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Aquecimento global

Praias engolidas pelo mar e enchentes: SC terá fenômenos climáticos ainda mais intensos

Palco de fenômenos climáticos, Estado terá de lidar com eventos que afetam economia, saúde e alimentação dos catarinenses

18/09/2021 - 06h00 - Atualizada em: 01/10/2021 - 13h36

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Fernanda
Por Fernanda Mueller
Especialistas alertam que em até 30 anos grandes áreas da costa catarinense serão engolidas pelo mar
Especialistas alertam que em até 30 anos grandes áreas da costa catarinense serão engolidas pelo mar
(Foto: )

O Relatório do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) fez revelações assustadoras para o planeta por conta do aquecimento global. O documento estima que dez anos antes do que se estimava, por volta de 2030, a temperatura do planeta alcançará o limite de aumento de 1,5° C em relação à era pré-industrial, com riscos de desastres “sem precedentes” para a humanidade, já sacudida por ondas de calor e inundações. 

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Em Santa Catarina, que já é um palco de fenômenos climáticos, os eventos ficarão ainda mais extremos: estiagem, enchentes, ondas de calor, ondas de frio, e praias inteiras engolidas pelo mar, impactando a economia, alimentação e saúde dos catarinenses. 

As principais atividades econômicas de Santa Catarina sofrem diretamente com o aquecimento global. Conforme a pesquisadora e professora de Oceanografia da UFSC, Regina Rodrigues, os períodos de estiagem ficarão mais prolongados, levando a secas severas. Além disso, as chuvas torrenciais (grandes volumes em curto espaço de tempo) também vão aumentar. 

> Relatório do Clima ONU: entenda o documento e o "alerta vermelho"

Esses dois fatores são extremamente prejudiciais para a produção agropecuária e geração de energia, principalmente no Oeste do Estado. Ao mesmo tempo, tempestades ficarão mais frequentes e intensas, o que afeta o turismo. 

— Veremos mais ciclones bombas no Estado, por exemplo. Com ventos mais fortes, essas tempestades levarão a ressacas mais frequentes e intensas (ondas mais altas, por exemplo) no litoral, causando erosão das praias e retração da linha de costa. Já estamos vendo esses problemas aqui em Florianópolis. Isso aliado a um aumento do nível do mar causará uma destruição ainda maior da zona costeira, afetando a indústria do turismo como um todo — explica a especialista. 

Risco de inundações

O geógrafo e integrante do Laboratório de Climatologia Aplicada (LabClima) da UFSC, Lindberg Nascimento Júnior alerta que em até 30 anos grandes áreas da costa catarinense serão engolidas pelo mar. Em Florianópolis, a Praia da Daniela, Ponta das Canas, Matadeiro, e Morro das Pedras (área que já é atingida pela erosão) não vão mais existir. 

A informação é com base na ferramenta de risco costeiro do Climate Central, uma ONG de pesquisadores e jornalistas do mundo inteiro que estudam mudanças climáticas. A plataforma usa informações de satélite da Nasa e corrige detalhes de elevação e nível do solo. Os dados foram cruzados com novas projeções de aumento do nível dos oceanos. 

A ferramenta mostra que uma larga área costeira das cidades de Joinville, São Francisco do Sul e Araquari, no Norte de Santa Catarina, têm risco de inundações constantes. Bairros da cidade mais populosa do Estado como Jardim Iririú, Comasa e até os arredores do Aeroporto Lauro Carneiro de Loyola teriam áreas atingidas pelo avanço do nível do mar. 

Situação parecida pode acontecer em Tijucas, Laguna e Tubarão e, em escala menor, em Itajaí e Balneário Camboriú.

Impactos na alimentação e saúde dos catarinenses

O aumento na intensidade e frequência de eventos extremos, como ondas de calor, alternadas por eventos de frio extremo e períodos de estiagem mais prolongados é bastante prejudicial para plantas de clima temperado, por conta da variação drástica de temperatura e disponibilidade de água. 

A agropecuária é uma das principais áreas que precisará se adaptar às mudanças climáticas, como explica Cristina Pandolfo, pesquisadora da Epagri/Ciram. 

— Os cenários agrícolas mostram que haverá deslocamento das áreas potenciais de cultivo e modificação nas janelas da semeadura ou plantio para algumas espécies avaliadas, como milho, feijão, soja, maçã, banana e uva. Uma alternativa importante para aumentar a possibilidade de adaptação das culturas, é a pesquisa em melhoramento genético e o desenvolvimento de experimentos de adaptação de novas espécies em vários locais do Estado — destaca Pandolfo. 

> 2020 foi o ano mais quente da história

Gabriel Leite, pesquisador da Epagri, cita como exemplo as variedades de macieira que foram desenvolvidas em Caçador, com médio requerimento em frio e que são resistentes à “Mancha de Glomerella”, principal doença da maçã em regiões com temperaturas médias de verão acima de 19 °C. 

Outra pesquisa é feita com o arroz, uma espécie que é afetada drasticamente quando exposta a temperaturas baixas ou muito altas, especialmente quando a lavoura se encontra na fase de floração ou pouco antes. 

Segundo o pesquisador da Epagri, Rubens Marschalek, em 2023, uma nova variedade de arroz irrigado será disponibilizada pela Epagri para cultivo em Santa Catarina, que consegue se adaptar melhor quando exposta a extremos de temperatura. 

Proliferação de mosquitos

Enquanto o aquecimento global pode provocar a morte de algumas espécies de plantas e animais, o relatório da ONU aponta que a quantidade de insetos deve aumentar 16% em até 50 anos, porque eles são mais adaptáveis. Consequentemente, a população estará mais suscetível a doenças causadas por vetores, como o mosquito — dengue, febre amarela, malária, chikungunya etc. 

O risco para essas doenças tende a aumentar na região sul, incluindo Santa Catarina, pois o número de meses em que há maior proliferação do mosquito também aumenta, explica o professor do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Sérgio Freitas. 

Segundo o especialista, há probabilidade também de ter mais casos de doenças pulmonares em regiões de produção de poluentes atmosféricos, pois o aquecimento tende a deixar o ar mais seco e quente. Embora o Estado não tenha áreas especialmente concentradas, polos siderúrgicos e de porcelanas e olarias devem ficar atentos. 

— Regiões com focos de proliferação de mosquitos, como a região de Joinville e Extremo-Oeste, que é região endêmica para febre amarela, assim como cidades que concentram fábricas de cerâmicas/olarias, devem planejar estratégias especiais para políticas mais agressivas de prevenção, seja no combate aos vetores, na diminuição dos poluentes e mesmo na estrutura dos serviços de saúde — observa Freitas.

O que Santa Catarina precisa fazer

É consenso global que precisamos diminuir o mais rápido possível as emissões de gases dos efeitos estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis, fazendo uma transição para fontes energéticas limpas, como solar e eólica. 

Rodrigues e o geógrafo Lindberg Nascimento Júnior destacam que mesmo se conseguirmos frear o avanço do aquecimento global, é necessário se adaptar à nova realidade. Não há mais como formular um novo Plano Diretor para as cidades sem levar em consideração as mudanças climáticas. 

— Esses gases ficam muito tempo na atmosfera (mais de 200 anos). Esse aquecimento que estamos vendo hoje junto com o aumento dos extremos, irá continuar mesmo que as emissões sejam reduzidas a zero agora. Então, temos que nos adaptar a essa nova realidade de extremos mais frequentes e intensos, construindo infraestrutura que comporte, planejando nossas cidades de acordo, preservando ecossistemas para que a sociedade catarinense fique menos vulnerável a esses eventos — aponta Rodrigues.

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