Parecia uma manhã comum naquele 25 de janeiro de 2021 na Lagoa da Conceição, um dos principais cartões-postais de Florianópolis e lar de milhares de pessoas. Em um instante, tudo foi tomado pela água. Casas alagadas, carros arrastados, com a principal rua da região, a Avenida das Rendeiras, sendo interditada. O caos foi provocado pelo rompimento em uma lagoa artificial utilizada pela Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), episódio que completa cinco anos neste domingo (25).

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Mariana Furlan Antigo, hoje com 44 anos, lembra bem do acontecido. Ela estava dormindo no andar de cima da casa em que vivia há anos, ao lado de seus dois cachorros. De repente, ela acordou com o barulho de gritos e da força da água. Quando olhou pela janela, a água estava praticamente no telhado das casas. Foram aproximadamente 180 milhões de litros de efluentes na Lagoa da Conceição lançados pelas ruas do bairro.

Na casa dela, tudo o que estava no primeiro andar, estava boiando, com a água subindo rapidamente. O cheiro daquele dia, ela também não esquece: gás e curto-circuito. A casa em que ela estava era alugada, mas Mariana acabou perdendo seu carro no desastre ambiental.

Mariana conta que recebeu muita ajuda da comunidade e de outras pessoas, com doações de roupas e de itens essenciais que necessitava naquele momento. Pelo trauma, ela resolveu se mudar do local e, hoje, não consegue entrar na rua em que o ocorrido aconteceu.

Isnard Luí não morava na Lagoa da Conceição, mas o pai dele vivia lá há pelo menos 25 anos. De repente, Isnard começou a receber mensagens de amigos, perguntando o que estava acontecendo no local. Ele, então, entrou em contato com o pai, que havia feito uma cirurgia à época, e resolveu ir até o bairro para entender de perto a gravidade da situação.

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A casa do homem também era de dois andares, assim como de Mariana, mas não foi atingida estruturalmente. O pai de Isnard, no entanto, se sentiu muito mal com o ocorrido, tendo a “sensação de quase morte”, segundo o filho.

— Nos momentos seguintes, houve uma conexão entre os moradores. Foram eles que começaram a se organizar e mediante a isso fazer solicitações para a Casan, para que a empresa atendesse essas necessidades dos moradores — afirmou.

Naquele mesmo dia, os moradores começaram a receber doações, com produtos de limpeza para limpar as residências, água potável, itens de higiene. Aos poucos, a vida voltou a se organizar na região, mas a união dos moradores perdura até os dias atuais, mesmo cinco anos tendo se passado.

Hoje, o pai de Isnard não mora mais na mesma casa. Isso porque, segundo o filho, o trauma da situação acabou o fazendo ficar preocupado de forma excessiva com as condições do tempo, com o medo perdurando.

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Pelo impacto, tanto material — foram, ao todo, 78 casas e 21 veículos atingidos — como psicológico, muitos moradores entraram com ações de indenização. Em 2025, por exemplo, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina manteve a indenização de um morador atingido pelo rompimento da lagoa. Na época, o autor da ação alegou que o desastre foi agravado por negligência da empresa, além de falhas estruturais e excesso de carga no sistema, e pediu indenização por danos morais no valor de R$ 55 mil e por danos materiais de R$ 1.467.

No entanto, a Casan afirmou que o desastre ocorreu por causa das chuvas intensas, o que tornou o evento “imprevisível e jamais imaginado pelos órgãos ambientais, regulatórios ou municipais”. Por fim, a Justiça catarinense fixou a indenização por danos morais em R$ 30 mil.

Veja o desastre na Lagoa da Conceição em fotos

Perda de biodiversidade na Lagoa após o desastre

À Casan, foi aplicada uma multa de R$ 15 milhões por crime de poluição ambiental. De acordo com o biólogo Paulo Horta, antes mesmo do desastre, a lagoa já enfrentava um processo chamado de eutrofização crônica, que levou a perda de biodiversidade e à formação de zonas com pouco ou sem oxigênio nas áreas mais profundas da laguna.

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— O desastre resultou no processo de hiper eutrofização, floração de algas nocivas, expansão de zona morta, com áreas com pouco ou sem oxigênio, e consequentemente mortalidade em massa — afirma o especialista.

Cinco anos depois, o sistema voltou ao estado eutrófico, segundo Paulo, com perda de biodiversidade no local. Ele explica que durante esse processo, alguns animais gigantes, como linguados, por exemplo, acabaram morrendo. Dessa forma, o potencial ecológico da lagoa acabou impactado e, sem uma intervenção, pode levar muito tempo para que a Lagoa se recupere totalmente.

— Nós não estamos falando de uma lagoa 100% saudável. Estamos falando de uma lagoa que já tinha uma área morta, uma área com pouco oxigênio, chamada de zona morta. Tudo isso precisa ser fortalecido para que nós possamos não nos contentar de maneira nenhuma com aquilo que nós temos hoje. Nós precisamos buscar um futuro ancestral na perspectiva de restaurarmos a lagoa que tivemos — afirmou.

Além da perda de biodiversidade, a Lagoa também teve uma invasão de espécies exóticas, muitas vezes microscópicas. Como exemplo, Paulo Horta falou sobre um tipo de verme que forma “uma espécie de um pequeno recife calcário, desalojando espécies daqui”.

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— O desaparecimento das nossas espécies e a oportunização de nicho, a abertura de espaços, ecologicamente falando, para essas espécies invasoras, acaba produzindo uma grande transformação — explicou.

Ele lembra que esse tipo de espécie também possui um papel ecológico no local, contribuindo para a filtração da água, por exemplo. Para ele, esse tipo de movimento na biodiversidade, “mostra de alguma forma a resiliência do sistema”, mas que também “a sua fragilidade.”

