Aos 21 anos, a universitária Ísis Leites recebeu o laudo que a diagnosticava com autismo nível 1. Poucos meses depois, em janeiro de 2024, a mãe dela, Amalia Cardona Leites, teve o mesmo diagnóstico, aos 41 anos. As duas fazem parte da estatística que aponta que mais de 34 mil mulheres são autistas em Santa Catarina, segundo dados de um levantamento inédito feito em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base nos dados coletados no Censo 2022. Ou seja, dos 91,6 mil catarinenses que possuem o Transtorno do Espectro Autista (TEA), 37% são mulheres.
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No entanto, os números por recorte de gênero podem não corresponder à realidade justamente por casos de mulheres como Ísis e Amalia, que receberam o diagnóstico já na vida adulta, segundo a psicóloga especializada em neuropsicologia, Chrissie Ferreira de Carvalho.
— O próprio diagnóstico de sintomas de autismo foi muito centrado nas características masculinas. Nas mulheres, esses sintomas vêm diferentes, e com outra intensidade — pontua a especialista.
Segundo o Ministério da Saúde, a prevalência do TEA é maior no sexo masculino e há dois fatores que podem explicar o maior número de homens com o diagnóstico, de acordo com a psicóloga. O primeiro é o fator genético. Isso porque, tecnicamente, eles precisam de menos alterações genéticas para o desenvolvimento do transtorno.
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— Uma das hipóteses para o desenvolvimento do autismo são as alterações genéticas. É como se os homens precisassem de menos alterações genéticas para desenvolver o TEA, enquanto que as mulheres precisariam de maiores alterações, justamente porque elas têm dois cromossomos XX, e os homens são XY. É uma “maior proteção genética” [em mulheres] — esclarece Chrissie.
Mas não é somente a genética que impacta no resultado dos dados com recorte de gênero. Segundo a psicóloga, que atua com diagnóstico multidisciplinar em transtornos de desenvolvimento, enquanto os homens com TEA externam os sintomas e os deixam mais visíveis, as mulheres têm uma facilidade maior de “mascarar” essas condições — e são mais cobradas para fazerem isso:
— As meninas acabam tendo um sofrimento mais internalizado, que não transparece tanto e faz [os sintomas] passarem despercebidos. Nos meninos, você vê a externalização desses comportamentos inadequados, enquanto nas meninas eles transparecem muito menos, apesar dessas dificuldades estarem presentes e fazerem parte do sofrimento. Afinal, sempre que a gente fala de um transtorno, a gente fala de um nível de sofrimento.
Essa técnica de “mascarar” os sintomas é conhecida como “masking”, expressão importada do inglês. Ela define a prática de uma pessoa com TEA de suprimir ou esconder comportamentos autistas para se adequar às normas sociais e parecer neurotípica.
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— [O masking] é essa “não demonstração” real de quem a pessoa é. E esse é o relato de muitas adultas, que trazem o quanto elas fazem esforço para estar em espaços e conviverem com as pessoas. A própria cobrança cultural das meninas é diferente da cobrança cultural dos meninos, dessa relação com o outro, de ser simpático, de mostrar essas habilidades que são dos estereótipos de gênero. E acaba que isso perpassa também para a experiência da mulher autista — explica.
Foi o que aconteceu com Ísis Leites, atualmente com 23 anos. Estudante na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, a jovem procurou um psiquiatra quando o primo dela, de seis anos, foi diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
— Eu sempre fui muito próxima dele, e queria entendê-lo, porque ele tinha muitas dificuldades que a minha família achava que era “drama”. Mas eu me identificava com muitas daquelas dificuldades, e pensei: “Nossa, só eu entendo ele. Será que eu tenho TDAH?” — conta.
Foi quando, em 2023, a estudante de jornalismo começou a pesquisar sobre o assunto e foi atrás de um psiquiatra. O primeiro profissional procurado disse, de primeira, que ela não tinha TDAH por nunca ter apresentado dificuldades tanto nos estudos quanto na vida profissional.
