esse tipo de atitude, para as outras pessoas a inveja, a soberba, a ideia do poder que se acumula sem nenhum tipo de restrição, ela é uma decisão, uma escolha.

    Nós podemos, e você pergunta por que nós o somos egoístas, é porque nós podemos sê-lo. Nós podemos também não sê-lo. Por isso, é sempre uma decisão. A possibilidade daquilo que é a virtude e daquilo que é o vício resulta da nossa liberdade. Se livre não fôssemos não haveria possibilidade nenhuma de a gente fazer um juízo de natureza ética sobre essa questão. Há pessoas que se mostram agora aquilo que no dia a dia de fato realizam.

    Por outro lado, claro, quando nós conseguirmos, e conseguiremos, ultrapassar essa tormenta, é preciso que as pessoas imaginem que elas continuarão nas suas comunidades, nos seus lugares, nos seus negócios e claro serão vistas também, serão avaliadas, serão julgadas pelo que fizeram na hora da dor coletiva, e aí não é o momento da vingança, mas é o momento da justiça.

    Por outro lado, também vemos muitos exemplos de solidariedade e grandes demonstrações de humanismo em diversos lugares do país e do mundo. Passado o período de combate à pandemia do coronavírus, nos tornaremos mais fortes como sociedade?

    Seria muito bom. Nós já tivemos outros momentos de tormenta na história humana, tivemos grandes guinadas em relação aquilo que vitima, machuca, ofende a humanidade ou pessoas, mas nem sempre essas lições são todas elas tomadas como sendo mais duradouras. Mas nós temos exemplo sim de mudanças de solidariedade, haja vista a sociedade nipônica, que saindo da Segunda Guerra Mundial, em 1945, como um dos algozes naquilo que foi o movimento imperialista de expansão japonesa, estruturou uma sociedade onde a presença do ordenamento, da capacidade de convivência mais disciplinada, ela se tornou ali uma marca muito forte. Há também a presença da Alemanha, a grande vilã do século 20, em função da prática do nazismo, que hoje no século 21 é uma das nações que mais dá lições em relação à acolhida a refugiados, ao modo de expansão da solidariedade. Portanto, muitas vezes as lições são aprendidas.

    Mas em outras vezes não. O século 20 marcou momentos de extrema turbulência, de extrema forma dolorida de existir e nem sempre se aprendeu com toda nitidez, com toda clareza. Por isso, a minha expectativa é que a gente possa sim tirar daí grandes lições de convivência solidária, mas não acho que será uma conduta que seguirá de modo contínuo. Porque nós somos capazes, inclusive, de deixar para trás, de esquecer aquilo que foram lições que a história nos deu. Não é que eu tenho uma expectativa pessimista, mas acho que é necessário que a gente aprenda de vários modos, nos vários tempos e aí nós vamos seguindo até um outro momento.

    Além da questão de saúde, a pandemia do coronavírus afeta a rotina do mundo de outras formas, em especial economicamente. Como fazer para que isso não nos afete mentalmente? Como lidar com isso?

    Talvez recuperando aquilo que os nossos avós, em Santa Catarina ou no Paraná, onde nasci, ou em São Paulo, onde vivo, diziam: “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.

    Desse ponto de vista, claro, nenhuma maldade e nenhuma bondade são definitivas. A palavra ‘nunca’ e a palavra ‘sempre’ elas não têm aplicação nem para a ciência, nem para o amor, nem para a história. São três áreas em que elas não têm validade. Nesse sentido, há a necessidade de nós olharmos esse momento como um momento absolutamente inédito em termos de dimensão, afetação e informação, mas nós teremos consequências que, sem dúvida e infelizmente, vão ultrapassar a temática do vírus e da saúde.

    É preciso desde já e não para o depois que se possa tomar providências em relação as pessoas que são e serão mais afetadas em relação a sua capacidade de alimentação, de saúde, de sobrevivência, de guarida. Nós temos muita gente espalhada não só pelo mundo, mas no nosso país também, que esta pandemia vai afetar a sobrevivência do dia a dia. É tentar ficar vivo dia após dia independentemente do vírus, independentemente de ser sido contaminado ou não. Por isso, é necessário montar um mecanismo em que uma nação inteira seja capaz de cuidar dos seus desvalidos, tal como deseja e precisa cuidar dos seus contaminados, seja de onde vierem.