Neste domingo, será lançado um projeto intitulado de Lagoa Viva, com o objeto de formulação de um diagnóstico dos impactos ambientais e a restauração do local, conforme explicou Paulo, que participa do grupo de pesquisa. Assim, para o diagnóstico, já está sendo realizado o monitoramento da qualidade da água, com acompanhamento por satélite.

Com esse monitoramento, o grupo terá uma perspectiva de como, quando e onde poderão ser feitas intervenções de restauração.

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— Nessa direção, nós já elegemos alguns experimentos para começar a restauração, à medida que avançamos no aprimoramento das técnicas de biorremediação, que pretende remover uma série de contaminantes que tem na lagoa, mas especialmente aqueles que estão associados à crise eutrófica — disse.

Relembre como foi o desastre na Lagoa da Conceição

Emissão de efluentes nas Dunas da Lagoa

Paulo também citou um movimento que pode ter melhorado a qualidade da água na Lagoa da Conceição.

— Um aspecto está relacionado à eventual melhoria na coleta e tratamento de esgoto. Este aspecto positivo precisa ser quantificado, valorizado e publicizado. Por outro lado, a lagoa pode ter se beneficiado do bombeamento de efluentes da Lagoa de Evapoinfiltração (LEI) para outras lagoas das dunas da Joaquina — lembrou.

Mesmo sendo um movimento positivo para a Lagoa da Conceição, segundo o especialista, o movimento de bombeamento de efluentes da Lagoa de Evapoinfiltração não foi bom para as outras lagoas das dunas, alertou o biólogo.

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— Foi extremamente negativa para as lagoas das dunas que tiveram perda de toda a biodiversidade fitobentônica, florestas submersas que são responsáveis por serviços ecossistêmicos fundamentais — afirmou.

O presidente da associação Amolagoa, Kleber Pinho, também manifestou preocupação com a emissão de efluentes nas outras lagoas. Ele afirma que lhe foi informado que o lançamento era para ser apenas provisório. Em reunião entre a associação e a Casan, no final de 2025, Kleber afirmou que a empresa apresentará um plano de ações para combater as contaminações oriundas da rede, além de combater as infiltrações por água da chuva.

— Estamos cobrando continuamente da Concessionária a apresentação detalhada do plano e de cada ação realizada, além das próximas, para que finalmente consigamos começar a perceber a poluição das águas da Lagoa reduzir — disse Kleber.

Casan diz que foram feitos investimentos de R$ 30 milhões

Em nota, a Casan afirmou que foram feitos investimentos superiores a R$ 30 milhões para a melhoria no saneamento da Lagoa da Conceição a partir do desastre em 2021 que, segundo a empresa, “evidenciou fragilidades acumuladas ao longo de décadas com infraestrutura antiga, baixo volume de investimentos e ausência de planejamento de longo prazo”.

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Segundo o presidente da Casan, Edson Moritz, a empresa reconhece que para que a Lagoa volte a ser o que era antes, é necessário mais que “respostas pontuais”.

— A Companhia cumpriu os protocolos do pós-acidente, como o pagamento das indenizações, por exemplo. E mais do que isso, adotou um novo padrão de gestão, baseado em método, controle, planejamento estratégico, acompanhamento técnico permanente e investimentos consistentes — afirmou.

Entre as obras citadas, está a implantação do processo terciário de depuração na Estação de Tratamento de Esgoto da Lagoa, com o tratamento de aproximadamente 4,9 bilhões de litros de esgoto nos últimos cinco anos. Os taludes das dunas da Lagoa de Evapoinfiltração, além da construção de um muro verde e a elaboração do Plano de Segurança de Barragem, segundo a empresa.

A Companhia também informou que foram feitas a dragagem de aproximadamente 10 mil m³ de lodo do fundo da LEI e a ampliação do monitoramento ambiental para controle contínuo da qualidade da água da Lagoa. Para além disso, também está sendo realizado o Projeto de Recuperação Ambiental (PRAD) da área afetada pelo desastre, segundo a empresa.

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No entorno da Lagoa de Evapoinfiltração, a restauração de mais de 8 mil metros quadrados do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição já apresenta resultados, conforme informou a empresa.

— Estamos dessa forma ampliando as alternativas técnicas e ambientais para a destinação final do efluente do Sistema de Esgoto da Lagoa da Conceição e, ao mesmo tempo, atendendo a demanda da população para desativação do bombeamento que é necessário para segurança dos moradores em períodos de chuvas intensas — disse a gerente de Meio Ambiente da Casan, Andreia Senna Soares Trennepohl.

A Companhia também disse, em nota, que segue com ações de fiscalização e diálogo com a comunidade, “com ação intensiva de regularização dos imóveis, combatendo o lançamento de esgoto na drenagem e descarte inadequado no ambiente”.

“Em paralelo, a Prefeitura de Florianópolis, em conjunto com a CASAN e apoio do Governo do Estado, de instituições técnicas, associações e a sociedade civil organizada, lançou no fim de 2025 o Pacto pela Lagoa – que prevê planejamento integrado com ações de curto, médio e longo prazo de um dos principais cartões-postais da Capital. A proposta integra ações já realizadas e amplia o planejamento. O programa parte de um diagnóstico técnico completo, que atua de forma integrada em três frentes: diagnóstico tecnológico total da rede, com uso de robôs de vídeoinspeção, testes com corantes e fumaça com ações do Trato pela Grande Florianópolis; recuperação cirúrgica da infraestrutura pública, com correção integral das falhas identificadas e uma ação intensiva de regularização dos imóveis, combatendo ligações irregulares“, finalizou o comunicado.

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