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— Eu pensei: “Tá bom, mas quero uma segunda opinião”. Fui em uma psiquiatra especialista em TDAH em mulheres. Foi uma sessão de uma hora e meia, ela me fez várias perguntas e, no final, eu estava esperando que ela falasse: “Tá, acho que você tem TDAH”. Mas ela olhou para mim e falou: “Ísis, você sabe o que é TEA?”. Nesse momento, eu congelei — relembra.
Observando o choque de Ísis, a psiquiatra começou a tentar acalmá-la sobre a possibilidade de um diagnóstico.
— A gente relaciona o autismo a personagens como o Sheldon, de Big Bang Theory, coisas que a gente vê na TV. Eu só conseguia pensar nele ou em qualquer estereótipo autista. Aí ela me explicou que muitas das coisas que eu relatava tinha mais a ver com o autismo do que com o TDAH, e que eu deveria fazer uma avaliação neuropsicológica. Ela fez um trabalho bem educativo, de me explicar e me acalmar sobre o que era o autismo e que existiam níveis — conta.
Após cerca de três meses de sessões semanais, Ísis recebeu o diagnóstico de autismo e também de TDAH. Para a estudante, a descoberta representou um tipo de alívio:
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— Fazia tudo sentido. Tinham coisas simples que eu fazia e achava que todo mundo fazia, como ficar racionalizando qualquer interação social. Eu tinha um roteiro, ficava repassando as frases na minha cabeça antes e depois de todas as interações.
Ísis percebeu o quanto utilizava a prática do masking somente após o diagnóstico. Antes, acreditava que era algo normal “não ser quem é” perto dos outros.
— Eu pensava: “Ah, ninguém gosta de interagir. Ninguém é sincero ou autêntico com os outros”. Eu achava que não tinha como. Eu percebi que eu mascarava meus comportamentos só depois do diagnóstico. Foi um alívio descobrir que, realmente, meu cérebro funciona diferente. Eu não estava maluca, não sou menor que os outros. Só sou diferente — pontua.
Para a estudante de jornalismo, “desaprender” a desmascarar o próprio comportamento é a parte mais difícil:
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— Quando eu não entendo uma piada, eu dou risada mesmo assim, porque aprendi a fazer mímica, a imitar o que que os outros estão fazendo. Se todo mundo da roda está rindo, eu vou rir. Na terapia, eu trabalho essas questões de tentar me soltar um pouquinho, porque sou uma pessoa muito rígida e muito tensa com essas coisas e minha autopercepção. Então, meio que eu preciso fazer tudo racionalmente de novo para voltar para o meu normal, porque na verdade eu não sei qual é o meu normal.
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A jornada de autodescoberta
Foi apenas após a descoberta da filha que a educadora Amalia Leites foi atrás do próprio diagnóstico.
— Enquanto a Ísis fazia a avaliação e falava algumas coisas sobre infância e família, a psiquiatra a questionou se eu já tinha feito a avaliação. Mas eu não desconfiava, não fazia ideia, apesar de trabalhar com educação há 20 anos e me considerar uma pessoa bem informada. Eu não sabia o que era o autismo nível 1, não tinha nem identificado na minha filha — comenta.
Ao longo dos 42 anos de vida, Amalia sempre foi descrita pelas pessoas como uma pessoa “esquisita”, ou muito sensível e “dramática”.
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— São adjetivos frequentemente usados para descrever mulheres autistas. Mas, na verdade, eu achava que todo mundo era como eu, que não existia espontaneidade. Por exemplo, eu sou professora, e dando aula eu tenho um perfil. Tem a Amalia professora, a Amalia mãe, a Amalia filha, amiga… Não acreditava que as pessoas simplesmente faziam as coisas — relata.
É exatamente aí que as relações sociais de gênero interferem no diagnóstico de autismo em mulheres. Segundo Chrissie, os sintomas mais “clássicos” do TEA geralmente não são os evidenciados pelo sexo feminino.
— A gente tem até uma teoria que traz o cérebro autista como um cérebro “hiper masculino”, por conta dessa rigidez, a dificuldade de ser flexível e da questão da própria regulação emocional e menor tato social. E as meninas e mulheres acabam tendo esse sofrimento mais internalizado, que faz com que os sintomas passem despercebidos — esclarece a especialista.
