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    Coronavírus

    Por que é tão difícil cumprir regras?

    Pesquisadores do comportamento de indivíduos e sociedades tentam responder à pergunta, sobretudo no combate à pandemia. Explicações passam por questões objetivas e também aspectos subjetivos

    16/01/2021 - 07h00 - Atualizada em: 16/01/2021 - 09h55

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    Por Evandro de Assis
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    Grupo de pessoas na praia, muitas sem máscara de proteção. O registro foi feito no dia 29 de dezembro, em Canasvieiras, em Florianópolis
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    Abafados pelo funk pancadão e pela algazarra de vozes simultâneas, homens e mulheres conversam aos gritos, aproximando o rosto do interlocutor. Dançam em torno de mesas do que horas antes funcionava como restaurante à beira-mar. Ao fundo, um jovem usando suspensórios ergue garrafas de espumante incandescentes enquanto vibra sob as luzes coloridas. A noite é de euforia.

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    A julgar pelo vídeo que viralizou nas redes sociais – e contribuiu para a decisão judicial que viria a interditar o lugar na última terça-feira, dia 12 –, ninguém usava máscara naquela sexta-feira (8) na casa noturna, em Balneário Camboriú. Nas imagens, também há pouquíssimos celulares. Os presentes foram convidados a guardar os aparelhos em sacos plásticos. Nada na cena remete à mobilização global contra o coronavírus, que já enlutou mais de 200 mil famílias brasileiras e sobrecarrega os hospitais.

    A repetição de episódios como o da balada, em retrospecto, faz parecer benigna a imagem do saxofonista recebendo clientes de um shopping em Blumenau, em abril de 2020, que causou reações indignadas e cristalizou-se como símbolo de irresponsabilidade. Normas de convivência são ignoradas na mesma frequência com que se repete o mantra: “estamos respeitando todos os protocolos”. Após 10 meses de pandemia de Covid-19, cumprir a regra parece ter virado exceção. Por quê?

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    Pesquisadores que se debruçam sobre o comportamento de indivíduos e sociedades explicam a desobediência explícita às medidas preventivas de diferentes formas. Levantam questões objetivas, como privações econômicas de quem não pode fazer home office e o emaranhado de regras que confundem empresários e cidadãos. Mas também aspectos profundos e subjetivos sobre como o brasileiro lida com a morte e com as leis. Afinal, quem promove festas em casa não tem medo de contaminar amigos e parentes? O que explica alguém sem máscara enfiar-se em uma multidão?

    Para a psicóloga Magda Zurba, trata-se de negação, estratégia humana para lidar com o luto e frustrações importantes. O cientista político Alberto Carlos Almeida atribui a desarticulação social ao fatalismo de origem religiosa, à ideia de que “se morrer, era a hora”. Valmor Schiochet, sociólogo, enfatiza o ambiente político de conflito. Já o veterano antropólogo Roberto DaMatta relaciona comportamentos imprudentes ao jeitinho brasileiro e à maleabilidade de uma sociedade escravocrata que durante séculos relacionou autoridade ao chicote.

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    Ainda há outras hipóteses: o cansaço mental com o prolongamento da crise, o melindre de cobrar o vizinho pelo cumprimento das leis, o papel da baixa escolaridade e a pressão exercida por grupos organizados, como associações de empresas. Tão complexas quanto o diagnóstico são as possíveis soluções. Seja para reagir ao coronavírus ou tornar as comunidades mais coesas para quando vier a próxima pandemia – e ela virá, alertam os epidemiologistas.

    Orientações assertivas, e não contraditórias, das autoridades seriam um começo. Melhor fiscalização, também. Mas como modificar a cultura da “lei que não pega”?

    – Você precisaria de uma mentalidade mais científica e menos fatalista. Uma sociedade mais escolarizada, não só no nível, mas também na qualidade – analisa Almeida.

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    Schiochet tem ressalvas à tese. Reconhece a importância da escola na formação do senso coletivo, mas pontua contradições: 

    – Me parece que os casos mais emblemáticos, o pessoal que vai para boate, são de pessoas de uma certa elite intelectual, econômica. Não é uma questão de educação formal, elas são deseducadas culturalmente. 

    De fato, predominam entre os frequentadores do estabelecimento pessoas instruídas. Na última quarta-feira, dia 13, a casa noturna criticou a decisão da Justiça que interditou as atividades.

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    Religiosidade e cultura cívica

    Doutor em Ciência Política e Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Alberto Carlos Almeida, interessa-se por dados estatísticos que ajudem a explicar os valores da população brasileira. No livro “A Cabeça do Brasileiro”, de 2007, o pesquisador apresenta o brasileiro médio como alguém que aceita o risco facilmente.