    Há algum tempo se estuda e fala-se muito sobre o isolamento digital da atual geração. O fato de as pessoas estarem sem ligadas umas às outras on-line, mas distantes fisicamente. De que forma o fenômeno que estamos vivenciando por ajudar a mudar isso?

    Guimarães Rosa diz que “o sapo não pula por boniteza, ele pula por precisão”. Nesse sentido esse tipo de mudança de mentalidade será muito mais precisão. De repente, nós tomamos nos últimos três meses um susto, um espano imenso em relação a algumas das nossas certezas e alguns dos modos de vida. Outro dia vi uma reflexão muito apropriada que dizia que “hoje há uma facilitação muito grande para quem é mais jovem, porque já é habituado ao mundo digital, mas ele tem uma dificuldade imensa de ficar dentro de casa sem alguma atividade. E para os mais idosos, que é o meu caso, uma facilitação maior na medida em que a paciência já veio sendo exercida durante a vida, e segundo, mais habituados a ficar no mundo da TV, e menos no mundo digital”. Portanto, são momentos em que os aprendizados serão recíprocos.

    Mas, acima de qualquer coisa, a tecnologia hoje tem, como sempre e qualquer coisa, uma dupla face. Permite que a gente se conecte, tal como no dia a dia permite que a gente se distancie fisicamente. Agora, sem ela, sem essa tecnologia, nós estaríamos em um nível de agonia muito maior do que estamos. Hoje, o fato de que muitos conseguem fazer o tele trabalho, o trabalho a distância, várias pessoas conseguem pelo menos ver as pessoas com quem tem um laço afetivo, é nessa hora que a dupla face pode vir a tona.

    A tecnologia que permitiu que o vírus atravessasse o planeta inteiro em algumas semanas é a mesma que permite que a gente seja capaz de coletivamente ganhar uma esperança nessa trajetória, que é turbulenta, é difícil, absolutamente agoniante, mas não é de maneira nenhuma invencível.

    O isolamento social vai servir para reaproximar as pessoas e fortalecer esses laços? Ou não, vai enfraquecer de vez, com cada vez mais gente ligada no mundo virtual?

    Acho que o isolamento social tem hoje conseguido alguns ganhos, entre eles pessoas que primeiro não se conheciam tanto dentro da sua própria casa e vão ter que fazê-lo, vão ter de aprender, de vivenciar essa experiência de uma forma de presença mais direta, que não admite a fuga.

    Não há para onde fugir, porque o próprio uso do mundo digital ele tem um limite, num determinado momento dado a convivência contínua num mesmo território. Segundo, claro que pessoas que têm uma disponibilidade prévia a não admitir a ruptura dos modos de convivência vão insistir nisso. Pessoas que já têm, a tendência a uma forma de exclusividade, um certo desprezo ao contato afetivo, elas não aprenderão talvez essa lição. A menos que o susto seja muito maior do que a comodidade que encontram no dia a dia.

    É comum as pessoas buscarem um culpado para tudo o que acontece de errado. No momento, há quem culpe os chineses por conta do coronavírus, já que a epidemia iniciou no interior do país asiático. Isso, de certa forma, ajuda a abrir o porão de sentimentos ruins das pessoas, como a xenofobia, por exemplo. Por que o ser humano age assim? O que a filosofia diz disso?

    Que aquele que vem de fora, o xenus, no grego antigo, origem do termo xenofobia, aquele que vem de fora pode ser um visitante ou um inimigo. Pode ser um comerciante ou um adversário, um invasor. E nesse sentido, nem sempre se imagina que a pessoa que está fora do nosso modo de ser, de conviver, ela seja amigável o tempo todo. Haja vista que quando nós nos referimos a eventuais contatos com seres de outros locais do universo, de outros planetas, uma das primeiras perguntas é: “Será que são amigos? Amigáveis? Visitantes ou invasores?”.