O masking também sempre foi presente na vida de Amalia, termo que ela só foi compreender e estudar depois do diagnóstico da filha:
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— Eu achava que mascarar era a única maneira possível de existir enquanto um ser social. Eu não concebia a ideia de espontaneidade. Para mim, mascarar era se preparar para atuar. Se eu tinha que fazer uma fala no sindicato que eu atuo, eu pensava: “Como vou me portar lá na frente? Como que eu vou pegar o microfone? Como vai ser meu tom de voz, o ritmo da minha fala?”. Eu tentava copiar como as pessoas faziam.

Diferente da filha, Amalia teve um momento inicial de luto assim que recebeu o diagnóstico.
— Eu olhei para trás e vi minha infância, adolescência, enfim, tudo que eu vivi antes dos 40 anos até o meu diagnóstico. Eu poderia ter respeitado muito mais o meus limites e minhas necessidades — pontua.
Passado esse período, o luto se transformou em alívio e, posteriormente, aprendizado, segundo Amalia:
— É sobre entender o porquê a gente se sente esquisita, fora do lugar. Não é só “loucura da nossa cabeça”. E o diagnóstico mudou a maneira que eu me relaciono com o mundo. Eu digo que ainda estou num processo, porque eu não sei o que eu gosto, o que eu quero vestir, comer, fazer. É uma vida toda em que essas decisões foram tomadas com base no que eu achava que era adequado.
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Para as duas, o diagnóstico proporcionou também uma melhora na relação de mãe e filha.
— Tinham conflitos que a gente tinha que poderiam ter sido muito melhor solucionados se a gente soubesse que éramos pessoas com disfunções. E eu espero que eu consiga ajudar ela também, para que ela não passe pelas dificuldades que eu passei — diz a mãe.
Mascarar sintomas pode gerar sobrecarga mental
O diagnóstico tardio alinhado ao masking, muito comum entre mulheres, pode gerar até uma sobrecarga mental, de acordo com Chrissie.
— Esse excesso de sobrecarga mental, consequência do masking, pode resultar até em transtornos de saúde mental, como ansiedade, depressão e até transtorno bipolar. Inclusive, é comum confundir o TEA nessas mulheres com outros transtornos de humor, por conta da instabilidade emocional muito grande — explica a especialista.
As sensações explicitadas por Amalia e Ísis, de se sentir “fora do lugar”, é algo que gera solidão, de acordo com a psicóloga. Isso porque, com elas, vem a dificuldade de manter amizades e até relacionamentos amorosos ou profissionais.
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SC tem seis centros que oferecem diagnóstico e terapias
Chrissie recomenda que, caso a pessoa suspeite de um diagnóstico de TEA, procure um psiquiatra ou neurologista — idealmente profissionais especializados nos transtornos de neurodesenvolvimento. Depois, vem o processo de avaliação com um psicólogo.
Procurada, a Secretaria de Estado da Sáude (SES) informou que Santa Catarina conta com uma rede de atendimento integrada, que acompanha o paciente desde a Atenção Primária à Saúde (APS) até os Centros de Reabilitação.
Segundo a pasta, a porta de entrada para investigar e chegar ao diagnóstico do TEA é pela Unidade Básica de Saúde mais próxima da residência do paciente. A partir daí, iniciam-se os atendimentos e o encaminhamento para o serviço terapêutico e/ou especializado de reabilitação da macrorregião de saúde a que o paciente pertence para que haja a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento.
Santa Catarina possui seis Centros Especializados em Reabilitação (CER) que oferecem diagnóstico, terapias e acompanhamento multiprofissional. Eles estão localizados em Florianópolis, Criciúma, Itajaí, Lages, Blumenau e Joaçaba. Há ainda dois centros em construção no Extremo Oeste que irão atender esses pacientes.
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A SES cofinancia ainda 143 serviços terapêuticos que têm contrato com seus municípios sede, muitos deles geridos por Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs), que atendem pessoas com deficiência, entre elas pacientes com TEA, em todo o Estado.
Por fim, a pasta reforçou que nenhum usuário deverá acessar o serviço diretamente sem passar pela regulação, ou seja, ele precisa ser classificado mediante o protocolo de acesso e classificação de risco vigente e entrar pela fila do Sistema de Regulação (SISREG).
*Sob supervisão de Luana Amorim
Antonietas
Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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