    Para ele, o fatalismo nacional está atrelado à crença religiosa de que o destino de cada indivíduo depende de vontade divina. Conforme essa hipótese, a inércia diante da pandemia origina-se na certeza de que o vírus só infecta os outros. Agora, se acontecer do cidadão adoecer, ou um parente, resta entregar-se à vontade divina.

    – É uma visão de que a ação individual não importa, ou importa muito pouco, para minimizar o problema – avalia Almeida.

     Nas ciências sociais brasileiras, o debate é intenso sobre traços culturais da população que atrapalham ações coletivas. Uma vertente, em que o antropólogo Roberto DaMatta é referência e onde Almeida insere-se, aponta a falta de civilidade como traço intrínseco. Outra corrente critica comparações depreciativas com países europeus e norte-americanos e analisa o problema de uma perspectiva marxista.

    A falta de acesso da maioria pobre às condições de vida de uma minoria rica ajudaria a explicar o comportamento dúbio diante de prescrições pensadas para atender certos grupos em detrimento de outros.

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    Para o doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UNB) e professor da Furb, em Blumenau, Valmor Schiochet, há contradições nas medidas restritivas que geram dúvidas sobre a efetividade delas. 

    – A condição de necessidade nas camadas populares cria uma percepção de que é uma hipocrisia exigir que as pessoas não se aglomerem. Se não pegou Covid-19 no ônibus lotado, não é tomando cerveja no bar que vai pegar – exemplifica.

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    Pelas ruas, a maioria das pessoas usa máscaras. Mas há quem utilize de maneira errada, mesmo que por alguns instantes
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    Do negacionismo à aceitação

    Uma das mais populares teorias da Psicologia é a que estabelece cinco fases para o luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. De maneira ampliada, os conceitos podem ser adotados para discutir as reações humanas diante de crises emocionais, como a pandemia de Covid-19. É o que propõe a psicóloga, doutora em Educação e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no programa de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Magda Zurba.

    O desprezo à prevenção passa pela negação da gravidade da doença, discurso presente até hoje. Na segunda etapa, a tendência é apontar culpados: o governo, a oposição, a mídia. Na formulação de Magda, a fase da barganha da Covid-19 é marcada por raciocínios como: “Se eu for de máscara e levar álcool no bolso, posso fazer o que quiser”.

    Em seguida, vem o sentimento de depressão frente ao que se perdeu.

    – Aceitar exige muita maturidade das pessoas. Nem todo mundo tem e dependeria muito do sistema de saúde acolher as pessoas enquanto passam pelas cinco fases. As pessoas que aceitam o que acontece também estão em sofrimento, mas pode ser um sofrimento mais maduro – analisa ela.

    A psicóloga explica que empatia é um dos componentes fundamentais da saúde mental, desenvolvido desde a infância. Quanto menos o indivíduo sente que tem uma rede de apoio para enfrentar dificuldades, a tendência é posicionar-se de maneira arredia, negacionista.

    Para Magda, essa é outra epidemia brasileira, que não se resolve com vacina. Ela se manifesta na pandemia, mas também no trânsito e na violência urbana e doméstica.

    – A sociedade brasileira não tem repertório, não desenvolveu a habilidade de pensar coletivamente – lamenta.

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    Presidente Jair Bolsonaro e aglomeração de pessoas, muitas sem máscara de proteção, durante cerimônia de formatura da PRF, em Florianópolis, em novembro
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    Excesso de regras e liderança confusa

    Desde que o governo do Estado compartilhou com os municípios a responsabilidade de restringir atividades, em meados de 2020, a vida dos catarinenses passou a ser regrada por uma infinidade de decretos, portarias, notas técnicas e mapas de risco, não raro contraditórios entre si.

    Eleições municipais, o processo de impeachment contra o governador Carlos Moisés (PSL) e ações judiciais contra e a favor de restrições contribuíram para um clima de incerteza sobre o que está valendo. Assim, tornou-se corrente a ideia de que, se cada um cuidar de si, não seria necessário restringir nada.

    – Não funciona desse jeito. Por um lado, claro, você precisa da contribuição individual das pessoas, mas você também precisa de alguém que coordene isso, e em geral essa liderança é do governo – contesta o cientista político Alberto Carlos Almeida.

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    CONTRAPONTO

    A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado da Saúde para questionar sobre o descumprimento de normas sanitárias em Santa Catarina. O órgão respondeu:

    “A Secretaria de Estado da Saúde sempre trouxe orientações claras sobre as regras sanitárias existentes e o risco que as aglomerações poderiam significar para um possível agravamento da pandemia”.

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