    Essa é uma questão séria, afinal de contas quando a gente olha aquele que ão é da nossa comunidade, da nossa família ou para usar uma expressão mais antiga, da nossa tribo, a tendência é ter alguma estranheza. Não é casual que no idioma inglês se usa a palavra “stranger”, não só “foreign” (aquele que vem de fora), mas “stranger” também, aquele que é estranho. Nesse sentido, não tenho dúvida que esse tipo de acusação que se faz a uma parte dos asiáticos é movida por um desconhecimento inclusive do que é que significa uma caminhada de um vírus dessa natureza e por outro lado sobre o que significa concretamente responsabilidade.

    Até hoje a Espanha paga pela gripe espanhola, que não começou lá. Começou nos Estados Unidos. Portanto, esta forma de encontrar alguém que possa ser “crucificado” acalma algumas pessoas, porque pode com isso fingir que não tem responsabilidade.

    E é claro que nessa hora tudo que é estranho vem a tona. Se você olha o europeu que colonizou este território chamado Brasil nos 520 anos mais recentes, ele chamava quem vivia na cidade de cidadão e quem vivia no campo, que já estava aqui, de selvagem. Aquele que viva na selva. Nesse sentido é claro que sempre se teve a possibilidade de uma interpretação excludente daquelas pessoas que não são do mesmo grupo, da mesma família.

    O que talvez o coronavírus rompa um pouco. Porque afinal até o símbolo maior de convivência global, que é a Olimpíada, ao ter o eu adiamento mostra que a gente pode até adiar a Olimpíada com todos os seus arcos entrelaçados, mas não podemos romper os arcos entrelaçados de convivência da humanidade, porque sozinhos e sozinhas nenhum de nós sobreviverá.

    Como você lida com as fake news ou os boatos que surgem em momentos de medo e comoção com o atual, por conta do coronavírus? Você recebeu algo do gênero?

    Sou acadêmico, estou no campo do ensino há 45 anos, que atuo com pesquisa, com estudo. Quem lida nessa área, e não é por nenhum tipo de privilégio ou nenhum tipo de inteligência superior, coisa que não tenho, tenho sempre uma desconfiança metodológica. Nem sempre a gente acolhe a primeira impressão. Porque a primeira impressão ela pode estar equivocada de maneira exuberante. Por isso, no meu caso específico, por estar neste ramo de atividade, tudo aquilo que recebo, uma parte que se demonstra incorreto, submeto a alguns crivos, alguns critérios, antes de divulgar.

    Primeiro, olhar e ver se fato aquilo faz sentido ou apenas coincide com algo que eu desejava. Segundo, buscar a fonte de emissão daquela notícia. Ver se ela tem confiabilidade. E a confiabilidade vem quando ela prova na sua trajetória anterior, seja recente ou mais antiga, que toma cautelas em relação à veracidade daquilo que expressa e divulga. Terceiro, fazer um cotejamento, dado que a tecnologia digital permite isso, com outras fontes. E claro, em quarto, aguardar um pouco até que aquilo que eu recebo que pareceu nojento ou absolutamente encantador que se tenha o tempo de reflexão e análise de quem entende.

    Por isso, sim, recebo com frequência, mas não partilho nada sem ter antes algum tipo de garantia de que não estou contribuindo para a idiotice coletiva, que é a crença sem suspeita.

    Qual recado você daria para quem cria ou compartilha boatos ou notícias falsas relacionados ao coronavírus?

    Não faça mais mal do que o próprio vírus vem fazendo. Pessoas que compartilham aquilo que não tem ainda uma garantia de maior veracidade, maior sustentação, seja científica ou social, não faça mais mal. O vírus por si mesmo já é suficiente para nos ameaçar, para nos assustar, para nos colocar em estado de absoluta atenção. Por isso, evite acrescentar ao vírus mais esse malefício. Em última instância, não seja parceira ou parceiro do vírus.

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