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Análise da água do Itajaí-Açu expõe 8 a cada 10 pontos com alto índice de coliformes e cenário de poluição

Tratamento de esgoto ainda é o maior gargalo do Poder Público

04/10/2021 - 06h50 - Atualizada em: 05/10/2021 - 20h15

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Talita
Por Talita Catie
Por ordem: água coleta do Itajaí-Açu. água coletada do Ribeirão Fortaleza, esgoto in natura e água devolvida ao rio após tratamento, segundo a BRK Ambiental
Por ordem: água coleta do Itajaí-Açu. água coletada do Ribeirão Fortaleza, esgoto in natura e água devolvida ao rio após tratamento, segundo a BRK Ambiental
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Um levantamento do governo de Santa Catarina feito em junho deste ano mostra que a qualidade da água na Bacia do Rio Itajaí é preocupante. Em 86% dos pontos analisados o índice de coliformes estava acima do padrão. O que isso significa na prática? Tem muito esgoto sendo despejado nos cursos d’água. Apesar de não ser um assunto novo, o saneamento básico ainda é uma pedra no sapato dos gestores públicos.

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Apenas sete dos 51 municípios da região possuem rede de coleta e tratamento de esgoto. Nenhum deles chega a 60% de cobertura da população. Das maiores cidades do Vale em número de habitantes, Itajaí sai na frente, com 58%. 

Blumenau vem na sequência com 46%. Rio do Sul, a principal do Alto Vale, ainda está implantando o serviço. Perde para cidades menores da região como Ibirama, onde o sistema chega a 30% dos moradores.

Esses dados dão sentido à informação revelada por especialistas da Furb responsáveis pelo desenvolvimento do Programa de Enquadramento da Bacia do Rio Itajaí: há trechos com situação crítica de poluição. 

É o caso, por exemplo, dos rios do Testo, Luiz Alves e Itajaí-Mirim. Conforme o documento, as cidades por onde passam esses cursos d’água devem ter prioridade na implantação de rede de esgoto nos próximos anos.

— Se fosse definir uma única ação para os recursos hídricos de SC seria saneamento urgente. É frustrante pensar que são tantos anos já de planejamento e ainda esse é o maior problema. Essa discussão sobre poluição remonta há mais de 20 pelo menos — desabafa o engenheiro Sanitário e Ambiental Vinicius Ternero Ragghianti, que atua há 12 anos no segmento.

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A falta de monitoramento regular da qualidade da água impede uma comparação com os indicadores atuais. Esse trabalho só começou 2019 no Estado. Mas de forma empírica é possível observar que houve avanço, porém não na mesma velocidade do crescimento populacional. O ambientalista Lauro Bacca diz que nos anos 1980 e 1990 o Itajaí-Açu passava por um processo galopante de poluição. Hoje o cenário é melhor, entretanto longe do ideal.

— Em 1971 a população de Blumenau era de aproximadamente 120 mil pessoas. Hoje tem 360 mil. São três vezes mais. Então se tratamos 40% do esgoto atualmente, isso significa que 60% continua sendo despejado in natura. Ou seja, ainda tem mais esgoto chegando ao Rio Itajaí-Açu, em Blumenau, do que no tempo que a cidade não tinha tratamento nenhum — reflete Bacca.

O Novo Marco do Saneamento Básico, aprovado pelo governo Federal no ano passado, projeta 90% da população com rede de tratamento de esgoto até 2033. É uma meta ousada na avaliação dos especialistas, sobretudo porque exige investimento financeiro pesado. Sem ter escapatória, aos poucos as cidades começam a se mobilizar para decidir o que vão fazer.

O martelo deve ser batido quando Santa Catarina elaborar o Plano Estadual de Saneamento Básico, que ainda está em fase de licitação para escolher a empresa responsável. 

A expectativa é que esse documento estabeleça formas alternativas de fazer o tratamento de esgoto chegar a toda população, mas com um custo menor. Possibilidades existem. Uma delas é as cidades menores e de baixa sustentabilidade formem blocos para juntas contratarem o serviço.

O engenheiro Ragghianti aponta ainda que muitos países aceitam o tratamento individual de esgoto – a fossa séptica - como parte do sistema de saneamento básico. 

Para cidades com menor densidade populacional, essa seria uma boa alternativa, só precisaria que os municípios ou empresas concessionárias assumissem a manutenção, pois esse é o maior desafio quando se fala do sistema individual. 

Muitas pessoas só fazem manutenção quando ocorre um problema, enquanto esse hábito precisaria ser anual.

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Descarte criminoso de efluentes no rio, como mostrado pelo Santa em 2019, também contribuem para má qualidade da água
Descarte criminoso de efluentes no rio, como mostrado pelo Santa em 2019, também contribuem para má qualidade da água
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Faz diferença?

