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Registros de estupro de crianças e adolescentes em Joinville crescem pelo terceiro ano consecutivo

Maior parte dos crimes são cometidos dentro de casa por pessoas conhecidas da vítima

12/01/2021 - 06h35

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Patrícia
Por Patrícia Della Justina
As vítimas têm idades que variam entre poucos meses de vida até 17 anos
As vítimas têm idades que variam entre poucos meses de vida até 17 anos
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Registros de estupro contra crianças e adolescentes tem crescido nos últimos anos em Joinville. De 2018 até 2020, o aumento representou 55,3%, segundo dados da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (Dpcami). 

As vítimas têm idades que variam entre poucos meses de vida até 17 anos. Foram 103 casos registrados pelas delegacias de polícia de Joinville em 2018. No ano seguinte, o número aumentou para 142 registros e, em 2020, subiu para 160. 

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No entanto, segundo a delegada titular da Dpcami, Cláudia Lopes Gonzaga, o número ainda não reflete o total de casos efetivamente cometidos na cidade. Isso porque, muitas vezes, as ocorrências de estupro e também de abuso sexual não são denunciadas ou demoram mais tempo para chegar às autoridades. 

- É importante denunciar diante de qualquer indício de abuso. Muitas vezes, uma ocorrência leva a outra, gerando uma chuva de denúncias e, quando vamos verificar, o agressor já cometia o crime há mais tempo, com mais vítimas - destaca Cláudia. 

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O número de prisões cautelares também cresceu em 2020. Durante todo o ano passado, o estupro de vulnerável foi um dos principais focos da polícia. 

- Se a gente deixa o agressor no ambiente sem efetuar a prisão cautelar, pode ocorrer duas coisas: a continuidade dos abusos e ameaças à vítima. Então efetuamos essas prisões especialmente se ele já possui histórico de boletins pelo mesmo ou outros crimes - pontua.  

Crimes cometidos dentro de casa 

Segundo a delegada Cláudia Gonzaga, a maioria dos crimes costumam acontecer dentro de casa com pessoas do círculo de convívio das crianças e adolescentes. Amigo da família, tio, primo, outro familiar ou, em alguns casos, os próprios pais ou padrastos da vítima são os agressores. 

- Os pais, às vezes, não querem acreditar que o abuso aconteceu ou está acontecendo. Não querer acreditar é não olhar para a realidade. A gente tem que trabalhar com questões objetivas. Tem que querer enxergar. Já vimos casos de abusadores que abusavam da criança na frente da mãe e ela não agia. Nesse caso, ela também precisou ser penalizada. O responsável tem que manter esse olhar e tem que conhecer a criança - reforça Cláudia.  

Além disso, especialmente durante 2020, a pandemia dificultou a comunicação com a polícia, uma vez que as vítimas permaneceram no mesmo ambiente onde ocorreram os abusos. Segundo a Dpcami, muitos casos costumam ser detectados por meio das escolas e serviços de saúde cujos atendimentos foram diretamente afetados durante o enfretamento ao coronavírus. 

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Perfil de agressores   

A delegada define dois perfis geralmente percebidos pela polícia entre os agressores. O primeiro é de homens que buscam estar próximos a crianças e adolescentes, procuram por imagens na internet e mantêm contato com as vítimas. 

Já o segundo perfil, é o que ela chama de "pedófilo de oportunidade". Geralmente, esses agressores aproveitam um momento de vulnerabilidade da vítima e cometem o crime. No círculo familiar e social da vítima, isso ocorre, segundo ela, justamente pela proximidade. O agressor aproveita disso para cometer o abuso.

- Às vezes os pais tentam minimizar a situação. É fácil dizer para a criança que ela está mentindo, que aquilo não está acontecendo, e até mesmo acreditar no agressor. Maus tratos se caracterizam de outras formas também. Por isso a importância de acreditar na vítima e de denunciar. Para a criança é importante e vai ter repercussão para a vida inteira - orienta. 

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Como identificar 

A delegada alerta para a mudança repentina do comportamento das crianças, que costuma ocorrer quando expostas a situações de abuso. Como por exemplo, ela cita crianças que eram extrovertidas e, repentinamente, tornam-se retraídas. O alerta serve principalmente aos responsáveis, mas também às pessoas de fora que podem detectar situações vivenciadas dentro da casa da vítima.

Outras características para as quais os responsáveis precisam se atentar é com relação ao medo excessivo da criança perante uma pessoa ou um perfil determinado de pessoa, além de uma tendência mais sexualizada dela em uma idade não condizente.   

- É importante ressaltar que não ocorre por culpa da criança. Mas os responsáveis precisam investigar o que está acontecendo, de onde está vindo esse comportamento - reforça. 

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Como denunciar 

O comunicante pode registrar o boletim de ocorrência na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (localizado na rua Dr. Plácido Olímpio de Oliveira, 843, bairro Bucarein), que funciona das 12h às 19h. Ou na 7ª Delegacia de Polícia (rua Pref. Helmuth Fallgatter, 215, bairro Boa Vista, Joinville) que conta com atendimento 24 horas. A delegada titular da Dpcami orienta o registro de forma presencial para a execução de perícias e diligências policiais. 

Durante a pandemia, os canais de denúncia ampliados pela Polícia Civil de Santa Catarina também abrangeram casos de violência contra menores de idade.

Além do Disque 100 - canal aberto para qualquer denúncia de crime em território nacional -, e do Disque 181, que recebe denúncias em Santa Catarina, também está disponível um contato por WhatsApp. Nesse caso, mensagens podem ser enviadas a qualquer horário para o (48) 98844-0011.

Há ainda a opção de registro de boletins de ocorrência pela delegacia virtual, no site da Polícia Civil.

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A Polícia Militar também tem recebido denúncias através do 190, número de emergência da corporação. Além disso, a PM atua ainda na prevenção de crimes contra crianças e adolescentes através do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), que aborda questões demandadas pela comunidade escolar junto com os alunos, professores e pais.

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