O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) autorizou, recentemente, por meio da Resolução nº 801/2026, a prescrição de antibióticos por enfermeiros. Como infectologista, preciso ser direta: esta decisão infundada me preocupa muito. Que fique claro que jamais irei desvalorizar a enfermagem; pelo contrário, valorizo demais sua atuação. O problema é que essa proposta ignora realidades fundamentais da prática médica, que podem colocar pacientes em risco e agravar um dos maiores problemas de saúde pública do nosso tempo: a resistência bacteriana.

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Então, vamos começar pelo básico. O que é prescrever um antibiótico? Não é simplesmente escrever um nome em um receituário. É um ato que começa com o diagnóstico diferencial, que é a capacidade de distinguir entre dezenas de possíveis causas para um mesmo sintoma. Febre, tosse, dor ao urinar, diarreia: esses são sintomas, não diagnósticos. Eles podem ser causados por vírus, bactérias, fungos ou nem mesmo por infecções. O médico passa, no mínimo, seis anos estudando para fazer essas distinções. O enfermeiro, por mais competente que seja, não tem essa formação.

Você, caro leitor, sabia que a maioria das infecções respiratórias em adultos é viral? Estudos mostram que até 80% não precisam de antibiótico. Mas, sem formação em diagnóstico diferencial, como distinguir uma faringite viral de uma bacteriana? O risco é o tratamento desnecessário, que aumenta significativamente a resistência aos antibióticos.

A farmacologia dos antibióticos é uma especialidade dentro da medicina. Não se trata apenas de saber que “amoxicilina trata infecção”. É preciso entender o espectro de ação (cada antibiótico ataca bactérias específicas), a farmacocinética (como o medicamento se distribui no corpo), as interações medicamentosas (especialmente importantes em idosos que tomam múltiplos remédios), o ajuste por função renal e hepática (dosagens erradas podem causar toxicidade grave) e o perfil de resistência local (que varia entre comunidades, hospitais e até entre alas do mesmo hospital).

Um exemplo concreto: um paciente idoso com infecção urinária. O médico avalia a função renal (para ajustar a dose), alergias prévias, outros medicamentos em uso (risco de interações), comorbidades (diabetes, cardiopatias) e o perfil de resistência local. Isso é medicina de precisão.

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Aqui está onde precisamos mudar o foco. Em vez de discutir substituição, deveríamos falar em valorização das competências reais dos enfermeiros. Sua formação os torna excepcionais no monitoramento clínico (um paciente em uso de antibiótico precisa ser observado diariamente: melhorou? Piorou? Desenvolveu efeitos colaterais?), na educação do paciente (explicar por que é importante tomar o antibiótico no horário certo, completar o tratamento mesmo se melhorar, reconhecer sinais de alerta) e na prevenção de infecções (lavagem das mãos, cuidados com cateteres, higiene hospitalar).

Na gestão de protocolos, em situações com diagnóstico já estabelecido por médico, seguindo protocolos institucionais claros e com canal aberto para supervisão, os enfermeiros podem ter papel ampliado. Mas o diagnóstico inicial precisa ser médico.

Estamos perdendo a guerra contra as bactérias. A Organização Mundial da Saúde classifica a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças à saúde global. No Brasil, temos bactérias resistentes a praticamente todos os antibióticos disponíveis. Cada prescrição inadequada é um tiro no pé da humanidade. Quando usamos antibióticos sem necessidade, selecionamos as bactérias mais resistentes — e essas bactérias não ficam apenas no paciente. Elas se espalham no hospital, na comunidade e no meio ambiente.

A proposta de enfermeiros prescreverem antibióticos me faz pensar: queremos realmente ampliar o uso desses medicamentos em um momento em que precisamos reduzir drasticamente seu uso inadequado?

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Como infectologista, defendo o reconhecimento da complexidade envolvida na prescrição de antibióticos, que é uma decisão clínica complexa e exige formação completa em medicina. Defendo, sim, a valorização real dos enfermeiros, com mais autonomia nas áreas em que sua formação os torna excepcionais: cuidado direto, educação, prevenção e monitoramento.

Coloco o foco na segurança do paciente, pois cada decisão terapêutica deve passar pelo crivo da pergunta: “Isso é seguro para o paciente hoje e para a comunidade amanhã?”. Insisto no combate à resistência bacteriana. Precisamos de menos prescrições inadequadas, não de mais prescritores. Acredito que o caminho é a colaboração, não a substituição: equipes multidisciplinares em que cada profissional atua no máximo de sua competência, com respeito mútuo e objetivos compartilhados.

Para você, leitor, se estiver com sintomas de infecção, procure um médico. Não aceite antibióticos sem avaliação adequada. Pergunte: “Doutor, eu realmente preciso de antibiótico? Não poderia ser viral?”.

Enfermeiros são fundamentais no sistema de saúde, mas sua atuação deve ser complementar, não substitutiva. A prescrição de antibióticos exige formação em diagnóstico diferencial e farmacologia antimicrobiana, que apenas a graduação médica proporciona. O caminho é integrar competências, não transferir responsabilidades. A saúde dos pacientes e o futuro da eficácia dos antibióticos dependem dessa distinção clara.

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Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.