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Ensino superior

Reitor da UFFS em Chapecó defende permanência: "Pode o inferno soprar que não tiro o pé"

Marcelo Recktenvald enfrenta resistência da comunidade acadêmica e contesta pedido de destituição aprovado pelo Conselho Universitário

09/10/2019 - 09h10

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Darci
Por Darci Debona
Marcelo Recktenvald falou sobre a pressão após a nomeação como reitor
Marcelo Recktenvald falou sobre a pressão após a nomeação como reitor
(Foto: )

Alguns minutos antes do horário marcado para a entrevista, o reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Marcelo Recktenvald, chega ao seu gabinete em Chapecó e solicita para uma servidora do gabinete, que está desde a fundação da universidade, a impressão de um trecho de sua tese de doutorado.

Marcelo Recktenvald tem vivido sob pressão no cargo. Foi o terceiro colocado em consulta pública da comunidade universitária, mas seu nome integrou a lista tríplice e foi escolhido pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. A nomeação desagradou parte da comunidade acadêmica. Um movimento ocupou a reitoria por três semanas, impedindo a entrada do novo reitor. Só houve a desocupação após intervenção da Justiça.

No Conselho Universitário, foi apreciado um pedido de destituição do reitor, que precisava de dois terços dos votos. O pedido teve 35 votos favoráveis. O reitor entende que, pelo regimento, seriam necessários 36 votos, pois o conselho tem 54 cadeiras. O grupo favorável à destituição fez um pedido de ordem e continuou a sessão, considerando a medida aprovada, por entender que somente 51 pessoas tinham direito a voto, o que daria os dois terços de aprovação.

Nesta terça-feira (8), ocorreu uma audiência na Câmara dos Deputados, onde foi retirada uma moção em apoio à decisão do Conselho Universitário. Mas isso, na prática, não deve mudar a situação, já que a destituição dependeria de uma mudança de ideia do presidente.

Recktenvald recebeu o NSC Total nesta segunda (7) para falar sobre a situação. A tese de doutorado que ele havia pedido, minutos antes da entrevista, é intitulada “Políticas de permanência em uma universidade pública popular: compreendendo os clamores de acadêmicos em situação de vulnerabilidade econômica”. Traz relatos de inclusão de 20 estudantes negros, quilombolas, indígenas, haitianos, filhos de agricultores familiares, de assentamentos, pessoas com deficiência, entre outros. Também trata da necessidade de políticas para garantir a permanência desses estudantes na instituição.

A tese foi concluída em 2017, quando Recktenvald era pró-reitor de gestão de pessoas na instituição. E traz um relato também de sua realidade de vulnerabilidade social enquanto era jovem, com pais separados e vivendo três anos e meio no orfanato Lar Bom Pastor de Ivagaci, em Boa Vista do Buricá (RS).

Aos 13 anos, ele não era órfão, mas sua mãe não tinha como sustentar os três filhos. Apenas o caçula foi com ela para Palmeira das Missões (RS), onde morava de favor no porão da casa de um tio de Marcelo. No seminário, o adolescente começou a ter contato com a parte religiosa, frequentando a Assembleia de Deus.

A religiosidade continua presente no discurso do novo reitor da UFFS, que tem 44 anos. Quando completou 17 anos, ele decidiu ir morar com a mãe para ajudá-la. Conseguiu um emprego em um supermercado e depois um estágio no Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul. Depois, aprendeu a tocar saxofone para ganhar mais um salário na banda municipal, para conseguir pagar a faculdade de Administração em um curso avançado da Universidade de Passo Fundo (RS).

Mudança rumo a Santa Catarina

Posteriormente, se mudou para Brusque, no Vale do Itajaí, onde morava uma cunhada. A esposa dele não quis se mudar para Porto Alegre, quando a empresa em que trabalhava, do ramo do agronegócio, transferiu a atividade para a capital gaúcha.

Foi então que Recktenvald iniciou na docência, primeiro na Unifeb, depois na Uniasselvi e Fatesc. Fez mestrado na Furb. Teve as filhas Isabela, em 2004, e Ana Caroline em 2008. Fez um curso de Teologia e foi consagrado pastor batista. Até que surgiu a oportunidade de um concurso na recém-criada UFFS, em 2010. Inicialmente, tinha uma vaga para professor do curso de Administração, passou em segundo, mas chamaram os cinco primeiros.

Virou coordenador do curso de administração, secretário especial de assuntos estudantis, pró-reitor e reitor nomeado em lista tríplice, mesmo tendo ficado em terceiro na consulta pública. Esse fato gerou forte reação na comunidade universitária, inclusive, com ocupação da reitoria por três semanas e pedido de destituição no Conselho Universitário. Sobre as frequentes notícia de resistência à sua nomeação, o reitor da UFFS dispara:

— É melhor do que ser acusado de corrupção.