Dados da BRK Ambiental, concessionária do serviço em Blumenau, indicam melhora de 87% na qualidade da água em mananciais que já possuem, total ou parcialmente, o sistema público de esgotamento sanitário. Segundo Cleber Renato, diretor da empresa na cidade, o município é destaque nacional na adesão dos moradores à rede. 

Por onde o sistema passa, 90% dos imóveis estão conectados e outros 10% estão dentro do prazo de regularização ou tratam se casos complexos, como casas abaixo do nível da rua, algo bastante comum na cidade.

Muitos podem não se dar conta, mas a qualidade da água que corre nos rios da Bacia do Itajaí está diretamente atrelada ao uso que se faz dela. 

O exemplo claro disso vem do Samae de Blumenau. A água coletada na Estação de Tratamento no Ribeirão Garcia (ETA 3) apresenta quase sete vezes menos coliformes totais do que a captada na Estação de Tratamento da Rua Bahia (ETA 2), responsável por levar água às torneiras de 253 mil moradores. 

Se a qualidade está pior, o tratamento para garantir que ela fique potável muda.

— A qualidade do manancial é fator preponderante para um bom tratamento de água e os mananciais das quatro ETAs têm diferença significativa. Muitos desses coliformes ficam pelo caminho, no processo. Então lá na frente o que vou usar de hipoclorito de sódio [produto utilizado para purificar a água] varia conforme a carga ainda existente — explica o químico da autarquia, Janor Fernandes André.

No começo de setembro, o portal de monitoramento do Senai, que tem parceria com a BRK, mostrava os três pontos de análise de água do Itajaí-Açu em Blumenau com a qualidade ruim. Para os especialistas dois cenários precisam ser observados nessa situação: que ainda há um percentual expressivo da cidade a receber tratamento de esgoto e que apesar de o rio depurar parte dos efluentes que recebe do Alto Vale, ainda assim muito material vem parar em Blumenau e consequentemente desce em direção ao oceano.

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Primeira capa do Santa, em 22 de setembro de 1971, já mostrava a problemática do saneamento báscico
Primeira capa do Santa, em 22 de setembro de 1971, já mostrava a problemática do saneamento báscico
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Solução à vista?

A elaboração do Programa de Enquadramento da Bacia do Itajaí, em andamento atualmente, atende uma das etapas da Política Nacional de Recursos Hídricos. É uma ferramenta para gestão da água, com o objetivo de preservá-la e garantir abastecimento a todos os usos no longo prazo. Nesse cenário, a aprovação do documento dá uma esperança de sensibilização do poder público para as medidas propostas no estudo.

Isso porque o programa projeta o que é preciso fazer a curto, médio e longo prazo para que se tenha cursos d’água adequados ao uso que é feito deles. As cidades não são obrigadas a atender as metas, mas existe um comprometimento dos gestores, afirma o presidente do Comitê da Bacia do Itajaí, Odair Fernandes. Até porque o estudo pode ser usado de justificativa pelas prefeituras no momento de buscar recursos para tirar do papel as ações necessárias.

O que os especialistas apontam é que o serviço não traz voto, “pois está embaixo da terra” e ainda gera dor de cabeça aos cidadãos pelas obras e posterior cobrança do tratamento dos dejetos do esgoto. Nessa equação, o que fica de fora é futuro do cidadão com meio ambiente equilibrado e que proporciona saúde.

— Daqui a pouco vamos ter problemas e em alguns momentos não teremos como disponibilizar água para todos os usos. Isso é o que a gente teme no futuro. Então vai ter que ter uma melhora qualidade da água do rio, sim — defende Odair.

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A doutora em Engenharia Ambiental Rubia Girardi, uma das profissionais à frente do desenvolvimento do Programa de Enquadramento da Bacia do Itajaí, concorda que saneamento básico é o maior gargalo, mas alerta não ser o único. Os fertilizantes e dejetos das atividades agropecuárias; assim como os efluentes industriais, que muitas vezes não são tratados adequadamente, somado a descartes clandestino de efluentes, dão contribuição importante para a qualidade abaixo do ideal.

Por isso ela defende a necessidade de fiscalização mais efetiva por parte do poder público, ações de conscientização e o cumprimento das metas estipuladas no estudo. Para a especialista, falta um olhar mais carinhoso e respeitoso com o rio, que passa, inclusive, por questões simbólicas. Chama atenção de quem está na linha de frente da preservação ambiental o fato de a maioria dos moradores às margens dos cursos d’água darem as costas a ele, negligenciando que o desenvolvimento do Vale ocorreu por ali.

Assista ao especial do Rio Itajaí-Açu

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