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Radialista de Criciúma faz discurso machista e ironiza narradoras de futebol; veja o vídeo

“Para narrar futebol ainda não dá”, diz o comentarista antes de afirmar que prefere ver “o jogo da Juazeirense” em vez de um jogo comandado por uma mulher

25/06/2021 - 16h32

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Diane
Por Diane Bikel
 A declaração foi dada na manhã desta sexta-feira (25), ao vivo
A declaração foi dada na manhã desta sexta-feira (25), ao vivo
(Foto: )

O comentarista de uma rádio de Criciúma fez um discurso machista e ironizou as mulheres que narram transmissões esportivas. A declaração foi dada na manhã desta sexta-feira (25), ao vivo. O radialista Reginaldo Correa, da Rádio Eldorado, disse que “para narrar futebol ainda não dá”, ao se referir à voz feminina, e chega a apontar que “o futebol tem que ser tratado com respeito profissional”.

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— Tudo bem, eu acho que as mulheres estão pegando um espaço legal em todos os setores. Tem mulher na política, tem mulher na indústria, tem mulher no comércio... Tem mulher em vários setores, mas para narrar futebol ainda não dá.

Logo na sequência, o radialista ridiculariza a narração de mulheres, satiriza com sons e diz que prefere assistir a uma partida de um clube pequeno do interior da Bahia do que um jogo de Série A comandado por uma narradora. Os demais participantes não contestam e riem.

— Nem que eu tenha que ver Juazeirense e não sei quem, cara...

Espaço feminino

As mulheres vêm ganhando um espaço importante para a história dentro da narração esportiva. A luta feminina no esporte começou a ter voz em 1997, quando a primeira mulher teve a oportunidade de exercer a função de narradora, após ganhar um concurso na Rede Bandeirantes de Televisão. Foi Luciana Mariano quem apareceu na telinha pela primeira vez.

A primeira mulher a narrar um jogo de futebol feminino no SporTV foi Renata Silveira, em março deste ano. A jornalista entrou para a história ao ser a primeira contratada como narradora fixa do futebol da Globo e recentemente narrou o jogo histórico entre a Dinamarca e a Finlândia, marcado pelo mal súbito de Christian Eriksen. Renata foi elogiada nas redes sociais.

Atualmente, as grandes emissoras brasileiras contam com quatro narradoras. Natália Lara, também do SporTV, Isabele Moraes da Rede Bandeirantes de televisão e Mariana Spinelli da ESPN. A busca por espaço e reconhecimento nesse mundo ainda é desafiadora para as mulheres e a contratação dessas quatro jornalistas na narração do esporte possuem um papel importante de servir como referência para outras mulheres do meio.

Para a representante do movimento feminista 8M, Rosane Magaly Martins, assim como ninguém nasce pronto, os homens também não nascem preparados para muita coisa. Cada um escolhe onde quer estar.

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— Difícil imaginar que em 2021, depois de tanta luta, ainda temos que ouvir que não estamos preparadas. Baseado em quê? Me pergunto quais os princípios que uma pessoa precisa ter para narrar um jogo e por que uma mulher não os teria.

O movimento 8M surgiu há três anos e une todas as entidades de luta feminista e, de mulheres, do Estado para discutir ações e campanhas que lutem pelos direitos iguais. O mercado, atualmente, está em ascensão de mulheres.

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— Sempre sofremos preconceito quando alcançamos lugares que tiram os privilégios dos homens. Agora disputamos por igual, então eles perdem esse privilégio que era só deles — completa a advogada.

Contraponto

À reportagem, o comentarista Reginaldo Correa disse que não agiu com machismo e que apenas teria emitido a opinião dele a respeito. O radialista afirmou que acompanha outras mulheres jornalistas, mas que, com relação à narração esportiva, “não gosta”, e “não tem nada contra”.

— Não tem nada de machismo. Eu não gosto de ouvir o Petković comentando, por exemplo. Sou meio seletivo, mas isso não é preconceito.

— Gosto muito dos comentários da Ana Thaís [Matos], da Fernanda Colombo, da Glenda [Kozlowski], mas eu não gosto de mulher narrando. Não sei se pelo timbre. Sou casado, tenho duas filhas e duas netas — completa Reginaldo.

O Diário Catarinense também entrou em contato com o diretor de Programação da Rádio Eldorado de Criciúma, João Paulo Messer. Ele disse não ter visto “nada de machista”, destacou que a opinião é do comentarista e não da empresa e afirmou que a diretora-geral da rádio é uma mulher:

— É uma opinião pessoal dele e a manifestação se deu em um contexto de atração para o ouvinte e telespectador. Ele não gosta de ouvir a narração de uma mulher, tanto que essa mesa é plural e tem diferentes opiniões. Não é uma opinião da rádio, tanto que a emissora possui mulheres para discutir futebol.

*Sob supervisão de Augusto Ittner

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