Durante uma hora e meia, o NSC Total entrevistou Marcelo Recktenvald para mostrar quem é e o que pensa o reitor da UFFS. Ele afirmou que é um homem de oração e que vai se manter no cargo, apesar das pressões. Inclusive, nesta terça-feira (8), foi realizada uma audiência pública na Câmara Federal para tratar das nomeações nas universidades. Mas o reitor disse que não se dobra a pressões.

— Passei por muitas dificuldades e quando Deus abre uma porta ninguém fecha. Pode o inferno inteiro soprar que eu não tiro o pé daqui — afirma.

Confira a entrevista:

Como fica a questão de legitimidade de ter sido nomeado apesar de ser o terceiro na consulta pública?

Acredito que a legitimidade se constrói a partir de um número significativo de pessoas que acreditam no projeto. A única que vez que o nosso projeto foi confrontado com a candidatura que ficou em primeiro lugar tivemos uma diferença de 5,7 pontos percentuais. Ficamos com 21,4% em 18 dias de campanha, contra meses de campanha. Em 18 dias construímos uma legitimidade.

O senhor tem enfrentado certas críticas pela questão religiosa estar muito presente em seu perfil, não é?

Isso é uma questão que carrego de berço e nunca foi problema. Já ouvi muitas piadinhas nos bastidores. Tem bastante preconceito. Aqui além de ter tudo de belo tem coisas terríveis, paradoxalmente tem solidariedade, tem altruísmo, mas tem muita hipocrisia. Fala-se em diversidade mas só se aceita uma diversidade relativa, não no sentido amplo. É um ambiente de muita pressão e muito preconceito. Você pode ser o que você quiser dentro da universidade, menos cristão. Você ser das mais diversas orientações sexuais mas não pode ser crente. Você pode ser progressista, sem peso na consciência. Mas se disse que é conservador, não combina é fundamentalista, você acredita que a terra é plana, você é fundamentalista, você desvaloriza a ciência.

Eu não desvalorizo a ciência, minha atividade é na academia, mas eu quero ter a liberdade dentro da universidade buscar a excelência acadêmica, mas resguardar valores que considero essenciais: fé em Deus, amor pela família e acreditar num Brasil melhor.

Mas você continua pastor?

Uma vez pastor, sempre pastor. Mas não estou na ativa. Vou na igreja, rezo, mas não misturo as coisas. Na universidade pretendo implementar os princípios da nossa campanha que é uma universidade pública, laica, apartidária. O antigo reitor, por exemplo, estudou para padre e ninguém falava nada. Busco uma gestão de eficiência, que é uma resposta desejada. A fé ou a falta dela no âmbito da individualidade deve ser respeitada.

Seu orientador do doutorado poderia ser considerado de esquerda?

Creio que sim.

Você também era ideologicamente mais de esquerda e agora é de direita, ou não. Como você se define?

Eu sou um cara de direita. Mas respeito quem é de esquerda. Mas porque sou de direita? Porque um dos valores fundamentais tem a ver com a liberdade individual. Defendo o estado mínimo. Aliás, os valores do conservadorismo. E tem a questão religiosa. Não tem como ser cristão de fato, e eu sou, e acreditar na narrativa marxista. O marxismo atropela a individualidade para impor um estudo de vida totalitário e que matou milhões de pessoas. Ser de direita não é falta de humanidade ou preocupação com as pessoas. E minha tese é a prova disso. Por que essa tese não é uma tese esquerdista, é uma tese científica. O modelo que eu uso é um modelo interpretativista.

Estou falando das histórias de vida dos sujeitos, não de coletivo. Claro que indivíduos que compactuam do mesmo modo de vida tem necessidades parecidas. Mas no caso é a voz de várias pessoas que chameis de Marcelos.

Mas você participou da gestão anterior da reitoria que era mais ligada a um campo de esquerda, e a própria universidade foi criada no governo do PT, não é?

A universidade tem essa marca. Mas uma universidade não é da esquerda. Ela é da população. É tua, é minha, é do leitor. Não é do PT, mas também é da pessoa que é do PT. É de todo mundo. É nossa, é pública. Quando fiz essa defesa de políticas de permanência de estudantes vulneráveis socioeconomicamente, fiz porque entendo uma política pública que apoie o necessitado não é uma bandeira de um grupo ideológico, estamos falando de recursos públicos. O Programa Nacional de Assistência Estudantil tem uma rubrica que na nossa instituição chega a R$ 10 milhões voltados aos estudantes que precisam do apoio da universidade. Se eu disser que as políticas de cunho social são da esquerda e os caras da direita são egoístas eu estou incorrendo num sofisma enorme.

Os processos sociais mais efetivos se dão com autonomia das pessoas, não só com assistencialismo.
Reitor falou sobre temas como posicionamento político e planos para a universidade no Oeste de SC
Reitor falou sobre temas como posicionamento político e planos para a universidade no Oeste de SC
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Quais são seus desafios na gestão?

Um dos nossos desafios é a integração com a comunidade e a defesa da universidade pública laica, apartidária e com qualidade. Vamos abrir as portas para diversos segmentos da sociedade, entre eles o segmento empresarial, que precisa ser um parceiro, um financiador e um demandante de ações de pesquisa, ensino e extensão. A universidade também vai continuar com suas batalhas e contradições. Entre elas no Conselho Universitário.

Vocês não reconhecem o resultado de recomendação da destituição do reitor, que teve 35 votos favoráveis, de um universo de 54 conselheiros, mas que a maioria entendeu que não eram 54 que tinham direito a voto e por isso avaliaram que foi aprovado por dois terços?

Não. A votação foi encerrada e o resultado (de não aprovação) foi proclamado. A pauta já havia encerrada quando decidiram retomar a sessão. O artigo 56 do Regimento do Consuni diz que mesmo o conselheiro impedido de votar será computado no cálculo do quórum.

A proposta é de que eles sejam desconsiderados do quórum. Se tivesse sido aprovado eu encaminharia. Mas com tranquilidade de saber que o presidente não acataria de forma alguma.

Como fica administrar isso, a ocupação da reitoria, maioria contra no Conselho Universitário?

Respeitando papéis. O Consuni tem papéis normativos gerais. Nossas normativas gerais foram praticamente todas estabelecidas. Temos estatutos. O Consuni precisa se manifestar no que é de sua competência. Nessas distensões políticas eles podem avocar para si o que não é de sua competência e eu vou negar. O que é de competência do reitor não pode ser do Consuni. Vou fazendo tudo o que me compete. Eu represento a UFFS, convoco e presido as reuniões, escolho os pró-reitores. Estou fazendo tudo. Vou viver num ambiente de tensão com parte dos conselheiros até que eles entendam o papel de cada um. A Universidade está funcionando. O barulho é no Consuni e parte dos conselheiros com a imprensa.

Teve também um constrangimento de um pró-reitor, com alunos gritando no corredor.

Teve um fato também em Laranjeiras do Sul e comigo também aconteceu, durante a ocupação, entrei e fiz uma reunião com um setor e meia dúzia de juntou e fizeram um corredor polonês. Isso acalmou mas tem muito aluno que está sendo conduzidos por redes sociais e narrativas de alguns poucos sindicalistas, de gente que perdeu a teta, que já estavam contando com cargos de direção.

Quando começou a apoiar o presidente Bolsonaro?

Na eleição eu não me manifestei. Mas votei em Bolsonaro. A nossa associação com o Bolsonaro foi feita pelos adversários. Não usei isso na campanha. Mas coloquei algumas posições como a não permissividade com as drogas. O uso é questão de saúde pública mas o tráfico é caso de polícia.

Se tiver vou chamar a polícia. Sou conservador. Hoje o Bolsonaro representa o que o Brasil precisa para este tempo.

Quais são os outros projetos para a universidade.?

Redesenhar a estrutura de segundo escalão para que não tenham duas estruturas para a mesma finalidade. Reposiciona relação com a comunidade para que possa participar e ser parceira no financiamento e na entrega de soluções, com pesquisas úteis para o contribuinte. Melhorar os indicadores da universidade pois vamos receber verbas a partir desse índices de alunos em sala de aula, evasão, formados. Vamos buscar eficiência. Investir na permanência do estudante e não dar R$ 20 mil para evento da UNE reunir militância na Bahia.

Podemos concentrar disciplinas e reduzir cursos de cinco anos para quatro anos e assim economizaríamos 20% por aluno no Restaurante Universitário, por exemplo. Também pretendo fazer uma seleção complementar com provas anuais no Ensino Médio, o que facilitar o ingresso de estudantes da região e ocuparia as vagas ociosas. O professor está sendo pago com muitos ou poucos alunos.

Pode abrir mais cursos?

Isso pode ser feito aproveitando a estrutura que já existe em outros cursos. Se temos Medicina e Enfermagem podemos abrir outro curso na área da saúde. Temos que ter sinergia.

Conheça a UFFS

— Criada em 2009, tem seis campi: Erechim (RS), Cerro Largo (RS), Passo Fundo (RS), Laranjeiras do Sul (PR), Realeza (PR) e Chapecó, onde está a reitoria.

— Tem cerca de 8 mil alunos, sendo 3,2 mil em Chapecó.

— Formou 3.694 pessoas em mais de 40 cursos.

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